quarta-feira, 8 de agosto de 2012

HISTÓRIA DUM HOMEM DISTRAIDO

Numa terra distante, não sei precisar onde, vivia um homem que se sentia muito infeliz.
Estava só no mundo porque não tinha família e era tão pobre que por vezes não tinha  um pão para comer.
Um dia, ouviu dizer, que quem se deslocasse a uma certa montanha muito distante e esperasse pacientemente, poderia ouvir a voz de Deus responder a todas as perguntas que se lhe fizesse.
Entusiasmado, o homem resolver partir em busca da montanha sagrada.
Queria perguntar a Deus porque não tinha sorte na vida, sendo tão solitário e tão pobre, uma vez que nunca tinha feito mal a ningem para merecer tal castigo.
Preparado um parco farnel, lá partiu estrada fora.
Andados que foram umas boas léguas, teve de atravessar uma densa floresta. Subitamente, apavorado, viu-se perante um lobo que estava deitado á entrada duma gruta.. Preparava-se para fugir a sete pés, quando o animal o sossegou.
- Não fujas, bom homem. Não te faço mal.
O homem olhou o lobo espantado, tendo ocasião de verificar que estava muito magro e parecia debilitado.
- Estou muito doente - esclareceu o animal, que parecia ainda jovem - não tenho forças. E tu, o que fazes por estes lados.
O homem mais calmo contou ao lobo a sua pretenção. Então este pediu.
- Bom homem, se realmente conseguires falar com Deus, pergunta-lhe por favor qual a explicação para um lobo jovem como eu se encontrar tão fraco e doente.
O homem prometeu atender o pedido do animal e lá partiu apressado.
Andou, andou e já muito cansado sentou-se junto a uma árvore  para comer um pouco do seu magro farnel.
Incomodado com o calor do sol e admirado por não ter a sombra da grande árvore, olhou para cima, verificando que esta tinha os ramos todos secos e quase sem folhagem.
Foi então que ouviu a árvore falar.
Lamento bom homem não poder oferecer-te a minha sombra, mas como vês  quase todas as minhas folhas cairam e os meus ramos estão ressequidos.
- Mas então porquê? - perguntou o viajante curioso.
- Não sei, mas na realidade algum mal me ataca porque estou a morrer lentamente. E tu para onde vais?
Mais uma vez o homem contou o seu intuito e a árvore logo pediu para interceder por ela perguntando a Deus qual o mal que a afligia. Depois de prometer que não se esqueceria, lá partiu novamente.
Cheio de sede, verificou preocupado que á água se lhe tinha acabado. Por sua sorte, numa curva do caminho, avistou uma casa muito bonita rodeada dum pequeno jardim bem cuidado.
Bateu as palmas e logo surgiu uma mulher muito jovem e extremamente bela que lhe perguntou com um sorriso o que pretendia. Atendeu prontamente o seu pedido enchendo-lhe o cantil com água fresca.
-Aqui está, bom homem. Então para onde vai? perguntou curiosa.
Pela terceira vez contou a finalidade da viagem e admirado ouviu o pedido da mulher.
- Se conseguir falar com Deus, peço-lhe encarecidamente que lhe pergunte, porque uma mulher jovem e bonita como eu se encontra só, sem um companheiro.
-Claro, claro, fique descansada. Não me esqueço. - E lá seguiu viagem.
Finalmente a montanha surgiu no horizonte, altaneira e magestosa. Quando o homem chegou ao cimo estava extenuado, mas feliz por ter conseguido.
Pacientemente, sentou-se, pronto a esperar o que fosse preciso para falar com Deus.
Finalmente, ao fim de uma longa espera, ouviu uma voz vinda do alto.
-A tua fé será recompensada, bom homem. Vou tirar as tuas dúvidas, como tanto anseias.
Pondo-se de joelhos, titubeou.
- Mas eu ainda não perguntei nada, bom Deus.
- Não é necessário. Toma atenção a tudo o que te vou dizer, porque só o direi uma vez.
 Deus falou por longo tenpo e finalmente concluiu.
- Vai bom homem. Regressa pelo mesmo caminho por onde vieste e procura a tua sorte. Mas não te esqueças que para a encontrares terás de estar atento aos sinais.
Ainda mal refeito de tal experiência, o homem iniciou a viagem de regresso muito feliz.
Um par de léguas á frente, passou de novo em frente da casa. A mulher estava encostada ao portão e mal o viu perguntou ansiosa.
- Então, meu amigo, consegiu falar com Deus.
- Consegui, consegui - respondeu o homem cheio de pressa.
- Perguntou-lhe o que lhe pedi?
- Sim, sim. Tem de convidar para entrar em sua casa e oferecer de comer e beber ao primeiro homem que passe à sua porta.
A mulher envolveu-o num sorriso afável.
- Então, não quer entrar? Matar a sede e a fome, descansar da viagem.
- Nem pensar. Deus disse-me para procurar a minha sorte e não posso perder tempo. Adeus, adeus. - E lá seguiu apressado.
Quando passou de novo junto da árvore, ia tão afubado que quase não dava por ela.
- Bom homem, por favor não te vás embora sem me dizer se falaste com Deus.
- Há, falei, falei... Sobre o teu problema ele diz que tens um tesouro enterrado junto das tuas raizes e enquanto não o tirarem, elas irão morrendo lentamente.
- Então homem, escuta. Desenterras o tesouro, salvas-me a vida e ficas...
Mas ele já ia longe, gritando-lhe por cima do ombro.
- Não posso, não tenho tempo. Tenho de ir procurar a minha sorte... e lá segiu caminho desimbestado.
Novamente na floresta, parou junto do lobo que continuava prostrado á entrada da caverna. Apesar da pressa, receava o animal.
- Então, falaste com Deus? perguntou
- Sim, sim. E não me esqueci do teu caso.
- Então qual é a solução para o meu problema - insistiu ansioso.
-Deus disse que deverias comer o primeiro homem que passasse junto de ti e assim curarias essa fraqueza.
O lobo reunindo todas as forças que lhe restavam, saltou sobre o pobre homem devorando-o sem demoras.

Virgínia Santana

Esta história, foi contada na Biblioteca Municipal de Faro, creio que em 2007, por um contador de histórias, de que já não recordo o nome. Guardei-a na minha memória como um dos contos com mais significado que ouvi.









3 comentários:

  1. Tambem gostei bastante desta historia. E e tao verdadeira! Por vezes as coias estao mesmo debaixo do nosso nariz e nos nem as vemos. Obrigada por partilhar! :)
    Beijinho

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    1. É uma realidade. Passamos a vida a correr para alcançar objectivos quase inatingiveis, deixando de lado coisas fáceis de alcançar, que nos fariam tão felizes, se estivessemos um pouco mais atentos ao que se passa à nossa volta. Obrigada por comentar.

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    2. Olá Claudia. Só agora vi quem tinha comentado. Beijinhos.

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