quarta-feira, 22 de agosto de 2012

A MINHA POESIA

APOCALÍPTO

Senti que tinha asas e voei.
sobre continentes,
terras longínquas
e foi então que reparei
nos ventres dilatados,
nas pelas ressequidas
pelas intempéries,
nas mamas vazias
das mães esfomeadas
e nas faces paradas
das crianças moribundas
e então me perguntei:
- Onde estarás tu Deus,
de bondade infinita...

Vi a onda gigantesca
e avassaladora,
tão destruidora,
mortífera
e dominadora,
tal asa de breu
do apocalíptico adamastor
varrer a terra
e o meu coração tremeu.
Ouvi os gritos das mães
clamando pelos filhos
levados pelo turbilhão
faminto e voraz,
pelo redemoinho insano,
cruel e então pensei:
- Onde estarás tu Deus
de bondade infinita...

E senti a terra tremer,
como que agitada
por gigantescas mãos
e cheguei a temer
ser o colapso final,
a derrocada total.
E de novo os gritos
varreram os céus
negros, plumbeos
e dos moribundos
se assemelhavam
os tétricos gemidos,
aos uivos de lobos
vorazes e famintos
e mais uma vez me perguntei:
- Onde estarás tu Deus
de bondade infinita...

Mas os céus ficaram calados,
mudos e silentes
como cadafalsos.
Reparei então que voava,
mas não tinha asas.
Senti o corpo pesado,
como se do mundo
todas as mágoas
me atingissem.
Que as crianças do Biafra,
do Sudão, da Etiópia,
de barrigas dilatadas
e caras sofridas
minhas fossem
e por elas meus olhos
de mágoa chorassem.
Foi então que agradeci:
- Obrigada deus
por não mais crer em ti!

Virgínia Santana

Publicado no facebook sob o pseudónimo Sant'ana.



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