Um perfume suave e delicado espalhou-se pela pequena sala de estar finamente decorada.
Tateou com uma das mãos o belo arranjo floral na esperança de encontrar algo que lhe desse uma indicação da sua procedência, mas inutilmente.
Sorriu. Um daqueles seus sorrisos muito peculiares que ele anteriormente achara encantadores e muito atrativos e mais tarde apelidava de cinicos e inigmáticos.
Alberto. O presente era dele... uma tentativa de reconciliação ou uma despedida definitiva?
Uma súbita melancolia a invadiu. Colocou as rosas a que retirara o papel protetor, afim de lhes aspirar melhor o aroma numa bela jarra de cristal, oferta de casamento. Aproximou-se da janela, afastando as cortinas de musselina rosa. Sempre fora a sua cor preferida. Roupas, paredes, um vestido de noiva... encostou a face à vidraça fria, embaciando-a com o calor do seu hálito. Um vestido maravilhoso o seu. A mãe discordara. As noivas deviam ir de branco, mas ela insistira e levara a sua avante. Como estava maravilhosa e como ele a olhara embevecido e feliz.
Passou as mãos pela fronte, comprimindo-as entre os dedos finos. Como tudo lhe parecia tão distante, perdido no tempo. Não muito depois, os olhares enternecidos dele haviam-se tornado duros e indiferentes, receosos e desconfiados os dela. Tantas perguntas sem resposta, tantas dúvidas por esclarecer. A impossibilidade de lhe dar um filho? Nunca poderia esquecer o seu olhar no momento em que lho revelara, depois do último exame, tremendamente decisivo. O que lera neles naquele momento? Desespero, angústia e sobretudo uma grande interrogação. Porquê, porquê, porquê?
Depois viera-lhe a coragem, a ela, para aquela resolução extrema. Todos os bons momentos eram recordação do passado, dum passado cada vez mais distante. Estava cansada dos silêncios intermináveis, das palavras presas na garganta por mãos de ferro, dos olhares carregados de dúvidas. O amor é como uma fogueira, lera algures, tem de ser alimentado para se não extinguir. Preferiu deixar de lutar, antes que o amor fosse substiuido no seu coração por um sentimento menos belo. Pediu o divórcio.
Não conseguira no entanto a tão almejada paz de espírito. Já não existiam más palavras, mas os silêncios eram agora solidão interminável, avassaladora. Os seus passos, quantas vezes julgava ouvi-los ou então o ruido da chave na porta da rua.
Sobressaltou-se ao ouvir a campainha da porta. A vizinha do andar de cima encontrava-se no patamar exibindo entre os dedos um pequeno subscrito branco.
- Peço desculpa D.Laura, mas penso que isto é para si. Estava caído na escada.
Laura recebeu com mão trémula o diminuto envelope que obviamente caira do ramo de rosas. Agradeceu e fechando a porta apressou-se a ler o conteúdo do mesmo.
- Laura, gostaria de falar-te uma vez mais. Poderiamos recomeçar. Não é tarde demais como pensas. Esperarei por ti na entrada do parque até ás cinco. - Assinado Alberto.
O coração batia-lhe desordenadamente dentro do peito. Olhou o relógio ansiosamente. Eram 4,30. Tinha meia hora para enterrar o passado . Vestiu apressadamente um abafo e fechou a porta com decisão atrás de si.
Alberto tinha razão. Nunca é tarde demais.
FIM
Virgínia Santana
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