quinta-feira, 30 de agosto de 2012

O APRENDIZ DE FEITICEIRO

Numa pequena aldeia, vivia um  sapateiro, viúvo, com o seu único filho Amim.
A aldeia era muito pequena e assim todos os seus habitantes se conheciam e se ajudavam mutuamente. Situada num profundo vale, abrigado no inverno dos ventos agrestes e no verão do calor excessivo, possuía terrenos férteis que produziam tudo o que a terra pode dar a quem a trabalha. Poderiam ser muito felizes, se, há sempre um se,  não fosse uma sombra negra que pairava espreitando do cimo da montanha que dominava a aldeia, na forma de lúgubre e ameaçador castelo. Nele, se dizia, morava um terrível bruxo, que a ser desafiado ou desobedecido, seria capaz de terríveis vinganças.
Diziam alguns que em certas noites a sua voz irada ressoava como um trovão e os seus olhos chamejavam labaredas, que se viam ao longe. Claro que nunca ninguém  testemunhara pessoalmente tais episódios...
Certo dia estava o sapateiro, já mencionado no principio desta narrativa, com o filho a trabalhar na sua pequena oficina. Amim era preguiçoso e enquanto o pai  pregava uma sola inteira, ele pregava um prego. O sapateiro estava a repreendê-lo pela sua lentidão, quando ouviram o trote de cavalos e viram um cavaleiro deter-se à porta da oficina. Era um homem alto e magro, de compridas barbas brancas. Vestia uma espécie de capa que o envolvia completamente.Para além do cavalo que montava, trazia um potro, preso por uma arreata.
Cumprimentou pai e filho delicadamente.
- Boa tarde. Precisava duma informação...
- Boa tarde senhor. - Respondeu o sapateiro .- Diga o que pretende saber.
- Por acaso não conhece aqui na aldeia um rapaz que queira trabalhar como meu ajudante? - Vendo a hesitação do sapateiro acrescentou - Dar-lhe-ei casa e comida e algumas moedas ao fim do ano, para além de que o trabalho não é pesado e será muito bem tratado.
O sapateiro coçou a cabeça, atrapalhado.
- E de que idade aproximada pretendia esse ajudante?
O cavaleiro estendeu a mão indicando Amim.
- Mais ou menos a idade desse rapaz.
Num impulso o sapateiro respondeu.
- Não conheço nenhum. Mas se quiser pode levar o meu filho.
Amim ficou aterrado mas o pai foi irredutível.
- Vai meu filho. Farte-á bem conhecer outros lugares e também como nunca serás um bom sapateiro... - E voltando-se de novo para o recem chegado - Se o senhor quiser, claro,,,
- Quero sim. Era mesmo o que eu procurava .- E á laia de consolação falou para Amim.- Não tenhas receio rapaz, vais gostar pois terás possibilidade de aprender muitas coisas novas.
O rapaz contrariado mas resignado foi juntar alguns pertences e despedindo-se do pai seguiu o ansião. Este saltou para o cavalo e indicou a Amim com um gesto que montasse o potro pondo-se a caminho. Atravessaram a aldeia e já fora desta e para pavor de Amim seguiram um trilho que dava acesso à montanha. Tomado dum terror indiscritivel o rapaz perguntou;
- Vamos para o castelo do bruxo?
- Vamos! - Confirmou o seu companheiro de viagem. - Mas nada receies que ele não te fará mal.
Transido de medo, imaginando mil e uma coisas, cada uma delas mais ruim que a outra, Amim manteve-se em silêncio o resto da viagem.
Vencida que foi a íngreme subida, chegaram finalmente junto do portão do castelo, que assim de perto não pareceu ao rapaz tão lúgubre e terrifico como o pintavam.
O ancião abriu o portão com uma grande chave e entraram para um amplo pátio, onde deixaram os cavalos.
- Segue-me. - ordenou.
Amim seguio-o obedientemente para o interior do castelo, pensando que iria finalmente conhecer o lendário bruxo.
Entraram para uma grande cozinha, onde em cima do fogão fervilhava uma panela donde se exalava um aroma delicioso.
- Sopa. Todos os dias como sopa e tu também vais comer. Ajuda a crescer com saúde...
Amim nao resistiu à curiosidade.
-E o bruxo! Quando vou ver o bruxo?
O hospedeiro soltou uma grande gargalhada.
- O bruxo sou eu rapaz! Não pareço tão mau como dizem, pois não?
Encheu dois pratos de sopa e colocou duas grossas fatias de broa em cima da mesa.- Vamos comer Amim. Estamos muito cansados. Amanha depois dum bom sono digo-te quais as tuas funções.
Mais à vontade, Amim, que estava realmente esfomeado comeu a sopa e a broa com muito apetite.
- Vou mostrar-te o teu quarto. Segue-me.
Subiram uma escadaria e o bruxo levou-o a um pequeno quarto parcamente mobilado, mas muito acolhedor.
- Este é o teu quarto. Terás de mantê-lo arrumado e limpo. Boa noite, até amanha. - E fechou a porta atrás de si.
O rapaz que estava realmente muito cansado, deitou-se e adormeceu rapidamente, mergulhando num sono sem sonhos. Acordou com umas batidas na porta.
- Vamos Amim, são horas de levantar.
A curiosidade do que iria seguir-se motivou-o a lavar-se e vestir-se muito mais depressa do que era habitual. Dirigiu-se para a cozinha onde a mesa já estava posta para o desjejum e que lhe pareceu principesco.
- A partir de amanha serás tu a pôr a mesa para as refeições.
Amim não gostou da ideia pois teria de levantar-se muito cedo Quando acabaram a refeição o bruxo levou-o junto a uma grande cisterna que havia no meio da cozinha e levantando a tampa que a protegia disse:
- Para além do que já te disse, a única tarefa que terás é a de encher diariamente esta cisterna, que nos fornece água para a casa. - Indicou-lhe alguns baldes arrumados a um canto da cozinha. - Terás de encher  os baldes  no tanque existente no quintal e despejá-los na cisterna.
- Sim meu senhor - acedeu humildemente o rapaz.
E assim se foi passando o tempo. Amim habituou-se á rotina imposta pelo bruxo e sentia-se feliz, embora preguiçoso  como era, achasse sempre o trabalho demasiado pesado. O que mais lhe custava era a tarefa diária de encher a cisterna e do que mais gostava era de ver o bruxo pôr em prática a arte da magia em que era realmente exímio e que deixava o rapaz boquiaberto.
- Ari bari bari, areias das praias, águas do mar, nuvens do céu, ao som da minha voz erguei-vos mando eu! - E tudo se movimentava  à sua volta. As vassouras varriam sozinhas, a lenha incendiava-se por artes de magia e as panelas chiavam sobre o grande fogão cozinhando alimentos que ninguém lá colocara. Na horta os bois puxavam o arado sem que ninguém os guiasse e na pocilga os porcos anafavam-se com a lavadura que aparecia nas pias como se caísse do céu.
- Zari bari, bari, areias das praias, águas do mar, nuvens do céu, ao som da minha voz aquietai-vos, mando eu. - E tudo se aquietava realmente, tudo parava sem exceção, tudo voltava à primitiva forma.
Certa manhã o bruxo envergou a sua capa, calçou as botas de montar e disse a Amim.
- Vou sair e só volto ao fim da tarde. Não te esqueças dos tuas tarefas e de acabares aquela redação que te mandei fazer.
O bruxo no cumprimento da promessa que fizera ao pai de Amim, não descurava a sua instrução, mas o rapaz era muito preguiçoso.
Amim ficou radiante com a prespetiva dumas horas de liberdade para fazer o que quisesse, que no caso seria mandriar, mas logo esmoreceu quando se lembrou da tarefa diária de encher a cisterna. Foi levantar-lhe a tampa para espreitar o nível da água, verificando que estava quase vazia. Então uma ideia mirambulante veio-lhe à cabeça e não demorou a pô-la em prática.Tantas e tantas vezes ouvira o bruxo pronunciar as palavras mágicas que as decorara. Aproximou-se das vassouras arrumadas a un canto da cozinha e ordenou com voz autoritária:
- Ari, bari, bari, areias das praias, águas do mar, nuvens do céu, ao som da minha voz erguei-vos, mando eu! - Imediatamente as vassouras pareceram criar vida. Dos paus que lhes serviam de cabo surgiram dois braços e duas mãos rudimentares e a palha que formava a parte mais larga apartou-se ao meio formando como que duas pernas.
O rapaz maravilhado indicou-lhes os baldes que imediatamente elas agarraram  e sempre guiadas por Amim foram encher no tanque e despejar na cisterna.
O rapaz ficou por algum tempo a apreciar o trabalho das vassouras e depois como visse que à cisterna ainda faltava muito para estar cheia, pensou " vou mas é aproveitar para dormir uma soneca e quando acordar elas ainda nem meia cisterna encheram", e se bem o pensou, melhor o fez. Recostou-se num cadeirão que havia na cozinha  adormecendo rapidamente. Sonhou que estava na amurada dum barco que navegava suavemente com as velas enfunadas ao vento que soprava calmo e bonançoso. O mar azul tinha reflexos de ouro e alguns golfinhos saltavam alegremente sobre as águas. Mas subitamente tudo mudou. O vento começou a soprar e o céu cobriu-se de nuvens negras. O mar alterou-se formando grandes ondas que varriam o convés do navio. Amim aterrado sentiu os pés molhados e acordou sobressaltado.
- Foi só um sonho! - Exclamou aliviado, mas logo  constatou que era a realidade. Tinha os pés metidos na água até aos tornozelos. De um salto pôs-se de pé e ante os seus olhos incrédulos deparou-se a mais deplorável cena que poderia imaginar. As vassouras tinham continuado a sua faina de encher a cisterna que transbordara, transformando a cozinha num pequeno lago, onde boiavam móveis e objetos. Desesperado tentou detê-las mas elas fugiam-lhe das mãos. Tentou arrancar-lhes os baldes, mas estes estavam bem agarrados e nada conseguiu.
"As palavras mágicas". - Pensou e começou a gritar.
Tari,bari, lari, não, não! Sari, bari, lari, não, não! - Estava tão nervoso que não conseguia atinar com as palavras certas.
Repentinamente o vulto do bruxo surgiu no meio do caos.
- Zari, bari, bari, areias das praias, águas do mar, nuvens do céu, ao som da minha voz aquietai-vos mando eu. -  Gritou com voz de estentor e tudo voltou à normalidade, como se nada se tivesse passado. Inclusive a cistena ficou seca, sem uma gota de água.
O bruxo aproximou-se de Amim que tremia como varas verdes, com cara de poucos amigos.
- Segue-me.
Quando chegaram ao laboratório do bruxo, este ordenou indicando uma cadeira.
- Senta-te.
O bruxo foi buscar alguns frascos, contendo diversos líquidos de variadas cores. Despejou um pouco de cada um para um copo fazendo uma mistura que ganhou uma cor verde esmeralda, que pareceu ao aterrado Amim o olhar dum tigre. O ancião aproximou-se dele com o copo na mão.
- Tentei fazer de ti alguém, talvez ensinar-te tudo o que sei, transmitir-te os meus conhecimentos, que adquiri depois de anos e anos de estudo, mas em vão. Tu és preguiçoso e mandrião como os que o são. - Interrompeu-se talvez penalizado com o ar aterrado do rapaz .- pensaste que era só saber as palavras mágicas... como és tolo!... bebe isto! - ordenou.- Vou transformar-te num papagaio que é um animal que imita os outros mas não pensa nada com a sua própria cabeça. Vá, bebe!
Amim ainda tentou fugir mas o bruxo agarrou-o por um braço e obrigou-o a beber todo o conteúdo do copo.
O rapaz caiu num sono profundo. Claro que o ancião nunca tivera a intenção de transformá-lo num papagaio, só quisera dar-lhe uma lição que nunca mais esquecesse. Passado algum tempo o rapaz acordou e o instinto levou-o a apalpar-se para ver se tinha o corpo coberto de penas.
- Nada receies! - Acalmou-o a voz do bruxo. - Nunca tive a intenção de transformar-te num papagaio. O que diria depois ao teu pai? Só quis pregar-te um susto que te ficasse na memória e espero que tenhas aprendido a lição. Nada se consegue sem trabalho, meu rapaz.
A Amim serviu-lhe a lição. Aprendeu todos os conhecimentos que o velho sábio, que era afinal o que era o tão mal afamado bruxo, lhe transmitiu e com eles procurou ajudar as pessoas da aldeia, curando-lhes as suas doenças e os seus males ao invés de se isolar no castelo. As pessoas habituaram-se a subir sem medo a trilha, que ele um dia percorrera tomado de grande pavor.

FIM


Esta história foi das mais belas que li. Publicada na coleção Manecas, há muitos anos, penso que nunca mais foi editada. Como a última vez que a li terá sido á cerca de 50 anos, recordo os fatos e personagens principais, o resto, como em outras em que a memória falha pela distância no tempo, inventei um pouco. Espero que os mais novos apreciem e os mais velhos como eu, gostem de  recordar, porque recordar é viver.

Virgínia Santana









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