Numa quinta situada num local muito distante, vivia um cão que se sentia muito triste e infeliz.
O dono tinha-o sempre atado por uma corda, tratava-o com brusquidão e a comida que lhe dava seria apropriada para dar a porcos mas não a um cão de guarda que se preze.
Depois de muito matutar, tomou uma decisão. Tinha de fugir.
Numa noite roeu pacientemente a corda que o prendia e saltando o muro da quinta, "pernas para que te quero".
Muito contente, lá se foi saltando de alegria, tentando distanciar-se o mais possivel da malfadada prisão.
Preso desde cachorro, a liberdade parecia-lhe o maior bem do mundo.
Andadas que foram umas boas léguas, viu um burrico que mordia umas ervitas na berma da estrada.
- Olá amigo burro, o que fazes por aqui?
O burro acabou de mastigar o último punhado de ervas e respondeu com as grandes orelhas a abanar.
- Vou fugido do meu dono, que me carrega muito o lombo e me bate.
- Então vem comigo amigo. Tambem vou fugido do meu dono. - convidou o cão muito contente por ter encontrado companhia.
- É pr'a já - anuio o burro.
Lá seguiram viagem muito satisfeitos.
Andadas que foram outras tantas léguas, viram deitado ao sol, no cimo de um muro, uma gato amarelo gordo e anafado.
- Este não passa fome de certeza - gracejou o burro.
- Olá amigo gato - cumprimentou o cão, sempre muito educado.
Olá - respondeu o gato, com um bocejo.
-Então o que fazes por aqui, tão longe de qualquer aldeia.
- Ora, ora! Vou fugido do meu dono.Tinha-me fechado num armazem dia e noite para dar caça aos ratos que lhe iam ás sacas de trigo.
- Há, compreendo. Queres vir connosco? Tambem vamos fugidos dos nossos donos.
- E quando me apanhares no chão, não me vais matar? - perguntou o gato desconfiado.
-Nada disso. Só queremos fugir para bem longe e encontrar uma nova vida.
-Está bem. Aceito.
O gato juntou-se ao grupo e lá seguiram viagem os três muito satisfeitos.
Mais um bom caminho percorrido e encontraram uma pachorrenta vaca.
- Olá amiga vaca. Então o que fazes por aqui? - perguntou o cão que era o porta voz do grupo.
- A vaca olhando-os com os seus olhos mansos respondeu.
-Hé! Vou fugida do meu dono.
- Então mas porquê?
- Ora, ora - a vaca deixou escapar um profundo suspiro - Porque ele ia mandar-me para o matadouro.
- Que horror! - exclamaram todos ao mesmo tempo - que horror!
- Então vem connosco. Tambem vamos por esse mundo fora, à aventura.
Até o burro e o gato, tocados por aquela sentença de morte, reforçaram o convite.
-vem, vem...
E lá seguioram os quatro, livres e de bem com a vida.
Mais umas léguas e um novo encontro. Desta feita era uma cabrinha, que surgiu numa curva , caminhado com dificuldade, pois tinha uma peia que lhe unia uma pata traseira com a dianteira. Ao vê-los, assustada, tentou apressar o passo mas inutilmente.
O câo sossegou-a.
- Espera cabrinha. Não te fazemos mal.
O animal deteve-se mas continuava muito assustado.
- Tem calma, amiga. Diz-nos o que fazes por aqui.
- Vou fugida da casa dos meus donos. - respondeu ainda a tremer.
- Então porquê?
- Porque ouvi uma conversa da cozinheira com a minha dona. Queriam assar-me no forno, com batatinhas...
O cão mau grado seu, lambeu os beiços disfarçadamente, mas logo convidou.
- Então vem connosco.
- Mas como? - objetou o burro, fazendo um maneio na direcção da cabritinha - com aquela peia...
- Pois é realmente... Bom qual de nós tem os dentes mais afiados...
- Tu ou o gato... -retrucou de pronto a vaca.
-Eu tenho os dentes afiados, mas a boca pequena... defendeu-se o gato com um esgar de enfado.
- Bom, vou tentar - prontificou-se o cão cheio de boa vontade, começando a roer de imediato a peia que tolhia os movimentos do animal.
Não foi fácil que o cabedal era rijo, mas finalmente lá conseguiu.
A cabrinha sentindo-se livre, pulava alegremente.
-Vamos andando. Já perdemos muito tempo.- mugiu a vaca.
E lá seguiram os cinco muito animados.
Andaram, andaram, sem avistarem viva alma, até que nuna curva do caminho, viram um galo empoleirado num rano de azinheira, entretido a alisar as penas multiculores.
- Olá amigo galo - cumpimentou o cão, como de costume - Então o que faz por aqui?
- Hummmmm... -resmungou o galo desconfiado - quem são vocês?
- Vamos juntos à aventura, à procura de uma nova vida.
- Hummmmmm ...-resmungou de novo. Aquele grupo não lhe oferecia muita confiança, principalmente o cão e o gato.
- E então porquê?
- Vamos fugidos dos nossos donos, que nos tratavam mal...
-Ora, ora! Ai está um bom motivo. Eu tambem vou fugido, para escapar á panela... compreendem?
- Compreendemos, claro.- concordaram todos com um arrepio.
- Então junta-te a nós - convidou o cão.
E lá seguiram os seis pela estrada fora.
Mais à frente, muito apressado, roncando, com o focinho junto ao chão, seguia um porco muito anafado, de rabo encaracolado.
- Para onde raio vão vocês todos juntos, como se fossem uma matilha? - exclamou espantado ao avistar o grupo.- o porco não tinha motivo para recear nenhum deles e parecia muito divertivo.
- Vamos de viagem - esclareceu o burro, que achava os porquinhos uns animais muito simpáticos.
- O que fazes por aqui ? - apressou-se o cão a perguntar.
- Vou de viagem...
- De viagem para onde - insistiu o gato impaciente.
- Talvez para um pais árabe. Ouvi dizer que eles não comem carne de porco. - explicou o cevado com um grunhido.
- Bem visto, bem visto, sim senhor... apoiou a vaca com um mugido.
- Então vem connosco, amigo porco. - convidou o cão.
E lá seguiram caminho os sete muito contentes.
Muitas léguas andadas e já muito cansados, avistaram uma casa no meio da floresta. Tinha mau aspeto e parecia abandonada. Os animais aproximaram-se cautelosos. O burro que era muito atrevido alvitrou.
- Vamos entrar?
- Como? A porta está fechada... resmungou o gato que parecia sempre ensonado.
- Isso resolve-se - disse o burro que ato continuo pregou um par de coices na porta que se escancarou.
Entraram todos de roldão cheios de curiosidade. Primeiro foram á cozinha onde duas grandes panelas de ferro fervilhavam sobre a lenha. O conteúdo das mesmas não deixava dúvidas.
- A mim me parece que vive aqui uma bruxa ...- exclamou o burro ao ver o guizado de râs, sapos, cobras e outros ingredientes esquisitos.
-Que nojo... soprou o gato - vamos mas é sair daqui.
- Ainda não. Vamos ver o resto da casa.
Depois de percorrerem várias depêndências, uma das quais servia de dispensa e estava bem recheada, entraram num quarto onde havia uma cama enorme. A um canto vária vassouras confirmavama desconfiança do burro.
De sùbito ouviu-se um estrondo.
Os animais apavorados, meteram-se debaixo da cama, apertados uns contra os outros.
Uma velha horrivel, de nariz adunco e olhos em brasa, entrou pela porta escancarada montada numa vassoura, trazendo uma coruja pousada no ombro. Os animais ouviram-na resmungar.
- Quem me teria partido a porta, quem teria? Veneno de cobra, patas de râ, pele de sapo, hei-de descobrir e então...
Guardou a vassoura junto com as outras e foi á cozinha. Ouviram-na mexer o conteudo das panelas e regressar novamente ao quarto.. Sempre a resmungar, deitou-se.
Os animais amontoados debaixo da cama estavam apavorados.
Como todos os animais que vivem ao relento, estes tambem tinham as suas pulguinhas. As do burro, da vaca, da cabra e do porco, um pouco maiores, as do galo, do gato e do cão, um pouco mais pequenas, mas todas elas com o seu ferrão minúsculo. Com os animais apertados debaixo da cama, as pulgas inquietas com o calor, começaram a espalhar-se.
Eram pulgas de burro, pulgas de vaca, pulgas de cabra, pulgas de porco, pulgas de galo, pulgas de gato, pulgas de cão, que começaram a picar a velha bruxa.
Esta encomodada, cheia de comichões, começou aos saltos na cama.
Os animais apavorados começaram a berrar cada um na sua linguagem.
A vaca mugia, o burro zurrava, a cabra balia, o porco grunhia, o galo cacarejava, o gato miava, o cão ladrava e a velha em cima da cama gritava.
- Tanta pulga nunca vi assim.
Desesperada, saltou da cama, montou uma vassoura e desapareceu para nunca mais ser vista.
Os animais deixaram-se ficar por ali a recuperar forças, para um dia prosseguirem a sua viagem em busca da liberdade.
Virgínia Santana
Esta história foi-me contada diversas vezes pela minha mãe, talvez mais resumida, menos "floreada". Penso que não terá sido inventada por ela, mas sinceramente nunca a vi escrita em qualquer lado. Aqui a deixo para os meus visitantes mais pequenos, na esperança de que se diliciem com ela, como aconteceu comigo na minha infância.
-
Sem comentários:
Enviar um comentário