sexta-feira, 31 de agosto de 2012

SOLIDÃO


As ondas que mansamente se espreguiçam na areia fina parecem de prata à luz branca do luar.
Estou só na imensa praia deserta. Estou só mas não tenho medo. Para mim a solidão é uma constante, um hábito. Companheira inseparável.
Eu sei que é um pensamento louco, mas por vezes chego a pensar se não terei nascido só... Mas ninguém nasce só e como toda a gente eu também terei nascido do ventre de uma mulher. Mas que mulher? Alta, baixa, loura ou morena? Quantas vezes procurei reunir na minha mente os traços dessa mulher que me deu o ser para logo abandonar-me. Imaginá-los, idealizá-los...Talvez fosse alta, loura, pois é esse o meu tipo e como eu tivesse olhos azuis, mas também poderá ter sido morena e de olhos escuros e nesse caso terei herdado os traços do meu pai.
As ondas lambem-me agora os tornozelos finos. Inconscientemente avanço alguns passos e os meus pés enterram-se mais e mais na areia macia. Custa-me levantá-los. A água rumoreja á minha volta formando pequenos círculos envolventes, provocando-me uma sensação estranha. Sentia o mesmo quando em criança atirava pedrinhas ao lago que existia no jardim do lar para crianças abandonadas, onde fora criada. A água esverdeada formava pequenos círculos á sua volta e depois engolia-as.
A água chega-me agora aos joelhos. Está fria e sinto um arrepio. As minhas pernas parecem deformadas debaixo da água, mais gordas. Sempre tivera pernas altas e finas.
- Tens umas pernas de enguia, mas são lindas. - Abraçava-me e eu sentia-me feliz nos seus braços. O amor chegara e com ele partira a solidão. Como a vida era bela. Tinha um ombro para me recostar, lábios para me beijaram, ouvidos para me escutarem e braços para me abraçarem e protegerem.
Deixo cair a saia, pois mesmo arregaçada, molha-se. A água chega-me agora quase á cintura, gélida e envolvente como um tentáculo, mas eu continuo sem medo. Medo de quê? O mar é meu amigo. Abraça-me e murmura á minha volta doces palavras. Avanço mais para ele. Sobe-me ao longo do corpo, cinge-me o busto e começa a acariciar-me a garganta.  Arrepio-me como dias antes nos braços de Paulo. As sua palavras, pareço ouvi-las sobre as ondas como um eco.
- Hoje é o último dia, amor. Sabes, custa-me muito. Amo-te tanto, mas há outra mulher, a minha mulher e um filho... Compreendes?
Languidamente a agua sobe mais, lentamente, em volutuosa carícia. Afinal não foi um sonho.
- Beija-me muito, amor. A solidão acabou.

Virgínia Santana

Conto da minha autoria escrito em 23/5/1977

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