Há muitos, muitos anos,
dum sono profundo
de mil eras acordada,
da montanha alterosa
escorreu para o mar
a negra lava
e galgando aldeias,
comeu casas e adegas,
engoliu vinhas,
inhames, batatais,
pomares e muito mais.
Tudo envolveu num manto
vermelho e negro,
de enganadora beleza.
Homens, mulheres,
crianças e animais,
de espanto e terror tomados,
fugiram apavorados,
à frente da lava ardente,
correndo desembestados.
Aos magotes, aos grupos
e em grande confusão,
pediam a Deus ajuda,
clamando salvação.
Ao vasto mar azul,
lá chegaram finalmente
e sem mais fuga ou saída,
de joelhos caíram,
dedilhando os seus rosários.
A forte e negra torrente,
célere se aproximava,
rugindo como um leão.
Por acaso ou mão de Deus,
por milagre ou compaixão,
desviou-se a lava ardente
e no mar se despenhou,
poupando aquela gente.
Tomados de alegria
e profunda gratidão,
juraram ali mesmo
tal milagre agradecer,
com todo o seu coração.
Assim podemos ver,
ainda hoje alcantorada,
nas rochas de negra lava,
a ermida do Cachorro,
onde o povo vai recordar
o milagre da salvação.
Virgínia Santana
Alguma vezes ouvi esta história, que quase se transformou em lenda, contada pela minha avó que a teria ouvido da minha bisavó, que a teria ouvido da minha trisavó, que a teria ouvido contada pela mãe que seria a minha tetravó e que seria viva na época da última erupção vulcânica em 1720.
Ficaram cansados de ler? Eu fiquei de escrever...
Resolvi recontá-la em verso para variar. Espero que gostem.
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