Aos trinta anos de idade eu tinha alcançado aquela meta que todo o ser humano ambiciona. Uma felicidade completa, baseada na estabilidade familiar e económica. Era casada com um homem maravilhoso, que eu amava profundamente, tinha dois filhos saudáveis e encantadores e uma vida desafogada.
Tudo se me afigurava fácil e belo, até àquele dia terrível, em que meu marido faleceu com o peito esmagado contra o volante do seu automóvel, depois de estrondosa colisão com outro veículo.
Perante o cadáver do homem que eu amava senti o mundo desmoronar à minha volta. Foi como se com o seu corpo destroçado ele levasse para a sepultura todos os meus sonhos, toda a minha vontade de viver.
Senti-me profundamente só. Como herança do meu amor perdido, duas crianças maravilhosas que eu adorava, mas que pela sua tenra idade eram apoio insuficiente no recomeço de uma vida.
Senti então um enorme desejo de me evadir e fugir daquele recanto que fora o meu mundo encantado, o meu pequeno paraíso terrestre.
Escrevi a um irmão da minha mãe há muitos anos radicado nos Estados Unidos, pedindo-lhe ajuda na minha decisão de partir para aquele pais.
A resposta não se fez tardar, breve e clara. De imediato a única possibilidade era viajar como turista. Não sendo meu parente direto, não poderia mandar-me a indispensável carta de chamada exigida pelas autoridades americanas. Que aproveitasse esta solução, que depois se veria.
Com febril ansiedade, preparei tudo para a partida. Minha irmã mais velha prontificou-se a ficar com os meus filhos até eu conseguir estabilizar a minha situação, chamando-os para junto de mim.
Na altura da despedida, ao apertá-los pequeninos e indefesos contra o meu peito,senti o coração partir-se-me e uma grande onda de ternura aliada a uma pontinha de remorso tomou conta de mim, mas logo tentei afastar aqueles sentimentos que ameaçavam abalar a minha decisão, destrui-la no último momento. Num supremo esforço desprendi-me dos seus bracitos que me enlaçavam o pescoço e decidida atravessei a pista em direcção à grande aeronave que me levaria para o desconhecido.
Meu tio acolheu-me com grande carinho, uma ternura inesperada. Talvez a minha semelhança com a sua falecida irmã lhe suscitasse ternas recordações. Depois de me ter instalado, expôs-me calmamente a situação. Tendo eu três meses para permanecer no pais como turista, tornava-se absolutamente necessário findo esse prazo, resolver o problema que se me apresentava e para o qual só via uma solução. Casar-me com um cidadão americano.
A principio esta solução pareceu-me absurda e mesmo revoltante, afigurando-se-me uma traição à memória daquele que eu tanto amara e cuja recordação permanecia viva no meu coração saudoso e amargurado. Acabei no entanto por ceder ante a sua insistência.
Foi assim, que volvidos cerca de dois meses me vi na presença dum juiz de paz, acompanhada por meu tio, que me apresentou um homem alto e louro que possuía os olhos mais azuis que eu jamais vira. Concedeu-me um sorriso convencional quando estreitou a minha mão entre a sua. Era aquele o meu noivo.
Não sabia uma palavra de português e assim a cerimónia decorreu num ambiente algo cómico, pois entre os noivos desconhecidos um do outro não foi trocada uma única palavra.
Quando regressávamos a casa ( deixara o meu marido á porta do registo civil), o meu tio tirou-me as dúvidas que ainda me restavam.
- John é filho dum grande amigo meu, já falecido. É muito rico e um solteirão inveterado pelo que acedeu a fazer-me este grande favor, sem nada exigir em troca. Daqui por seis meses poderão divorciar-se e tu minha filha serás cidadã americana.
Eu sentia a cabeça pesada e mal podia falar. Os meus nervos tão duramente postos à prova, estavam agora completamente arrasados.
- Muito obrigada por tudo - agradeci com a voz embargada - tem sido muito bom para mim.
Algum tempo volvido, seguia apressadamente para a fábrica onde trabalhava, quando senti que um automóvel se detinha suavemente a meu lado. Surpreendida e um pouco contrariada verifiquei que ao volante estava o " meu marido", que me fazia sinal para entrar. Hesitei por um momento, mas não querendo parecer indelicada sentei-me ao seu lado.
Senti os seus olhos fixos em mim.
- How are you? - perguntou delicadamente.
- Very weel. Thank you - respondi no meu ainda fraco inglês.
Não trocámos mais nenhuma palavra até chegarmos ao meu destino e na altura nem me ocorreu como saberia ele onde eu trabalhava.
Tornou-se um hábito aquele encontro matinal. Eu andava aturdida e desnorteada. Eram sempre os mesmos gestos, as mesmas breves palavras. Aqueles encontros tornaram-se tão importantes para mim que vivia para eles. Ansiava-os e temia-os. Uma luta de sentimentos agitava o meu intimo. Comecei a detestar os domingos porque o não via, mas também não queria admitir que amava aquele homem.
Uma manha não encontrei John à minha espera como era de hábito. Já na fábrica recebi um telefonema do meu tio.
- John está internado numa clínica, minha filha. Devias ir vê-lo.
Na defensiva, protestei, lutando contra o meu intimo desejo.
- Mas eu não lhe sou nada, meu tio, a que propósito...
-És sua mulher Ana, seja quais forem as circunstâncias. Tens de admití-lo...
Desligou depois de me dar o endereço da clínica. Pedi ao gerente para me deixar sair.
- O seu marido inspira-me alguns cuidados - disse-me o médico - Uma pequena deficiência cardíaca ignorada até hoje. Terá de ser operado imediatamente, mas poderá vê-lo mais tarde.
John foi operado com êxito mas teria de permanecer algum tempo internado e sob vigilância médica.
Passei a correr para a clínica mal saia da fábrica, mas John permanecia envolto numa espécie de sonolência, provocada segundo me informou uma enfermeira, pelos sedativos que lhe estavam a ser ministrados.
Uma tarde, para minha alegria e surpresa, encontrei-o recostado nas almofadas, sorrindo para mim quando me viu.
Os seus olhos tinham o mesmo brilho de outrora e fixavam-me com grande ternura, quem sabe, talvez amor?
Estendeu-me os braços e refugiei-me neles aliviada e sentindo uma felicidade que há muito não sentia.
Hoje sou de novo uma mulher feliz. A recordação do meu primeiro marido continua guardada no meu coração como uma relíquia que guardo com carinho. Nunca morrerá, mas é como ferida já sarada que deixa a sua marca sem no entanto causar dor.
Com John e os meus filhos que juntos viemos buscar, seremos de novo aquela família feliz que eu julgava ter perdido para sempre.
Virgínia Santana
Conto da minha autoria, publicado na Crónica Feminina nº. 1121 de 18/05/1978
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