Hà muitos, muitos anos, uma pobre mulher vivia com a filha ainda jovem, numa pequena aldeia. Depois da morte do marido a vida de mãe e filha piorava de dia para dia e os magros proventos de que dispunham mal chegavam para comprar pão. Para agravar a situação o marido contraira uma dívida com um homem mau e ganancioso que apareceu a exigir da viuva o pagamento. Alegando o seu direito á casa como saldo da dívida o malvado despejou-as da casa sem quaisquer escrúpulos, deixando-as no meio da rua ao frio e á chuva.
Carregando um pequeno saco com os seus parcos haveres e aconchegando-se aos grossos xailes de lâ, afastaram-se da aldeia na esperança de encontrar algum abrigo de pastores onde pudessem pernoitar.
Depois de muito andarem e com a noite já a cair, encontraram finalmente uma velha casa abandonada que atendendo à necessidade lhes pareceu um palácio. Por cima da porta meio desmantelada, tinha uma placa onde apesar da sugidade se conseguia ler, Montinho Velho.
Depois de fecharem a porta conforme puderam, mãe e filha dividiram entre elas o magro jantar e aconchegando-se uma à outra logo adormeceram, que o cansaço era muito.
De manhã foram despertadas por leves pancadas na porta. A jovem ficou muito assustada., mas a mãe animou-a.
- Não tenhas medo, ninguem nos pode roubar porque não temos nada - e levantando-se foi abrir a porta.
Na sua frente estava um mendigo de compridas barbas brancas e coberto de farrapos.
- Peço desculpa senhora por vir incomodá-la. Tenho por hábito dormir aqui mas ontem quando cheguei vi que já estava ocupado.
- Eu é que tenho que pedir desculpa, por ter tomado o seu lugar. Hoje mesmo eu e minha filha partimos.
- Não, não - objetou o pobre homem - pelo menos aqui estão ao abrigo do frio e da chuva - e logo de seguida acrescentou - vou buscar-lhes o pequeno almoço.
Afastou-se apressadamente deixando a mulher muito admirada.
Passado algum tempo reapareceu trazendo um tabuleiro com um pequeno almoço apetitoso e requintado.
Embora espantadas as duas mulheres não se fizeram rogadas. Partilharam os três a refeição e em seguida o mendigo desapareceu com o tabuleiro vazio.
Há hora do almoço repetiu-se a cena e igualmente ao jantar.
Conversaram com o mendigo que para surpresa de mãe e filha, verificaram ser homem com muitos conhecimentos e agradável conversa. Era uma pena que estivesse tão imundo e tivesse tão mau aspeto.
Ao anoitecer o mendigo desapareceu para reaparecer pouco depois trazendo mantas quentinhas.
- É para não terem frio de noite - explicou.
Cada vez mais admirada a mãe perguntou.
- E o senhor onde vai dormir?
- Não se preocupem comigo - respondeu, desaparecendo na escuridão da noite.
No dia seguinte e nos outros que se seguiram tudo se repetiu tal como no primeiro. Mãe e filha morriam de curiosidade por saber onde o mendigo andrajoso ia buscar tantas iguarias e o que mais precisavam, mas faltava-lhes a coragem para perguntar.
Entre eles crescia uma forte amizade.
Certo dia o mendigo apareceu no casebre, logo pela manha, muito abatido. Vinha de mãos vazias.
- Minhas queridas amigas - lamentou-se - hoje teremos de contentar-nos com este pequeno almoço - e abrindo um pano de brancura duvidosa, mostrou-lhes algumas fatias de pão ressequido e diversos frutos silvestres, que certamente teria colhido no bosque.
As duas mulheres animaram-no imediatamente:
- Não se preocupe meu amigo. Estávamos a ficar mal acostumadas.
Vendo que que o homem continuava de semblante triste, a jovem animou-o.
- Não esteja triste bom homem, tudo se vai resolver. Já nos ajudou muito. - E carinhosamente pousou a mão no braço do mendigo, que pareceu animar-se.
Apesar da estranheza das duas mulheres, nada perguntaram sobre o que teria motivado esta alteração.
No dia seguinte como no outro, manteve-se esta escassez de alimentos e o mendigo parecia cada vez mais abatido por não poder socorrer as suas amigas.
Ao terceiro dia, a mãe da jovem tomou uma decisão.
-Acho que devemos partir, talvez encontremos trabalho. Está a começar a época das vindimas e costumam angariar pessoal para a apanha da uva.
A jovem concordou:
- Tambem acho o mesmo. Não podemos ficar aqui á espera que algo aconteça...
O mendingo opinou tristemente;
- Vão minhas amigas. Mais nada posso fazer por vós.
Mãe e filha olharam-no compadecidas.
- Venha connosco. Podemos ajudar-nos mutuamente, para além de que já nos habituamos à sua presença.
- Venha, venha. Para nós já é como família. - insistiu a jovem.
- Não, não - objetou o mendigo - só iria atrapalhar-vos...
- Nem pensar. Gosto tanto de si... - e a jovem num gesto carinhoso aproximou-se e pegando-lha na mão apertou-a na sua.
O mendigo pareceu animar-se e ganhar nova energia.
-Está bem - acedeu - juntem as vossas coisas que eu não demoro - e desapareceu na neblina matinal.
As duas mulheres ocupavam-se a juntar os seus parcos haveres, quando subitamente ouviram um ruido inusitado, que lhes pareceu o relincho dum cavalo.
Sairam para a rua onde para seu espanto viram estacionada uma carruagem puxada por diversos cavalos e conduzida por um cocheiro de libré. Mais surpresas ficaram quando viram sair do seu interior um jovem de belo aspeto e muito bem vestido.
- Não me reconhecem minhas amigas? - perguntou com um sorriso divertido ás duas nulheres que permaneciam especadas, literalmente de boca aberta.
-Não posso acreditar -acabou por balbuciar a jovem.
-Mas é ele mesmo!... - confirmou a mãe.
- Sou eu mesmo, minhas amigas. Entrem - convidou o jovem indicando a porta da carruagem que um escudeiro mantinha aberta e perante a exitação das duas, insistiu- nada receiem. Vou explicar-vos tudo quando estiverem acomodadas.
A carruagem pôs-se em andamento e o jovem prestou-se então a dar as explicações que os olhos das duas suplicavam.
- Lamento muito tervos enganada, mas acreditem foi por uma boa causa. Sou uma pessoa muito abastada. Os meus pais deixaram-me um bom nome e uma grande fortuna, mas tambem uma grande descrença nos valores da amizade. - Pegou nas mãos das duas e unindo-as apertou-as carinhosamente entre as suas - sempre vi os meus pais rodeados de interesseiros e bajuladores, falsos amigos que os invejavam mas que levitavam à sua volta para beneficiarem dos seus favores e poder. Perguntei-me muitas vezes sobre a existência da verdadeira amizade e então tive a ideia de fazer uma experência... compreendem?
- Compreendemos, compreendemos!... responderam em unissono - mas porquê nós.
- Foi realmente um acaso e na melhor altura, pois estava a ficar desanimado. Fui escorraçado, maltratado e humilhado, mas vós trataste-me como um amigo. Souberam agradecer as benesses que vos trouxe mas quando elas acabaram, continuaram ao meu lado sem fazerem perguntas desnecessárias.
- E agóra, para onde nos levas? - perguntou a mãe algo preocupada.
- Não me convidaram para continuarmos juntos, para vos acompanhar na tentativa de conseguirem melhorar a vossa vida? Pois então? Vão ficar comigo e fazer parte da minha. Serão as minhas amigas leais, que eu sei nunca me trairão ou abandonarão, em que circunstância for
O jovem levou-as para o seu palacete e deu-lhes tudo do melhor. Em contrapartida tinha delas o que mais prazer e alegria lhe dava. Uma pura e verdadeira amizade.
24/08/2012
Posso considerar que este conto foi escrito por mim. Da história que o meu pai me contava, quando eu teria talvez uns 4 anos, só me lembro precisamente do nome da casa abandonada e vagamente de que haveria uma mãe e uma filha muito pobres que tinham sido ajudadas por uma personagem, que penso seria um principe encantado. Imagino que teria tido um final feliz e que alguem teria casado com alguem e teriam sido felizes para sempre...
Virgínia Santana
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