quinta-feira, 9 de agosto de 2012

O LADRÃO DE BAGDADE

Numa época muito distante da história do Iraque, vivia na bela cidade de Bagdade um belo rapaz chamado Hamed. Oriundo de famílias muito pobres, Hamed levado pela ganância de enriquecer facilmente tornou-se ladrão.
Mas este ladrão tinha uma particularidade. Uma parte do que roubava aos ricos  e poderosos da época, guardava para si e a outra parte distribuia-a pelos pobres.
Certo dia, passando perto do palácio real teve um louco pensamento. O de assaltar o imponente edífício, morada dos reis e de sua filha a princesa Estrela da Manhã, cuja fama de beleza andava de boca em boca.
Ele sabia que o palácio real era guardado dia e noite por guardas armados até aos dentes, auxiliados por ferozes mastins, capazes de estraçalhar num minuto qualquer intruso.
Rondando o palácio dia e noite, estudou o movimento dos guardas, a hora de rendição dos mesmos, as fragilidades do sistema, estabelecendo um plano infalível, para realizar o maior roubo da sua vida.
Aguardou pacientemente  pela ocasião propícia e numa noite escura de breu, munido dum rolo de corda e dum saco, aproximou-se do palácio.
Esperou que o guarda fizesse a última ronda e agilmente saltou o muro. Lançando a corda, enrolou-a à volta dum pilar e em poucos segundos alcançou  um vasto terraço que dava acesso aos aposentos reais. Cuidadosamente, silencioso como uma sombra, acercou-se de uma das portas que se encontrava entreaberta e espreitou.
Numa larga cama com docel, primorosamente trabalhada e entre lençois de cetim, descansava a princessa Estrela da Manhã.
Hamed quedou boquiaberto, absolutamente fascinado pela beleza da princesa. Nunca imaginara que pudesse existir uma mulher tão bela, tão perfeita. Já várias vezes a vira passar, transportada de liteira pelos criados, mas como é tradição entre os muçulmanos, trazia o rosto coberto por pesado veu, para além de que a liteira se encontrava protegida dos olhares indiscretos por cortinas da mais pura seda.
Fascinado, deslumbrado por tanta beleza, esqueceu-se toalmente do propósito que ali o levara. Só um pensamento fervilhava na sua cabeça. Aquela mulher tão bela teria de ser sua esposa.
Abandonou o palácio e regressou a casa, perfeitamente obsecado pela imagem da princesa.
Passaram-se muitos dias desde os acontecimentos já relatados e Hamed não voltara a roubar. Passava os dias olhando as saidas do palácio na esperança de ver a princesa ou ficava em casa matutando um plano para conquistá-la.
Certo dia a cidade acordou com os som das flautas dos arautos. O rei, mediante pregão público, comunicava á população  que tendo a sua amada filha, a princesa Estrêla da Manhã alcançado a idade própria, procurava pretendentes adequados à alta pretensão de se tornarem principes consorte.
Imediatamente um plano louco passou pela cabeça do jovem apaixonado.
Possuia uma sólida fortuna, fruto das riquezas acumuladas pelos muitos roubos que praticara, mas até à data nunca fizera uso dela, limitando-se a uma vida pacata. Chegara o momento de utilizá-la, na sua opinião pela melhor causa e deitou mãos à obra sem hesitações.
Começou por adquirir um palacete nas redondezas da cidade, que decorou com objetos de rara beleza. Rodeou-se de criados, cozinheiros e guardas, recrutados entre os seus antigos conhecimentos. Adquiriu belos cavalos  e formou um pequeno séquito com um grupo de homens escolhidos a dedo entre os mais valentes e destemidos do submundo da cidade, que sabia lhe seriam fieis em que circunstância fosse.
Quase dum dia para o outro desapareceu o ladrão e surgiu em seu lugar o principe Hamed.
No dia aprazado apresentou-se no palácio real acompanhado do seu pequeno exercito, ricamente ataviado.
Para além de Hamed mais dois pretendentes se apresentaram, dispostos a lutar pela mão da princesa.
Eram eles, Igor, principe de Damasco e Assam, que vinha da distante cidade do Cairo.
O rei recebeu-os no salão nobre do palácio, tendo a seu lado a princesa. Hamed era um belo homem e imediatamente os olhos de Estrêla da Manhã se fixaram nele cheios de curiosidede.
- Meus caros principes - proferiu o rei solenemente - estou-lhes imensamente grato pela vossa pretensão á mão da minha amada filha, mas como deveis compreender sois três e ela só poderá desposar um. Assim, irei pôr uma condição, para então poder escolher com justiça o meu futuro genro e principe consorte.- Ansiosos os três principes bebiam as palavras do rei, que continuou. - O que trouxer á minha filha o presente mais raro, desposá-la-á.
Curvando-se em sinal de respeito, retiraram-se.
- Vou voltar ao meu reino. Em Damasco existem coisas raras e maravilhosas - declarou Igôr.
- Eu tambem vou sair da cidade. Penso que aqui não encontrarei nada de muito raro ou especial - disse Hamed.
- Pois eu tambem vou . Na cidade de  Istambul dizem existir objetos raros e maravilhosos. Podemos seguir juntos até á proxima encruzilhada e dai cada um seguirá o seu destino. Mas penso que deveriamos viajar sós, sem escolta.
Todos concordaram e depois de dispensar os homens, partiram, apenas munidos de uma arma para se defenderem e alguns viveres. Separaram-se na primeira encruzilhada, combinando encontrar-se ai no regresso da viagem e antes do término do prazo imposto pelo rei.
Igôr, tal como afirmara voltou à bela cidade de Damasco, famosa pelas sedas de rara beleza, de textura finissima e alta qualidade, talvez as mais belas do mundo. Percorreu incansavelmente as lojas mais afamadas, os mercados de artesãos que trabalhavam a seda bordando-a com fios de ouro e prata  criando verdadeiras obras de arte, mas não encontrava nada verdadeiramente raro que lhe pudesse merecer a benesse da mão da princesa. Cansado e cheio de seda  entrou numa tasca afim de matar a sede.  Um vendedor ambulante de quinquilharias acercou-se dele, mas foi logo afastado por um aceno de mão, pelo principe que lhe disse em ar de graça.
- Só te compraria alguma coisa, se fosse tão rara que não houvesse mais nenhuma na terra.
O homem inclinou-se sobre ele e segredou-lhe.
Tenho algo tão raro que não encontrarás outro igual, mas custa muito, muito dinheiro...
- Dinheiro não é problema. Mostra-mo sem demoras.
O homem fez sinal a Igôr para que o seguisse e já em sua casa apresentou-lhe um pequeno binóculo, um simples tubo de cobre com duas lentes nas extremidades. O principe soltou umsa gargalhada.
- É este a tal tesouro raro?
- Esse mesmo - confirmou o vendedor - experimenta-o. Pede para veres o que quizeres e ele mostrar-to-á. -Igôr olhou pelo óculo e desejou ver a princesa Estrêla da Manhã. Imediatamente ante os seus olhos incrédulos surgiu a princesa passeando nos jardins do palácio na companhia das suas aias. Maravilhado, pagou o que o homem lhe pedia, uma pequena fortuna, encetando o caminho de regresso.
Assam, após alguns dias de viagem alcançou a Turquia e imediatamente se dirigiu à populosa cidade de Istambul, famosa pelo seu comércio e especialmente pela confeção artesanal de ricas tapeçarias.  Descansado da viagem e depois dum sono reparador, o principe dirigiu-se a uma grande feira indicada pelo dono da estalagem onde pernoitara.
A escolha seria dificil tal a beleza e sumptuosidade das mercadorias expostas., mas o principe queria algo raro e diferente. Já um pouco desanimado, deteve-se ante um vendedor de tapeçarias. Havia-as duma beleza e riqueza incalculáveis confecionadas por artesãos de grande nomeada.
-Só tem isto? - perguntou ao vendedor que ficou algo agastado.
- Só isto? Tenho aqui as mais maravilhosas tapeçarias de Istambul - respondeu irritado.
- Sim, sim, concordo. Mas queria algo raro, diferente...
- Hummmm... e quanto está disposto a pagar? - os olhos do homem brilharam de cobiça.
- O que for preciso Dinheiro não é problema. - respondeu Assam prontamente.
- Venha comigo.
Já no interior da tenda, o vendedor indicou-lhe um tapete de aparência muito modesta.
- Aqui tem. Não encontrará outro igual.
Ante o espanto do principe, convidou.
- Vou mostrar-lhe. Indicou-lhe que se sentasse em cima do tapete e emitou-o- vamos sobrevoar a cidade- ordenou e imediatamente o tapete  se elevou nos ares, suavemente, percorrente toda a cidade e regressando ao ponto de partida.
-Levá-lo-á onde quizer. è só ordenar.
Maravilhado o principe pagou sem objetar a quantia exorbitante que o homem lhe pediu e iniciou o caminho de regresso, ciente de que mais nenhum dos pretendentes conseguiria algo tão raro para oferecer á princesa.
Hamed não seguiu viagem. Depois de se despedir dos dois companheiros, regressou a Bagdade e recolhendo-se ao seu palácio mandou chamar um famoso curandeiro, tambem conhecido pelas suas bruxarias.
- Quem te viu e quem te vê, Hamed... - tasquinhou o repelente homem, ao constatar a transforção do antigo ladrão.
Hamed fez um gesto de impaciência, atalhando a verbosidade do recem chegado.
- Preciso que me arranjes algo de muito especial, único, compreendes?
- Para ganhares a mão da bela princesa Estrêla da Manhâ? - perguntou com um sorriso velhco.
- Não sei porque perguntas, se já sabes - Hamed detestava aquele homem repelente, mas sabia que só ele lhe poderia conseguir o que tanto precisava.
- Vou retirar-me e amanha volto. Mas não vai ficar barato, belo principe.- os olhos piscos brilhavam de cobiça.
- Traz-me o que preciso e pagar-te-ei o que pedires.
No dia seguinte o bruxo regressou com uma diminuta caixa que entregou a  Hamed.
- Aqui está o que me pediste.
Hamed abriu a caixinha e não conteve o seu espanto ao ver que continha pequenos comprimidos.
- Por acaso estarás a brincar comigo, maldito bruxo - protestou irado - peço-te algo especial e raro e trazes-me comprimidos?
- Não fales do que não sabes. Esses pequenos comprimidos tem um dom muito especial e são únicos no mundo. Curam qualquer doença por mais grave que seja, saram qualquer ferida por mais infetada que esteja e neutralizam qualquer veneno mesmo o mais  poderoso e mortífero.
- Muito bem. Então prova o que dizes.
- Vem comigo - incitou o bruxo.
Deixaram a casa de Hamed e dirigiram-se a um dos bairros mais pobres e degradados de Bagdade. Um dédalo de ruas estreitas e cheias de lixo, onde a miséria imperava. Não foi preciso andar muito para o bruxo encontrar o que procurava. Um choro sentido fez-se ouvir vindo duma pobre barraca. A porta estava aberta e entraram. Uma mulher chorava cupiosamente, debroçada sobre o corpo dum rapaz que devia ser seu filho.
-Que lhe aconteceu pobre mulher? - perguntou Hamed compadecido.
- Foi mordido por uma cobra venenosa - e a mulher chorava desconsoladamente abraçada ao corpo do rapaz que era agitado por espasmos dolorosos e incontroláveis.
O Bruxo retirou um dos comprimidos da caixa e introduziu-o com dificuldade na boca do moribundo. Nem cinco minutas passados o jovem aquietou-se e abrindo os olhos interrogativamente, perguntou.
- O que se passou?
Hamed pagou todo o dinheiro que o bruxo lhe pediu e como tinha muito tempo disponivel em relação aos outros, ficou em casa a aguardar o dia combinado para se reencontrarem.
No dia aprazado, chegaram os três à encruzilhada e acordaram mostrar os presentes que tinham adquirido.
 O primeiro foi Igôr que exibiu o seu binóculo. Entregando-o a Assam disse-lhe.
- O que desejarás ver, verás. Experimenta.
O principe como era de esperar quiz ver a princesa, mas ficou aterrorizado com a imagem que se lhe deparou. Estrêla da Manha estava de cama, acometida de doença desconhecida, rodeada pelas suas damas que choravam copiosamente. O rei seu pai, andava de cá para lá, torcendo as mãos desesperado.
- Que horror! Vejam...
- A princesa está a morrer - exclamaram os três em unissunu - Vamos socorrê-la.
- Mas como? Levaremos pelo menos dois dias a chegar - lamentou-se Igor.
- Vamos no meu tapete voador - lembrou Assam.
- De qualquer maneira nada podemos fazer para a salvar.
- Podemos sim - atalhou Hamed - tenho o remédio para todas as doenças.
Sentara-se os três no tapête, que obedecendo á voz do seu senhor, em poucos segundos os transportou aos aposentos da princesa.
Hamed abeirando-se prontamento do leito, introduziu-lhe entre os lábios ressequidos pela febre um dos comprimidos. Poucos minutos passados, esta abriu os olhos e com um sorriso lindo perguntou às suas aias.
- O dia está bonito? Vamos passear no jardim?
Passado o primeiro impacto de alegria, o rei reuniu os três e falou-lhes.
- Meus caros principes, não sei como agradecer-lhes o terem salvo a minha querida filha duma morte quase certa, mas na realidade e contra o que tinha proposto anteriormente, não posso avaliar com base nestes três tesouros, qual o mais merecedor da mão da princesa. - perante os gestos impacientes dos três, apressou-se a explicar.-Se não fosse o binóculo, nunca teriam tido conheciemto do estado da princesa, mas sem o tapete nunca teriam chegado a tempo. Em contrapartida, tanto o binóculo como o tapete teriam sido absolutamente inúteis sem o remédio infalivel. Concordam?
Mau grado seu, os três principes tiveram de concordar que o rei estava coberto de razão. Mas este continuou.
-Assim, querendo ser absolutamente justo, pensei numa outra maneira de apurar qual o mais merecedor de ser meu futuro genro. Sois todos exímios cavaleiros, ao que imagino. Vou organizar um torneio e aquele que conseguir alcançar maior distância com a sua flecha, desposará a minha filha.
Conformados com esta decisão, aguardaram impacientemente o dia do torneio.
Perante uma grande multidão curiosa mantida á distância pelos guardas, os três principes alinharam-se na praça sobranceira ao palácio. Retesando os seus arcos até ao limite, dispararam as suas flechas, rezando interiormente para que a sua alcançasse maior distância.
Igôr era um grande esgrimista, mas o arco e a flecha não eram a sua especialidade.
Assam,  não foi bafejado pela sorte e a sua caiu a pouca distância.
Hamed estava nervoso e as mãos tramiam-lhe. Estava em jogo a sua felicidade. Tentou dominar-se, retesou o arco e viu a flecha partir e perder-se de vista. Caira tão longe que foi necessário um escudeiro a cavalo para a recolher.
A princesa que assistia ao torneio de uma das varandas do palácio sentiu-se extremamente feliz, pois o seu coração pertencia a Hamed desde o primeiro dia em que o vira no salão nobre do palácio.
Casaram e foram muito felizes. Hamed tornou-se o braço direito do rei e merecedor de toda a sua confiança, amado pelo pôvo, expiando com a sua bondade e coragem o fato de um dia ter sido ladrão.

FIM


Esta história tem sido aos longo do tempo apresentada em diversas versões. Extraida das Mil e uma noites, a narrativa original de carisma erótico, sofreu diversas modificações, até poder ser editada como conto infantil.  A última edição que conheço, da colecção Manecas, deixei-a em Angola, entre muitos outros livros. Como este facto se passou há muitos anos, só guardo na memória os pontos e personagens principais da história. O resto tem um pouco da minha imaginação.

Virgínia Santana



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