Virava-o e revirava-o encostado ao balcão, lendo a meia voz os títulos dos artigos, comentando invariavelmente.
- Este hoje traz das boas...
Eu procurava parecer muito ocupada para lhe não dar azo a conversas e só me sentia aliviada quando o via sair depois de deixar o dinheiro em cima do balcão. Anteriormente, tivera o hábito de me chamar.
-Hó menina, aqui tem.
- Depositava as moedas na palma da minha mão hesitante, demorando este gesto propositadamente, roçando a sua mão fria e húmida pela minha, o que me provocava um arrepio incontrolável de asco. Certo dia observei-lhe friamente.
- Deixe ai.
Ele colocou as moedas em cima do balcão, uma a uma, enquanto me olhava fixamente, com um sorriso alvar. Atirei-as para dentro da gaveta como se me queimassem os dedos e quase me senti ridícula.
- Que disparate - murmurei entre dentes - o homem nunca me fez mal nenhum.
Mas não conseguia evitar aquela sensação de frio que me provocava arrepios na espinha, todas as vezes que ele entrava e me olhava com aquele olhar mortiço.
- Bom dia menina.
- Bom dia - respondia tão secamente que um certo dia o meu patrão reparou.
- Deve procurar ser mais simpática com os clientes. É deles que nós vivemos.
- Bem sei, bem sei, mas este homem é tão irritante...
Um dia não apareceu. Não veio buscar o jornal nem passou em frente da tabacaria. Outros dias se sucederam sem que ele desse sinal de vida, até que a minha atenção foi atraída por uma notícia em destaque na primeira página dum vespertino " foi finalmente localizado e detido o prisioneiro que se tinha evadido há já alguns meses da ala de psiquiatria da cadeia de ...."- a foto que acompanhava a notícia era dele. Reconheci-o imediatamente.
Senti as pernas a tremer.
- Meu Deus... Como aquele homem tinha o condão de me irritar.
Virgínia Santana
Conto da minha autoria escrito em 26/08/1977
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