Ficara siderado e desgostoso perante esta atitude vinda dum oficial de carreira, extremamente responsável, principalmente por se encontrarem numa situação de conflito. Imaginava que só um grave problema levaria o seu subordinado a tal atitude. Puxando fumaças do seu inseparável cachimbo, passeava de cá para lá no vasto gabinete, tentando aliviar a tenção que este acontecimento lhe provocava. Interrompeu o vai-vem incessante e dirigindo-se à secretária pejada de papéis, premiu o botão do intercomunicador.
- É favor contactar o capitão Arriaga. Preciso falar-lhe com a maior urgência.
Cerca de uma hora mais tarde, foi-lhe anunciada a chegada do militar.
- Que entre imediatamente - ordenou.
O capitão entrou no gabinete perfilando-se respeitosamente ante o seu superior.
Era um homem alto, de compleição robusta e um rosto agradável, que na ocasião parecia ensombrado por alguma preocupação.
O comandante recebeu-o cordialmente, como a um amigo de longa data.
- Sente-se capitão e ponha-se à vontade. Desejaria trocar consigo algumas impressões sobre este assunto - e indicou o requerimento sobre a secretária - trata-se do seu pedido de demissão que como deve calcular me deixou surpreso e abalado.
- Um breve sorriso aflorou o rosto do capitão.
- Dar-lhe-ei as explicações que desejar, meu comandante.
- Agredeci-a-lhe muito Arriaga. Sou todo ouvidos.
- É uma longa história, meu comandante.
O superior ficou a olhá-lo na expetativa.
- Pode começar. Terei todo o prazer em ouvi-la, capitão.
...///...
O João e o Gaspar eram amigos inseparáveis. Tinham crescido juntos na roça dos pais do João, lá para o norte de Angola e embora o João fosse filho do patrão e o Gaspar da lavadeira, uma completa afinidade e uma grande amizade existia entre as duas crianças. Brincavam juntos todo o santo dia, gozando a infância descuidada e repleta de imprevistos de meninos da roça, tão diferente das crianças da cidade. Quantas vezes cansados da brincadeira, dormiam a sesta lado a lado, à sombra do imbondeiro que dominava o terreiro da fazenda.
Os trabalhadores que por ali circulavam na sua lida diária, sorriam complacentes aos verem as duas crianças, a carapinha luzidia de Gaspar e os cabelos louros, levemente ondulados do João, repousando lado a lado, indiferentes às querelas e maldades do mundo.
Quando atingiram a idade escolar frequentaram junto a escola na povoação mais próxima.
Ao completarem a quarta classe, a sua vida alterou-se. O João foi para Luanda, para um colégio interno e o Gaspar permaneceu na roça com os pais, mas esta separação não diminuiu a amizade entre os dois rapazes. Viam-se nas férias e já mais crescidos empreendiam juntos aventuras por vezes perigosas. Tomavam banho no rio e faziam excursões através da mata misteriosa.
Certo dia perseguiam um pequeno javali, quando ouviram uma restolhada acompanhada de furiosos roncos. A mãe da cria, uma fêmea de presas aguçadas quais armas mortais, saiu do interior da mata e investiu, carregando diretamente sobre o João. Num gesto rápido Gaspar empurrou o amigo, apanhando em cheio a investida da fera, sendo atirado a vários metros de distância. O javali desapareceu no interior da selva à procura do filhote, cuja proteção despertara o seu instinto de defesa.
O João correu para o amigo e ficou horrorizado. Gaspar tinha uma perna toda esfacelada e perdia muito sangue. Reunindo todas as suas forças, carregou o amigo às costas até à roça, donde foi imediatamente transportado ao hospital mais próximo.
- Eu é que devia estar ali - gemia o João no corredor enquanto o amigo era submetido a uma intervenção cirúrgica.
- O Gaspar salvou-se, ficando a coxear um pouco, fato que não parecia afligi-lo grandemente, uma vez que mantinha a boa disposição e alegria próprias da sua raça.
Passaram-se mais alguns anos. O João formou-se e entrou para o exército. O Gaspar continuava na roça onde exercia agora as funções de capataz. Viam-se pouco mas a sua amizade continuava firme como uma rocha. Nas suas cartas aos pais o João nunca se esquecia do amigo e este sentia-se feliz por o João nunca o esquecer apesar da distância e da posição que ocupava.
Entretanto rebentava a guerra em Angola. A guerrilha assolou o Norte de Angola e os pequenos fazendeiros viram-se forçados a abandonar as roças e fugir para salvar a vida.
Os pais do João aguentaram-se algum tempo, mas na eminência dum ataque resolveram recolher-se à capital. João ficou aliviado porque estava muito preocupado com a situação dos pais, mas não esquecendo o amigo de infância, pediu-lhes que trouxessem o Gaspar e a mãe.
- Há-de arranjar-se aqui um trabalho para ele. Não posso esquecer a nossa amizade e que lhe devo talvez a vida.
Mas o Gaspar desaparecera misteriosamente. Nem mesmo a mãe sabia para onde fora. Os pais do João ainda tentaram convencê-la a vir, mas foi inútil. Ficaria à espera do regresso do filho, uma vez que o seu homem já entregara a alma ao criador, olhando pela casa e pela lavra.
Mais algum tempo se passou. Certo dia o capitão João Arriaga foi destacado para comandar uma missão assaz difícil e perigosa. Localizar e desbaratar uma formação de guerrilheiros, que vinha infligindo grandes perdas, precisamente na zona onde se localizava a roça dos pais. O pelotão deslocou-se rapidamente para aquela zona e em breve se travaram fortes combates. Um reduzido grupo de guerrilheiros ficou encurralado sem possibilidades de fuga.
Deitados em círculo, tentando confundir-se com a vegetação, os militares aguardavam uma boa oportunidade para atacar. Subitamente surgiu um vulto, que correndo em ziguezague tentava passar a barreira do inimigo. O capitão que se apercebera do movimento suspeito, incitou os soldados.-
- Atirem-lhe, não o deixem fugir. Vai pedir reforços.
Dispararam-se vários tiros, que dado o movimento do alvo falharam. Irritado, o próprio capitão fez pontaria e disparou. O vulto pareceu elevar-se no ar, enrodilhou-se sobre si mesmo a caiu no meio do capim alto.
Alguns soldados e o capitão correram para o local. Este chegou primeiro e quando os soldados o alcançaram, esbugalharam os olhos, estarrecidos. O capitão segurava a cabeça do negro contra o peito e grossas lágrimas escorriam-lhe pelas faces.
Quando o capitão ordenou aos soldados que o ajudassem a abrir uma cova para enterrar o inimigo, ficaram revoltados.
- Enlouqueceu - observou um entre dentes.
- É a vertigem da frente - segredou outro.
Só que quando baixaram o corpo do guerrilheiro à cova, nenhum deles poderia imaginar que com ele o capitão enterrava parte da sua própria vida.
.../...
Quando Arriaga terminou o seu relato, ao comandante Osório já não restavam dúvidas sobre a decisão a tomar sobre aquele pedido de demissão. Seria deferido.
FIM
Virgínia Santana
Esta história foi escrita por mim em 1984 e com ela participei num concurso aberto pela RDP Açores, tendo ficado em 2º lugar.
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