quarta-feira, 31 de outubro de 2012

CAMINHOS VII


CONTINUAÇÃO
subiram ao andar superior, certamente com a intenção de entreter o tempo até há hora de dormir, jogando ou conversando, como lhe Terminada a refeição, alguns comensais havia dito Miguel.
- Vou andando. – Despediu-se Miguel – Parecia cansado.
- Eu ainda fico mais um pouco. Não quer vir Pedro – o tom era agora mais cordial.
-Não! Também me despeço. Boa Noite.
Atravessou o terreiro, bastante escuro àquela hora, apenas iluminado aqui e ali pela claridade que vinha das casas, através das janelas. Da sanzala, chegava-lhe aos ouvidos uma melopeia dolente e morna, como um gemido. Fogueiras dispersas iluminavam a noite e algumas figuras humanas rodeavam-nas, parecendo aquela distância envoltas pelo fogo, como se elas próprias estivessem a arder.
Jesus encontrava-se no alpendre a fumar um cigarro. A ponta incandescente brilhava na noite como um pirilampo.
Hoje não há luar. – Comentou quando Pedro se aproximou.
- Não, não há luar. Boa noite Cristo. Até amanhã.
- Até amanhã. Há, esquecia-me de o avisar. Não se esqueça de sacudir as botas de manhã, antes de as calçar.
- Então porquê?
- Por causa das cobras.

                                                                      ---///---



Escolheu um dos livros que tinha trazido de Luanda e estendeu-se na cama disposto a ler um pouco. Era um livro do Leon Uris sobre a segunda guerra mundial. O título era Os Desenraizados e contava a história de dois jovens judeus, fugitivos do regime de Hitler. O gosto pelos livros viera-lhe da mãe. Apesar dos muitos afazeres, sempre tinha um livro na mesa-de-cabeceira. Normalmente eram livros religiosos, vidas de santos ou de sábios e também de reis e rainhas.
Leu durante algum tempo, mantendo a luz da mesa-de-cabeceira acesa. Acabou por apagá-la e adormecer deitado por cima da roupa.
Acordou sobressaltado, com a sensação de que havia alguém no quarto. Estendeu o braço e acendeu a luz do candeeiro. O quarto estava vazio, mas pereceu-lhe ouvir um leve roçagar, como se pés descalços se afastassem apressadamente. Levantou-se e aproximou-se da porta para abri-la. Estava só encostada. Tinha quase a certeza que a fechara com o trinco. Encolheu os ombros e voltou para a cama. Estava a deixar sugestionar-se pelo ambiente e pelas palavras de Jonny e Jesus.
Quando acordou, a claridade do dia filtrava-se através das persianas, desenhando no chão do quarto riscas de luz e sombra. Foi tomar um duche. A porta do quarto de Jesus estava fechada. Achava o homem um tanto misterioso, embora simpatizasse com ele. Ainda não conseguira saber qual o seu trabalho, mas isso também não era da sua conta. Dirigiu-se ao refeitório e viu que o jeep de Miguel já se encontrava estacionado á porta. O gerente e Samuel tomavam um pequeno-almoço substancial de café, torradas e ovos mexidos. A sala estava repleta e todos pareciam comer com muito apetite. Pedro cumprimentou e sentou-se ao lado dos dois homens. O empregado trouxe mais torradas e ovos mexidos, mas Pedro optou só pelas torradas com uma chávena de café, que tinha um aroma delicioso.
- Então, dormiu bem?
- Muito bem, obrigada. – Absteve-se de contar o que tinha acontecido, porque para além de temer cair no ridículo, nem tinha bem a certeza se fora ou não simples sugestão.
A fazenda era muito mais vasta do que parecera a Pedro do cimo do morro. Só a zona dos cafezais cobria uma área aproximada de noventa e cinco hectares, fora o centro habitacional, a horta, o pomar, armazéns e terreiros de secagem.
As picadas estavam limpas de capim e circulava-se com facilidade. Eram suficientemente largas para darem passagem ás camionetas que carregavam o café trazido ás costas em grandes cestos, pelos trabalhadores.
Pedro via tudo aquilo com uma grande curiosidade. Era a África no seu âmago, um tanto selvagem e rude dos livros de aventuras que ele tanto gostara de ler na sua juventude.
Miguel mostrava-lhe tudo com o entusiasmo da paixão. Pedro sentia na ênfase que punha nas suas explicações como tudo aquilo fazia parte intrínseca da sua vida.
- África é como uma bela mulher, misteriosa, selvagem e imprevisível. Capaz de despertar as maiores paixões. Esta terra é a seguir á minha filha, o maior amor da minha vida.
- Então nasceu aqui?
- Sim, nasci aqui, nesta roça. Nessa altura não passava de um pequeno amontoado de casas, com uma centena de pés de café e alguns palmares.
- Palmares?
- Plantação de palmeiras, donde se extrai o óleo de palma. É importante na alimentação dos indígenas e não só. É muito utilizado em gastronomia e um dos produtos mais procurados pela Europa e Estados Unidos para o fabrico de cosméticos.
- A fazenda hoje já não tem palmares?
- Não em quantidade significativa. Mais para norte temos um pequeno palmar, cujo óleo extraído é para o consumo da roça.
Miguel deteve o jee e convidou Pedro.
- Quer dar uma volta a pé?
-Certamente. Ia pedir-lhe isso.
 Os três homens apearam-se e entraram no cafezal.
Vistos de perto, os pés de café eram lindos. Arbusto relativamente baixos, protegidos por árvores de grande porte.. Miguel explicou-lhe que se destinavam a proteger os pés de café e criar a humidade necessária ao amadurecimento dos frutos.
Os pequenos bagos vermelhos, formavam cachos que eram realçados pelo verde intenso da folhagem. Assim de repente, pareciam os ramos de azevinho com que a mãe enfeitava a casa por altura do natal. A plantação era feita em corredores bastante simétricos, embora estreitos, de modo que com o crescimento, a folhagem acabava por formar um teto baixo.
Como o sol ali não se fazia sentir com intensidade, tirara o chapéu da cabeça e trazia-o na mão. Nunca fora muito adepto de chapéus, mas o tio insistira para que trouxesse um.
- Ninguém anda na roça sem chapéu, meu rapaz. Ficavas com os miolos a arder.
- Ponha o chapéu na cabeça, Pedro. – Pediu Miguel que ia á frente e que ao olhar para traz reparara naquele facto. – Não o deve tirar.
- Mas não está sol aqui – contestou embora obedecendo.
- Siga os concelhos dum homem experiente – ironizou o gerente.
Veio-lhe á memória a frase de Jesus – “ a vida no mato não é fácil. A cada passo espreita o perigo”.
Os negros acenavam á passagem dos homens e cumprimentavam rindo, mostrando os dentes alvos.
- Bom dia, Siô!
- Como vê, meu amigo, isto é a nossa riqueza. O café, que é a nossa maior fonte de exportação, como aliás deve saber, uma vez que toda a documentação passa pela sede.
- Para além do algodão que também cultivam em grande quantidade, mais para norte?
Miguel parou, e tirando o chapéu, limpou o suor o que lhe escorria pelo rosto moreno.
- Vejo que está bem informado. Temos uma fazenda de algodão perto do Quibaxe, a Ana Rita. Numa primeira oportunidade damos lá uma saltada. O gerente é meu amigo pessoal e uma óptima pessoa.
De súbito um dos trabalhadores que colhia café ali perto, soltou um grito gutural e aflitivo.
- Cuidado, Siô, cuidado!
De um salto derrubou Miguel, que ficou estendido no chão, absolutamente siderado.
- Cobra , cobra – gesticulava o homem apontando para o pé de café, sob o qual Miguel se encontrava.
- Olhei e vi uma cobra verde, enleada num dos ramos superiores do cafezeiro. A sua língua bífida parecia seriamente ameaçadora. Deslizando desapareceu por entre as folhas, suavemente, sem um ruído.
Mau grado seu, Pedro sentiu um arrepio percorrer-lhe a espinha.
Miguel levantou-se sacudindo as calças, mal refeito de susto
- Obrigada rapaz.
- De nada siô. Cobra não presta.
- Amanhã vai ter comigo á roça, quando acabares o trabalho.
- Si siô.
 - Malditas cobras. Andam por todo o lado. São uma praga.
- Esta era venenosa – perguntou Pedro quase a medo.
- Bastante. Se me tivesse picado necessitaria de antídoto. – Parecia agora totalmente refeito.
- Vamos – convidou como se nada tivesse acontecido. Colocou o chapéu na cabeça. – Faz o que eu digo mas não faças o que eu faço – gracejou.
Percorremos uma boa parte do cafezal e depois Miguel foi mostrar-me o pomar e a horta.
- Só temos árvores tropicais, uma vez que as espécies europeias não aguentam o calor, embora em certas zonas como Sá da Bandeira tenham feito algumas experiências com sucesso. Temos de tudo um pouco. Banana, mamão, manga, abacate, goiaba, abacaxi, laranja, enfim, uma grande salada de fruta.
Quando regressámos era quase hora do almoço.
- Logo á tarde, depois da minha sesta, vou mostrar-lhe o escritório, os armazães  e dar-lhe conhecimento do seu trabalho.
Sílvia já estava sentada á mesa muito bem disposta e alegre.
- Então, Pedro, gostou da fazenda? – Perguntou enquanto barrava uma fatia de pão com manteiga.
- Gostei, gostei muito. Amanhã espero começar a trabalhar em pleno.
Jonny Cárter chegou a meio da refeição, resmungou um cumprimento e manteve-se calado durante quase toda a refeição.
Depois do almoço e enquanto esperava que Miguel dormisse a sua sesta, hábito de que não abdicava por nada, dirigiu-se ao seu alojamento no intuito de ler um pouco.
A cama tinha sido feita, mas como no dia anterior encontrava-se aberta, com o lençol dobrado sobre a colcha. Pousada sobre a almofada tinham deixado uma rosa escarlate.
Passaram o resto da tarde a ver os armazães, os terreiros de secagem do café e por ultimo a administração.
Samuel já se encontrava a trabalhar numa das secretárias. Na outra, que devia ter pertencido ao falecido guarda-livros, os papeis começavam a amontoar-se.
 Miguel não perdeu muito tempo com Pedro no escritório, limitando-se a dar-lhe algumas indicações sumárias. Via que o rapaz era esperto e que aquele serviço não era de todo novo para ele. Aproveitou o ensejo de Pedro estar a consultar os livros da contabilidade e deixou-os com a desculpa de que tinha um assunto urgente para tratar.
Não foi preciso muito tempo para Pedro se inteirar do seu serviço, que englobava uma série de funções para além dos livros de contabilidade, das folhas de pessoal e do economato. As compras e aprovisionamento de géneros para o consumo da roça e a cantina ficavam a seu cargo.

CONTINUA

terça-feira, 30 de outubro de 2012

CAMINHOS VI


CONTINUAÇÃO


Acabou de arrumar o que tinha trazido e colocou a mala no fundo do guarda-fatos.
-Então já conheceu a Alma? – Jonny estava á entrada do quarto. Tinha um cigarro entre os dedos, mas conservava-o apagado. Bateu com ele por diversas vezes na palma da mão, como se estivesse nervoso.
- Sim, conheci. Porquê? – Pedro teve a sensação de que ele tinha estado a espreitá-lo.
- Porque a vi sair daqui. – Meteu o cigarro entre os lábios e tentou acendê-lo, clicando o isqueiro várias vezes, sem resultado.
- Há sim! Veio colocar umas flores naquela jarra. Um gesto simpático.
Pedro dirigiu-se á porta, segurando o puxador, numa inequívoca alusão a que desejava pôr termo á conversa.
O outro não insistiu.
- Vemo-nos ao jantar. – Disse á guisa de despedida.
Estava desejoso de conhecer as suas tarefas e começar a trabalhar.
Atravessou o terreiro, passou por debaixo dum frondoso imbondeiro e caminhou ao longo da linha que limitava a zona dos cafezais. Uma espécie de cantilena familiar chegou-lhe aos ouvidos. Eram vozes de crianças a dizer a tabuada, naquela ladainha ritmada que parecia ser utilizada em todas as escolas do mundo. Provinha duma espécie de cobertura de madeira, assente em fortes barrotes, situado a pouca distância do lugar onde se encontrava. Aproximou-se curioso. Uma dúzia de crianças sentadas em bancos corridos, olhava atentamente para a tabuada escrita a giz no quadro negro, repetindo cadenciadamente os números indicados pelo ponteiro da professora. Ao vê-lo Sílvia interrompeu a aula.
- Podem ir meninos.
As crianças dispersaram-se em poucos segundos, soltando gritos de alegria.
-Não sabia que era professora.
- É verdade. – Arrumou os paus de giz e o ponteiro. Estava linda, com os cabelos loiros soltos sobre os ombros. Vestia uma blusinha de alças e uns calções brancos que deixavam a descoberto as suas pernas bem torneadas. – Pensei abrir um colégio particular na Gabela, para os filhos dos fazendeiros ricos e acabei a dar aulas num coberto de madeira para uma dúzia de meninos. – Então que faz por aqui?
- Dar uma volta por ai. Quer vir? - Pedro arrependeu-se logo do convite. Conhecia-a apenas desde aquela manhã e não queria parecer atrevido. Mas Sílvia anuiu com a maior simplicidade.
- Vamos.
- A Sílvia tem de servir de guia. Não conheço nada disto.
 Começaram a caminhar lado a lado. A jovem parecia ter um percurso definido. Começou a subir o morro, utilizando uma estreita picada que dava acesso á sanzala.
- Já esteve nalguma sanzala? Perguntou sem virar a cabeça ou abrandar o passo.
- Não. Na verdade nunca. – Pedro estava intrigado com a atitude de Sílvia.
Quando atingiram as primeiras cubatas estavam ofegantes e o suor escorria-lhes pelo rosto. As crianças brincavam na rua, livremente, muitas delas completamente nuas por causa do calor. Os bebés eram transportados nas costas das mães, seguros por uma faixa de pano larga que lhes cingia os rins, formando uma espécie de bolsa, que amarrava á frente, sob os seios.
Sílvia parou em frente de uma cubata e fez sinal a Pedro para esperar, antes de entrar. A voz da rapariga era suave e terna ao falar com alguém que se encontrava no interior da habitação. De súbito reapareceu á porta da cubata e chamou o rapaz.
- Pode entrar.
Pedro teria preferido esperar cá fora mas não quis ser indelicado. A cubata era circular e o chão de terra batida. Encontrava-se completamente desprovida de mobília, á excepção de uma esteira onde estava deitada uma mulher muito idosa.
Sílvia debruçou-se sobre ela e acariciou-lhe os cabelos brancos e encrespados com carinho.
- Mami, sou eu a Sílvia.
- Minina! – A mulher segurou a mão da jovem e apertou-a contra o rosto enrugado como um pergaminho. – Minina bonita!
Sílvia meteu a mão no bolso dos calções e tirou um chocolate. Retirou a prata protectora e chegou a guloseima á boca da idosa. Ajeitou carinhosamente a manta que cobria a mulher.
- Vamos Pedro. – Endireitou-se e saiu apressadamente da cubata, como se repentinamente se sentisse sufocar dentro daquele espaço exíguo.
Pedro estava curioso, mas não se atrevia a fazer qualquer pergunta. Prosseguiram o passeio, descendo lado a lado a picada que há pouco tinham subido. Sílvia quebrou o silêncio.
- Aquela mulher, foi a minha ama de leite. Foi ela que ajudou a minha mãe a criar-me.
Mas está muito velha. Vai morrer.
Havia um fatalismo resignado na voz de Sílvia que surpreendeu Pedro. Naquela ocasião pareceu-lhe uma pessoa mais velha, mais madura.
- Então a Sílvia nasceu aqui na fazenda?
- Nasci aqui sim. Mas não nasci debaixo dum pé de café… -  riu-se da sua própria graça e como uma criança despreocupada, deu uma corrida até ficar á sombra dum enorme imbomdeiro.
- Brinquei muito debaixo desta árvore. A Mami punha aqui uma manta e eu ficava a despir e a vestir as minhas bonecas, enquanto ela fazia outras coisas. Tínhamos um macaquinho, um sagui que vinha fazer-me companhia e brincava comigo.
- Crescer numa roça deve ser maravilhoso. - Comentou Pedro.
- É, é maravilhoso, sim. - Impulsivamente começou a contar histórias da sua infância, onde não faltavam pequenas aventuras, povoadas de todo o tipo de bicharada. Nunca mais se referiu á mãe e Pedro pensou que o fazia propositadamente.
Começava a entardecer e o chilrear da passarada intensificava-se. As cores fundiam-se num mesmo tom suave, mesclado de sombras.
- Então onde estudou?
- Na Gabela até ao sétimo ano, depois em Luanda pata tirar o magistério primário.
- Enquanto na Gabela ia e vinha todos os dias? Ainda é uma boa distância.
- Não. Só vinha aos fins-de-semana. Fui para um colégio interno.
 Miguel aproximou-se sorridente. Rodeou carinhosamente os ombros da filha com um braço.
- Não estão com fome? Ainda falta muito tempo para o jantar. Vou á cantina comer qualquer coisa. Querem vir?
- Eu não papá. Vou para o meu quarto ler um pouco.
- Venha você, Pedro. Aproveitamos para trocar algumas impressões.
A cantina funcionava, como o gerente já lhe havia dito, por cima do refeitório. Uma das paredes da grande sala, estava coberta por prateleiras repletas de garrafas e copos. Havia também um balcão com uma máquina de café e num pequeno expositor um prato com ovos cozidos, pão, queijo e diversos enchidos. Algumas mesas e cadeiras completavam o mobiliário. Um relógio de cuco parecia um pouco desajustado no ambiente, mas trouxe a Pedro recordações de infância.
Miguel foi buscar duas cervejas geladas.
- Beba, meu caro. O que nos salva aqui por estas bandas é uma cerveja geladinha e uma boa sesta á sombra dum imbondeiro.
O empregado da cantina trouxe um pratinho com amendoins torrados que deixou na mesa, afastando-se com uma leve referência.
- Então o que acha disto?
- Do pouco que vi estou a gostar. Aliás ainda não vi muito. Mas penso que vou adaptar-me bem.
- Também penso que sim. O Cardoso tem muita consideração por si. Acha que tem capacidade para o lugar.
- Fico grato pela consideração. Penso que o meu trabalho aqui será um pouco diferente do que tinha em Luanda. Pelo menos mais abrangente, mas talvez mais interessante...
- Acredito que sim. Ainda não tem noção da vastidão da fazenda, da sua beleza. Vai ficar admirado.
- Alguns homens entraram na cantina, conversando animadamente. Todos vestiam roupa clara, de tecido leve. Ao verem Miguel, baixaram o tom de voz e cumprimentaram com simpatia. Miguel fez sinal a um deles, um homem alto de compleição robusta.
-Samuel, pode chegar aqui um instante.
- Só um momento, Sr. Miguel. Tenho a garganta seca…
- O homem trouxe uma cerveja e puxando uma cadeira, sentou-se á nossa mesa.
- Samuel, apresento-lhe o Sr. Pedro Freitas, o novo guarda-livros.
Samuel estendeu a mão a Pedro com um sorriso aberto e acolhedor.
- Vamos trabalhar juntos. Já sabia?
Pedro olhou para Miguel com ar interrogativo, enquanto correspondia ao cumprimento, forte e cordial.
- O Samuel vai ser o seu ajudante. Vai trabalhar consigo directamente. – Explicou Miguel – Não tinha tido ocasião de lhe dizer.
- Quando chegou? Perguntou Samuel mastigando um amendoim.
- Hoje de manhã.
- Amanhã vou mostrar-lhe a fazenda e inteirá-lo do serviço. Gostaria que nos acompanhasse.
- Com certeza, Sr. Miguel. A que horas?
- Bem cedo para fugirmos um pouco ao calor. Sete horas, está bem para si Pedro?
- Está óptimo!
- Então amanhã depois do mata-bicho.
- Combinado. -. Samuel levantou-se e despedindo-se com um aceno e foi juntar-se aos outros empregados, que se
que se tinham sentado a uma mesa a conversar animadamente.
- Vai dar-se bem com ele. È bom tipo, cumpridor e zeloso.
Estava-se na hora do jantar e desceu com o gerente para a sala, que ainda se encontrava meia vazia. Jonny já estava sentado a petiscar pão com manteiga e Jesus que não vira mais desde o almoço também já ocupara a outra mesa. Sílvia ainda não chegara, mas contive o ímpeto de perguntar por ela.
À parte a ausência de Sílvia, o repasto decorreu normalmente. Miguel a Jonny trocaram algumas impressões sobre as suas actividades do dia e teceram alguns comentários sobre a refeição.
-Certamente vai estranhar a sua primeira noite aqui – comentou Jonny a certa altura.
- Estranhar porquê?
- As noites no mato têm ruídos inesperados e diferentes, para quem não está habituado. É a primeira vez que dorme numa roça?
- Sim, mas nasci e fui criado na serra…
Jonny soltou uma gargalhada quase ofensiva. Miguel olhou-o com ar desaprovador.
- Afinal o que tem tanta graça?
- Ora, ora! O nosso amigo Pedro quer comparar os ruídos da selva, com os da serra, lá na santa terrinha… Já ouviu o rugido do leão a meio da noite, o gargalhar da hiena ou o tossir da onça? Não imagina o que é, para quem não está habituado. È de pôr os cabelos em pé…
Pedro tinha vontade de lhe dar uma resposta á altura da sua ironia, mas limitou-se a dizer.
- Espero sobreviver até me habituar.
- O Jonny  é muito exagerado. Gosta muito de assustar os recem chegados… comentou Miguel, talvez com a intenção de suavizar a atitude do ajudante.

CONTINUA

A CORAJOSA MÃE PARDAL



Uma vez, uma dedicada mãe pardal, instalou-se na orla dum terrível oceano.
Baleias enormes, golfinhos brincalhões, tartarugas vagarosas e todas as espécies de peixes nadavam naquelas águas calmas e serenas e pela margem havia uma grande quantidade de caranguejos assustadiços e barulhentos pássaros marinhos.
A mãe pardal fez o ninho para os seus ovos na praia de areia fofa e macia esperando feliz que nascessem os seus queridos filhotes.
Não muito depois as marés de Outono chegaram e subiram o nível das águas muito mais que o normal. Então as mãos aquosas do terrível oceano levaram os ovos da pobre e desconsolada mãe pardal. Ela ficou muito triste e afectada e correu para as margens do oceano. Apesar de chorar muito e muito, o grande e altivo oceano não fez caso dos seus tristes prantos e nem sequer perdeu tempo a considerar a situação.
Incapaz de suportar aquela terrível perda e determinada a recuperar os seus queridos ovos, a mãe pardal com o coração destroçado, dirigiu sentidas palavras ao raptor dos seus filhos; Ó vasto e infindável oceano, roubaste-me o meu bem mais precioso, sem o qual a minha vida não tem sentido nem significado! Para ti são apenas alguns pequenos e insignificantes ovos... Mas para mim são a razão da minha existência, o que dá sentido ao meu presente e ao meu futuro. Rogo-te que mos devolvas sãos e salvos para que deles possa cuidar! Apelo á tua grandeza e misericórdia".
Perante tais palavras sinceras e reveladoras de enorme amor de mãe, o oceano ter um coração seco e pouca profundidade de sentimentos.
Daí que se tenha limitado a ignorar a mãe pardal, continuando no seu eterno vai e vem, onda a onda.
Incapaz de suportar aquela terrível perda e determinada a recuperar os seus amados filhotes, a mãe pardal com o coração destroçado mas segura e corajosa, decidiu esvaziar o oceano e recuperar os seus ovos. Assim dirigiu-se novamente ao oceano dizendo: " Como és um ser sem misericórdia, vou esvaziar as tuas águas".
Os pássaros que viviam nas margens não pensavam de igual modo e sentiam pena da sua pobre irmã. Uma gaivota disse;" O oceano é tão malvado, não tem coração. Deveria receber uma grande lição, mas que podemos fazer?"
Então o grande albatroz falou. Não só era o mais velho, mas também o mais sábio. Além de ter voado por muitos lugares e aprendido muitas coisas. " Este oceano não é muito grande. Garuda é ainda maior que este malvado oceano. E muito mais poderoso. Ele é o rei de todas as aves e também o sagrado transportador do senhor Vishn que é o protector dos débeis e dos desamparados. Devemos pedir a sua ajuda".
Assim todos os pássaros que ali se encontravam, reuniram-se e começaram a cantar juntos num grande e harmonioso coro.
Ouvindo estas preces de pedido de auxilio, Garuda, a águia gigante e rei das aves, apareceu no céu num voo majestoso e amplo; as suas asas imensas ressoando sagrados hinos védicos. Os peitos dos pássaros que na praia esperavam, incharam de orgulho ao ver o seu senhor tão grande e forte, acudindo em sua ajuda. Garuda aterrou na praia. O seu corpo ágil e poderoso brilhava com energia espiritual. O seu grande bico e garras afiadas davam confiança aos pássaros mas enchiam de medo os corações das serpentes e das pessoas invejosas.
O rei das aves foi então testemunha da grande determinação da corajosa mãe pardal, na sua inútil intenção de esvaziar o oceano. Sentindo compaixão pela sua pequena irmã, Garuda levantou voo e escureceu a praia e as ondas, com a sombra das suas imponentes e majestosas asas.
 De lá de cima falou com voz grave e sonora:"Oh oceano miserável, eu ordeno-te que devolvas os ovos á sua mãe, senão eu mesmo te esvaziarei!"
Escutando estas terríveis palavras o oceano e todos os seus residentes tremeram de medo. Eles sabiam que querendo, Garuda poderia realmente tragá-los a todos de uma só vez.
Assim para apaziguar o imponente rei das aves, o oceano arrependido e já humilde, pegou nos ovos e colocou-os de forma cuidadosa na areia para assim os devolver á sua mãe.
A dedicada mãe pardal, recolheu encantada os seus ovos preciosos e levou o ninho para um sitio mais seguro longe da orla do oceano. Todos os pássaros ajudaram nessa tarefa enquanto riam e cantavam plenamente felizes.
Mais tarde quando terminaram a tarefa o sábio albatroz pediu a todos que se reunissem." A nossa corajosa irmã pardal superou este desafio com a força da sua grande determinação e grande amor.Que sirva de lição a todos nós."


FIM

Esta história tão bonita tambem foi  transcrita do tal livrinho de bolso de contos indianos que comprei á entrada dum supermercado na Horta, quando passava férias. Linda não é?


segunda-feira, 29 de outubro de 2012

O FIEL AMIGO - IV


CONTINUAÇÃO

Quando deixou a irmã, uma ideia engendrada já há alguns dias não lhe saia da cabeça.
Sempre odiara matar fosse o que fosse, mas como a Margarida dissera para ir para a América tinha de juntar dinheiro e dinheiro ganhava-se na faina da baleia.
Resolveu ir falar com o Justino das baleias. Quem sabe não tinha um lugar para ele.
Encontrou-o a reparar um bote. Nem deu por ele, tão embrenhado estava na sua tarefa de aplicar betume nalgumas fendas abertas no casco dum bote.
- Bom dia, Sr. Justino.
- Bom dia. - respondeu sem interromper o trabalho.
- Precisava falar-lhe.
O Justino levantou levemente a cabeça.
- Há és tu? Fala rapaz, estou a ouvir.
- Queria trabalhar consigo... se tivesse um lugar.
Justino interrompeu a tarefa e levantando o rosto para o rapaz observou.
-  Na caça à baleia? - estranhou - Não és o filho do Manel da Júlia?
- Sou, sim senhor.
- Não trabalhas com ele?
- Trabalho sim senhor. Mas quero is p'rá América. Preciso juntar dinheiro p'ra passagem.
- Diacho! Não quero chatices c'o teu pai. Conheço-o dos bancos da escola e tu ainda és muito novo.
O rapaz fez um gesto de impaciência.
- Tou quase a ir p'ra tropa. Tenho que aproveitar até lá. Posso continuar a ajudar o meu pai.
- Também não aparecem baleias todos os dias... acautelou o Justino - está bem. Quando ouvires o pregão achega-te ao cais.
- Sim senhor. Pode contar comigo.
Não podia adiar uma conversa com o pai e resolveu que seria nesse mesmo dia á hora da janta.
Com todos á volta da mesa, a voz do Manel soou um pouco estridente.
- Hoje fui falar com o Justino das baleias. Vou trabalhar com ele.
A mãe ficou estática, os olhos surpresos e receosos, mas o pai continuou a mastigar calmamente. Quando falou a sua voz suou calma e controlada.
- Á sim? E quando decidiste isso?
- Hoje mesmo pai. - respondeu o rapaz mais á vontade, incentivado pela calma do progenitor - Preciso juntar algum dinheiro antes da tropa...
- E quem me ajuda c'oas terras e c'o gado?
- Eu continuo-o a ajudá-lo pai. Não há baleias todos os dias... de qualquer maneira quando for p'ra tropa o pai vai ter de se haver sozinho...
- Lá isso é verdade, lá isso é verdade ... reconheceu esmorecido.
A conversa ficou por aqui e a vida continuou no mornanço dos dias sempre iguais, de quando em quando quebrados pelo gritos dos vigias e uma saída ás baleias.
Manel não gostava desta atividade, mas arrecadava algum dinheiro e isso incentivava-o a continuar.
E havia a Rita! Conhecera-a  na festa da freguesia dedicada ao santo padroeiro.. Era uma bonita rapariga, com uns belos olhos cor de mel a iluminarem a tez alva, emoldurada por uns sedosos cabelos castanhos que lhe caiam numa cascata de sedas até meio das costas. O namorico começou logo nessa noite, durante o bailarico no terreiro, depois dumas tantas músicas em que dançaram juntos.
O namoro evoluíra e os pais dela conhecedores, tinham-se calado numa muda anuência, porque quem cala consente.
Mas o jovem estava decidido a seguir o caminho traçado e nada o faria desistir.
O serviço militar foi cumpri-lo  de boa vontade, ao contrário de muitos jovens que volviam céus e terra para dele se escaparem.Como "o que tem de ser tem muita força", foi até com um certo entusiasmo que enfrentou esta etapa da sua vida.
Foi destacado para fazer a recruta em Angra do Heroismo e pela primeira vez saiu da sua ilha, da sombra acolhedora da montanha. As suas viagens até ai resumiam-se a algumas idas á Horta e uma vez a S.Jorge, com a mãe para visitar uma tia que lá morava. Quando acabou a recruta foi colocado no quartel da Horta e ai permaneceu até acabar o serviço militar.. Neste período fora a casa em algumas folgas e numa dessas ocasiões dissera ao pai que iria tentar a América quando se visse livre da tropa. Fora uma conversa um tanto difícil pois o pai não aceitara de bom grado a notícia e muito menos Rita a quem entre um beijo e outro trocados á escapadela contara o seu projecto.
- E eu? Fico p'raqui sozinha! Nunca mais te vejo...
Ele tentara acalmá-la. Gostava dela mas nada o faria desistir do seu sonho.
- Qual nada... estás parva. Depois casamos p'ro coração e vais ter comigo.
Ela alinhara a cabeça no seu peito.
- Prometes que não te esqueces de mim?
- Claro que não, rapariga! Claro que não...
Sentia-se agora mais seguro de si mesmo, mais independente.
Pediu à Margarida a direção do tio que tinha emigrado para os "states" há muitos anos, ainda muito jovem e escreveu-lhe uma carta, confiando-lhe os seus anseios e pedindo-lhe que o ajudasse a concretizá-los mandando-lhe uma carta de chamada.

CONTINUA






domingo, 28 de outubro de 2012

CAMINHOS V


CONTINUAÇÃO




Jonny seguia em marcha lenta, certamente para dar a Miguel a oportunidade de mostrar a paisagem, mas mantinha-se calado. No entanto, através do espelho retrovisor, procurava insistentemente a filha de Miguel.
Tinham descido o morro em direcção á roça e percorriam agora um acesso particular rodeado de cafezais. Algumas dezenas de indígenas, quase na sua maioria homens, apanhavam os bagos maduros que colocavam em grandes cestos. Estava-se na época forte da colheita e o trabalho era muito. Acenavam calorosamente á passagem da viatura.
- Veja que maravilha, Pedro.
- É realmente maravilhoso o que esta terra produz, a riqueza que tem… - Pedro estava a ser sincero, pois estava realmente maravilhado.
A voz de Sílvia que até ai se mantivera calada, limitando-se a escutar o pai, fez-se ouvir num tom carinhoso, quase maternal.
- O papá adora tudo isto. É o que ele mais ama no mundo.
-Tu sabes que é a ti que eu mais amo no mundo. Mais que tudo, mais que todos. – Miguel rodou ligeiramente no banco e acariciou rapidamente o rosto da filha. Vendo o amor que transparecia no seu olhar, Pedro não duvidou de que falava verdade.
Aproximavam-se agora do aglomerado de casas que Pedro vira do cimo do morro.
O jeep deteve-se junto de uma das poucas de dois pisos, rodeada dum alpendre como a maioria, e apearam-se todos. Por delicadeza Pedro estendeu a mão a Sílvia para a ajudar a descer e pôde constatar como ela era realmente bonita, com o seu corpo esguio e flexível, os cabelos louros repuxados no alto da nuca, os belos olhos azuis de longas pestanas e os lábios carnudos.
- Vou mostrar-lhe as suas instalações. Espero que goste.
Pedro pegou na sua mala e seguiu Miguel até uma das casas de um só piso, alguns metros á frente da primeira.
- Ali funciona o refeitório, a cozinha e no primeiro andar a cantina que serve também de sala de convívio. Estamos aqui um pouco isolados e precisamos de conviver um pouco. Por vezes jogamos ás cartas, ao dominó, ou uma partida de damas. Ajuda o tempo a passar. Gosta de jogar?
- Ao dominó e um pouco ás damas, mas não sou um ás em nenhum deles – explicou Pedro sorrindo.
- Miguel abriu a porta e deu passagem a Pedro.
- Espero que se sinta bem entre nós – disse á guisa de boas vindas.
A casa compunha-se de dois quartos de cama, uma casa de banho e uma pequena sala, onde se podia ver um frigorifico, uma mesa com quatro cadeiras e uma estante com alguns livros.
- Tem sempre água gelada ou cerveja – disse Miguel apontando o frigorifico – por causa do calor.
- Miguel indicou-lhe um dos aposentos. Pedro colocou a mala em cima da cama, que já estava feita, os lençóis cuidadosamente dobrados sobre a colcha, pronta para abrir. Havia uma cómoda, um guarda-fatos, duas mesinhas de cabeceira e uma cadeira. Era espaçoso e bem iluminado, com duas grandes janelas, que davam para o terreiro, dominado aqui e ali por grandes imbondeiros.
Miguel ficara á porta, olhando-o com ar interrogativo, como se esperasse a sua aprovação.
- Está ao seu agrado? Se necessitar de mais alguma coisa, diga.
- Está óptimo, Miguel. Nem esperava tanto.
- Procuramos proporcionar algum conforto aos nossos empregados. Ajuda a suportar a solidão. – Pedro pareceu notar uma certa amargura na sua voz, mas não teceu qualquer comentário.
- Vem uma empregada limpar a casa, fazer as camas, apanhar a roupa, enfim, fazer tudo. As refeições são servidas no refeitório. O mata-bicho pelas sete horas, o almoço pela uma da tarde e o jantar pelas oito horas. Mas nos intervalos pode sempre petiscar qualquer coisa na cantina se tiver fome. Há, já me ia esquecendo. Vai partilhar o seu alojamento com Jesus. Penso que se dará bem com ele. È bom rapaz!
Miguel parecia cansado e despediu-se rapidamente, como se de repente tivesse concluído que não havia mais nada para dizer.
- Bem, vou andando. Vá arrumando as suas coisas. Vemo-nos ao almoço. Até já.
Pedro desfez a mala e dedicou-se a arrumar algumas roupas nas gavetas da cómoda e a pendurar outras no guarda-fatos. Calças e calções de caqui, camisas leves, alguma roupa interior.
- Ora, ora, aqui temos um homem arrumado.
- Virou-se surpreso e encarou um mestiço alto e espadaúdo, de olhos risonhos que o fitavam surpresos e condescendentes.
- É Jesus? – Perguntou.
- Jesus, mas não Cristo. Vejo que já lhe falaram de mim. Você é o novo guarda-livros?
- Sou eu mesmo. – Pedro adiantou-se estendendo-lhe a mão – Pedro Freitas, mas trate-me por Pedro.
Cristo tinha um ar franco, que lhe agradou. O seu aperto forte, deixava transparecer firmeza de carácter.
- Vejo que é um homem organizado. Venha ao meu quarto e verá que sou o inverso. – E perante a hesitação de Pedro – venha, quero mostrar-lhe algo.
Pedro seguiu-o até ao outro quarto, que era similar ao seu, mas se encontrava numa desordem total. Havia roupas e objectos espalhados por todos os lados.
- Como vê, amigo, isto está um caos, mas – interrompeu-se para abrir a porta dum pequeno móvel de pau-preto trabalhado, que se encontrava a um canto do quarto – tem uma coisa que o seu não tem – e exibiu uma garrafa de whisky, praticamente cheia. – Proponho um brinde pela sua chegada a estas difíceis paragens. Deitou o precioso líquido cor de âmbar em dois copos, entregando um a Pedro.
- Difíceis porquê – perguntou Pedro curioso.
- A vida no mato não é fácil. A cada passo espreita o perigo…
- Que perigos?
- Imensos meu caro. Passaria horas a enumerá-los mas aproxima-se a hora do almoço e estou com uma fome de leão.
- De qualquer maneira obrigado pelo aviso. Serei cuidadoso.
Pedro foi tomar um duche rápido e vestiu roupa lavada. Sentiu-se totalmente recuperado da viagem.
Jesus esperava-o no alpendre fumando um cigarro

                                                       __///__

                                                             

O refeitório do pessoal era bastante grande. Possuía várias janelas protegidas com rede e persianas de madeira que seriam fechadas nas horas de maior calor. Duas compridas mesas ladeadas por bancos corridos, já se encontravam em parte ocupadas por alguns homens que conversavam animadamente.
Ao fundo, um grande aparador servia de apoio aos criados, que começavam a servir as mesas. Do outro lado ficava a cozinha, que para além duma meia porta de vaivém, tinha acesso á sala por uma janela através da qual o cozinheiro passava as travessas já preparadas.
Miguel encontrava-se sentado a uma das mesas, ladeado pela filha e por Jonny. Mais alguns homens cavaqueavam entre si, não parecendo dar pela presença do recém-chegado. Miguel ao vê-los entrar acenou-lhes amistosamente., fazendo-lhes sinal para se sentarem na sua mesa.
Pedro ficou interdito, vendo Jesus dirigir-se para a outra mesa, depois de lhe ter dito com um sorriso irónico.
- Esta é a mesa da alta. Prefiro aquela!
Mas perante a insistência de Miguel, acabou por sentar-se entre Jonny e um desconhecido, um homem de meia-idade, arruivado, de rosto redondo e bonacheirão, que falava animadamente, entre as grandes garfadas que levava á boca.
Miguel fez uma apresentação geral.
- Este é Miguel Freitas, o novo Guarda-livros – Um aceno de cabeça e um murmúrio geral, completaram a apresentação.
Sílvia estendeu-lhe uma travessa, donde se desprendia um aroma bastante apetitoso.
- É caça! – Elucidou Miguel – Espero que goste.
- Neste momento gosto de tudo! Gracejou Pedro.
- Acredito. Teve uma manhã difícil… A voz de Sílvia era conciliadora e suave.
- Xavier é o rei dos caçadores – elucidou Miguel entre duas garfadas, com um aceno de cabeça em direcção ao ruivo – É ele o responsável pelo prazer que nos dá esta deliciosa carne.
Jonny fez um esgar de repulsa – para quem gosta…
Miguel soltou uma gargalhada -  O Jonny prefere peixe seco com bananas e óleo de palma.
Pela primeira vez desde que se tinham encontrado, que Pedro viu um sorriso aberto no rosto de Jonny.
-E não só! Frango de caril, muamba, muzungu e até – aqui interrompeu-se e inclinando-se um pouco, deixou que um dos criados colocasse na mesa uma travessa de onde se desprendia um aroma bastante convidativo -  este cabrito assado no forno, que deve estar uma delícia.
Só ai Pedro reparou que ele tinha o prato limpo e que não chegara a servir-se.
- O nosso cozinheiro faz sempre qualquer coisa alternativa, para os que não gostam de caça. – Adiantou Miguel – se não gosta Pedro, não se constranja. Como diz ai o nosso amigo Jonny o cabrito deve estar uma delícia.
Embora nunca tivesse comido carne de caça e esta tivesse um travo diferente, achou-a bastante saborosa.
- É carne de quê?
- De veado – esclareceu o ruivo - Já provou carne de Javali?
- Não, aliás nunca tinha provado caça.
- Nem sabe o que tem perdido. Mas aqui na roça não lhe vai faltar oportunidade.
Miguel tinha virado a sua atenção para a filha que se mantinha calada.
- Então, minha filha? Não comes nada…
-Comi bem, papá.
- É preciso manter a elegância … – Comentou o ruivo.
Miguel lançou-lhe um olhar de crítica.
- Gosto mais de peixe, papá. Sabes disso.
- Peixe não puxa carroça. Aqui no mato precisamos de carne para manter as energias.
- Certo papá, mas eu estou bem. Não te preocupes. – Sílvia pousou a mão no ombro do pai num gesto de ternura.
Serviram á sobremesa uma salada de frutos tropicais e doce de coco.
- Esta fruta é aqui da fazenda? – Perguntou Pedro curioso.
- É, sim. A fruta e as verduras são cultivadas aqui na roça. Temos um belo pomar e uma horta que nos dá de tudo.
Terminado o repasto saíram para o terreiro, onde se fazia sentir àquela hora intenso calor, suavizado pela sombra das grandes árvores, plantadas ali certamente para o efeito.
- Por hoje, Pedro, será melhor descansar da viagem e recuperar forças. Amanhã inteiro-o do seu trabalho e mostro-lhe a fazenda mais detalhadamente. Concorda?
- Certamente, Miguel. Vou acabar de arrumar as minhas coisas.
Dirigiu-se á nova casa e abriu a porta com uma chave que Jesus me facultara antes do almoço.
- Fique para já com esta, até o gerente providenciar chaves para si. Depois devolve-ma. É sempre bom ter uma chave de reserva.
- Obrigada, Jesus. Já agora uma curiosidade. O antigo guarda-livros morava aqui?
- Não, não! O Almeida vivia na sanzala. - Parecia hesitante como se lhe desagradasse tocar no assunto.
O jovem não insistira mas ficara surpreso.
Uma figura feminina encontrava-se junto da cómoda, ajeitando uma pequena jarra com flores silvestres. Virou-se ao ouvir a voz de Pedro.
- Boa tarde!
- Boa tarde. Desculpe a intromissão, mas achei que o seu quarto ficaria mais alegre com algumas flores.
Os dentes alvos sobressaiam no rosto moreno. Os cabelos negros como azeviche, muito encaracolados, emolduravam um rosto perfeito. Sem saber bem porquê, o rapaz sentiu-se um pouco perturbado – Com quem estou a falar?....
A mulher adiantou-se e estendeu-lhe a mão que Pedro sentiu firme mas suave entre a sua.
- Sou Alma. Você é o novo guarda-livros?
- Exactamente.
- Sou filha do anterior. – O seu rosto ficou subitamente sombrio, como se uma nuvem negra tivesse passado sobre a sua cabeça.
- Sinto muito Posso ajudar nalguma coisa.
Não, não. Obrigada. – Deu alguns passos em direcção á porta – sabe, o que ainda mais me aflige, foi a maneira como morreu.
Pedro não era particularmente curioso, mas não conseguiu evitar a pergunta. – Como morreu?
- Foi assassinado.
A surpresa emudeceu Pedro. Porque não lhe tinham dito? Na realidade nunca perguntara.
- Não sabia? – Perguntou Alma ao ver a surpresa estampada no rosto dele.
- Não, não sabia. E descobriram quem foi?
- Foi uma cobra venenosa. Uma Mamba verde. O veneno dela é letal. – No olhar da rapariga transparecia agora um profundo rancor.
- Então foi um acidente? – Pedro estava cada vez mais surpreso.
Alma aproximou-se de Pedro. A sua voz soou baixa, quase em surdina.
- Não, foi assassínio. Colocaram a cobra na cama dele, de propósito. – Pousou uma  mão suavemente no braço de Pedro – seja cego, surdo e mudo. Para seu bem…
Alma desceu a correr os degraus do alpendre e desapareceu na esquina da casa, deixando Pedro estupefacto no meio do quarto.

CONTINUA

quinta-feira, 25 de outubro de 2012

CAMINHOS - IV



Quase que instantaneamente se lembrou de Pedro para o efeito e como não era homem para adiar decisões, mandou a sua secretária chamá-lo imediatamente. Pouco depois o rapaz entrava no seu gabinete.
- Sente-se, Pedro. – Convidou com um sorriso amistoso.
O rapaz obedeceu algo curioso. Na realidade o patrão já o chamara por diversas vezes, para trocar impressões sobre assuntos de serviço, mas naquele dia o seu sexto sentido dizia-lhe que se tratava de algo mais importante e pessoal.
- Pedro, já está connosco há algum tempo, não é assim?
- Já lá vão quase três anos, Sr. Cardoso.
- É verdade, o tempo passa depressa. Parece que foi outro dia que o seu tio me veio pedir para o deixar ocupar a vaga de ajudante de guarda-livros. – Acendeu um cigarro vagarosamente, perante a impaciência de Pedro.
- Tenho que reconhecer que foi uma boa aquisição. É trabalhador, assíduo, responsável e – aqui interrompeu-se e fixou Pedro com um olhar arguto – melhor que tudo, ambicioso.
- Pedro estava um pouco confuso com aquela conversa. Não conseguia atingir onde o homem queria chegar.
- A ambição é uma grande qualidade, Pedro, quando, como no seu caso, é controlada pelo bom senso. – Sorriu e estendeu-lhe o maço de cigarros. Pedro agradeceu com a mão, devolvendo o sorriso. – Obrigado, não fumo.
- Ora ai está um bom hábito. – Acendeu outro cigarro e expeliu uma longa baforada –
Comecei a fumar muito novo. Apanhei muitos tabefes do meu pai á custa de me apanhar a fumar um cigarrito Hoje dou-lhe razão, mas agora é tarde de mais.
Pedro começava a ficar nervoso com tantos preâmbulos.
- Tenho uma proposta a fazer-lhe, meu rapaz. Tem a liberdade de recusar ou aceitar. Nada se alterará em relação á sua posição na empresa se recusar.
- Compreendo Sr. Cardoso. È bom saber isso.
-Bem, como sabe, possuímos diversas fazendas quer a norte, quer a sul do País. A Santa Clara é uma grande e produtiva fazenda de café, com uma produção anual que ronda as duas mil toneladas. - Fixou Pedro com ar inquiridor – Aliás sabe disso?
Pedro sentia-se analisado e isso incomodava-o, especialmente porque desconhecia o motivo.
- Sim, sim, Sr. Cardoso. Conheço o movimento de todas as roças, através dos mapas que mensalmente recebia na sede. Aliás, embora nunca me tenha deslocado a nenhuma, sei onde ficam situadas, o que é cultivado em cada uma. – Explicou Pedro com uma certa ênfase.
O Sr. Cardoso levantou-se e dando a volta á secretária, colocou a mão no ombro de Pedro, com ar paternal.
- Fico muito contente por verificar como se interessa por tudo o que diz respeito ao seu trabalho. Então vamos ao resto.
- Finalmente vou saber o que quer de mim – pensou Pedro, suspirando aliviado.
- Esta manhã recebi um telegrama do gerente da Santa Clara. O guarda-livros que tinha a seu cargo a contabilidade, existências em armazém, economato, enfim, tudo o que respeitava á parte financeira da roça, faleceu. – Acendeu um novo cigarro, perante a admiração de Pedro – É necessário mandar alguém para substitui-lo com urgência. Pensei em si, Pedro. Acho que tem o perfil adequado ao desempenho das funções. - Ficou expectante a olhá-lo á espera da sua reacção.
Pedro ficou tão surpreso, que emudeceu por momentos. Nunca lhe passaria pela cabeça uma proposta daquelas. Não passava de um novato, inexperiente naquelas andanças. Nem sequer conhecia o interior da Província, a selva, por assim dizer. Nunca avançara para além da Barra do Cuanza. Mas também não podia negar que esta proposta o entusiasmava imenso. Tinha espírito aventureiro e fora esse mesmo espírito que o impulsionara a deixar a sua terra, a casa, os pais. Só conhecia Luanda e arredores e desejava ardentemente conhecer muito mais de Angola, desse pais imenso, de grandes e profundos contrastes.
- Não sei se estarei á altura… a voz saiu-lhe mais hesitante do que teria desejado.
- Por aquilo que conheço de si, Pedro, penso que sim. Mas poderá pensar melhor…
Pensar melhor? Para quê? Lembrava-se que a mãe usava dizer “ quem muito pensa pouco tenta” e estava de acordo com ela. Era livre de tomar as decisões que quisesse sem precisar consultar ninguém. Poderia pedir conselho ao tio, mas não era obrigado a
fazê-lo.
- Aceito, Sr. Cardoso.
- Muito bem, Pedro. Fico contente por si e por mim. Vai ver que não se arrepende desta decisão.
- Estou certo que não e fico-lhe muito grato pela oportunidade.
- Não precisa agradecer. Tem feito por merecer a minha confiança.
Pedro estava tão entusiasmado que teve dificuldade em concentrar-se nas explicações que o patrão achou por bem dar-lhe, sobre as suas novas funções.
- O seu ordenado será quase o dobro do que o que aufere aqui, para além de muitas outras vantagens, tais como casa e alimentação. A alimentação posso garantir-lhe que será excelente, quanto á casa, uma vez que é solteiro, irá partilhá-la com alguém. Um colega certamente…
- Não haverá problema. Normalmente sou de trato fácil…
- Eu sei – concordou o Sr. Cardoso – já tive ocasião de verificar essa sua qualidade.
O Sr. Cardoso era um homem muito perspicaz. Nada lhe passava despercebido, embora por vezes parecesse alheado de tudo, embebido no seu trabalho.
- Terá de assumir as suas funções o mais rapidamente possível. O gerente da Santa Clara está preocupado com a falta de um responsável pelo movimento de armazém e pelas folhas do pessoal. A contabilidade em si é fácil de pôr em dia mas o resto tem de ser feito diariamente.
- Irei quando quiser, Sr. Cardoso. De qualquer modo e embora conheça um pouco do movimento das roças, vou precisar de algumas directrizes.
- Certamente, Pedro. Não se preocupe. O gerente dar-lhe-á todo o apoio necessário. E outra coisa – parecia agora um pouco preocupado – o Pedro vai ter de ir pelos seus próprios meios. Nesta altura é-me impossível ir lá levá-lo, embora não me desagradasse nada. O cozinheiro é de mão cheia, faz uma muamba de comer e chorar por mais…Aliás seria bom já o ter levado a conhecer algumas das nossas fazendas, mas o tempo escasseia… concluiu á guisa de justificação.
- Vai correr tudo bem. Só necessito de algumas informações de como lá chegar. Quem tem boca vai a Roma. - Estava tão entusiasmado que qualquer obstáculo lhe parecia fácil de ultrapassar.
.- Terá de ir de comboio até á Gabela. O gerente irá lá buscá-lo – Parecia agora muito ocupado a compilar uma série de documentos – Pode ir daqui a dois dias?
- Certamente. É só o tempo de fazer a mala, ultimar alguns assuntos e estou disponível.
- Muito bem. Há, já agora um conselho. Vai estar mais fresco que aqui em Luanda, principalmente á noite. Tenha isso em conta quando fizer a mala.
- Tomarei, obrigado.
Mal sabia Pedro, as surpresas que o aguardavam.
                                                            __///__                  



O jeep  Willis cinzento aproximava-se lentamente, pois apesar da potência do seu motor de tracção ás quatro rodas, vencia com dificuldade a ravina íngreme e arenosa. Desapareceu por momentos numa curva, para reaparecer a cerca de vinte metros.
 Pedro acenou e a viatura abrandou, vindo deter-se junto dele, com o motor a arfar como um velho cansado e provocando uma nuvem de poeira. A porta do lado do condutor manteve-se fechada, mas a outra abriu-se, dando saída a um homem de elevada estatura, envergando um fato leve de caqui.
A Pedro pareceu-lhe relativamente jovem, a avaliar pelos cabelos negros e a boca de traços firmes, pois os olhos trazia-os protegidos por óculos escuros. Quedou-se indeciso, com o braço esquerdo apoiado na porta que mantinha entreaberta.
Pedro aproximou-se lentamente, tentando aparentar um ar descontraído apesar da sede e do consaço.
-Boa tarde. Pode informar-me se me encontro muito longe da fazenda Santa Clara?
O homem analisou-o por um momento através das lentes escuras.
- A Santa Clara? – Parecia espantado como se lhe tivesse perguntado se estaria longe de Marte.
- Sim, a Santa Clara. Indicaram-me este caminho – tirou o lenço do bolso das calças e limpou o suor que lhe escorria pelo rosto. A temperatura devia rondar os trinta graus – mas parece que nunca mais lá chego…
- É este o caminho, sim! Aliás nós somos da Santa Clara. Só não entendo… tirou os óculos escuros como se repentinamente eles lhe dificultassem a visão – calculo que seja o novo guarda-livros?
- Sou eu mesmo. – Pedro estava agora um pouco agastado, embora tentasse não o demonstrar – Enviei-lhes um telegrama a avisá-los da minha chegada á Gabela…
- Certamente, certamente, só que veio a passo de caranguejo. Só o recebi á cerca de meia hora. – O rosto abriu-se num sorriso amigável. Não devia ter saído da cidade. –
Estendeu-lhe a mão, ao mesmo tempo que lhe tocava o ombro num gesto amigável –
Agora que chegou aqui são e salvo, o melhor é esquecer este contratempo. Eu sou Miguel o gerente da Santa Clara.
Pedro pousou no chão a maleta, que de súbito lhe pereceu extremamente pesada e limpou mais uma vez a testa suada.
- Perece extenuado?
Sentiu uma tontura e cambaleou. Por um momento tudo rodou á sua volta. O jeep, o seu interlocutor, a ravina íngreme e o capim ressequido das bermas. Quando recuperou sentiu a mão de Miguel a ampará-lo.
- Apanhou demasiado sol. Está um calor infernal…
A porta do lado do condutor abriu-se e desceu um homem alto e louro, de feições finas mas algo duras, que se aproximou.
- Que se passa afinal? Indagou com uma certa brusquidão, que desagradou a Pedro, que estava furioso consigo mesmo por ter dado parte de fraco.
Miguel fez as apresentações.
- É o Sr. Pedro Freitas, o novo guarda-livros. Jonny Cárter o meu ajudante.
- Trate-me só por Pedro. – A mão de Jonny era firme mas o olhar manteve-se frio.
- Vamos andando – alvitrou Miguel – ficamos torrados se continuamos parados a esta soleira –  deteve-se e interrogou Miguel, franzindo a testa com ar  intrigado.
- Como se aventurou a sair da Gabela e vir a pé por ai fora…
- Como não estava ninguém á minha espera na estação, perguntei num café se a Santa Clara era longe. Informaram-me que era uma hora de caminho.
- Palhaços – resmungou Miguel – uma hora de jeep não a pé. Bom, vamos andando. Está esfomeado, sujo e cansado. Precisa de um banho e uma boa refeição.
Estava realmente muito cansado e agora que Miguel aludira a uma refeição é que viu como estava esfomeado. Não comia nada desde manhã, muito cedo.
Subiu para o assento traseiro de jeep, depois de ter arrumado a maleta no tejadilho onde havia uma armação metálica que servia de porta bagagens. Só então reparou no vulto feminino, no outro extremo do assento traseiro. Ela estendeu-lhe a mão com simpatia.
- Sou Sílvia, a filha do Miguel. Prazer em conhecê-lo, senhor?
- Pedro, Pedro Freitas. Sou o novo guarda livros.
Ela soltou uma risada divertida. – Isso já eu sei!
Apertaram as mãos e apesar da obscuridade motivada pela sujidade dos vidros enlameados, pôde ver que era muito jovem.
O jeep retomou a penosa subida, mas pouco depois esta terminou abruptamente e uma extensa planície surgiu aos olhos maravilhados de Pedro. Os cafezais desdobravam-se a perder de vista. As casas da fazenda e os armazéns formavam um círculo quase fechado, constituindo uma espécie de cidadela, num dos extremos da plantação. Como que penduradas a meio do morro, as cubatas de adobe com os telhados de colmo, alinhadas como soldados, pareciam guardiões.
- A fazenda, ou roça, como lhe queiramos chamar, fica situada num vale profundo, como pode ver. – Miguel trazia o braço fora da janela e abarcava a paisagem num gesto largo. Pedro não lhe via o rosto, mas adivinhava-lhe pela voz o seu entusiasmo em mostrar ao  recem  chegado a terra que amava.
Muito ao longe, as vertentes montanhosas caiam ou quase a pique ou deslizando em declives suaves, numa mescla de cores que iam do anil ao vermelho vivo, quando batidas pelo sol . A terra africana reflecte as cores do arco-íris e explode em vermelho fogo ao pôr-do-sol.

CONTINUA

quarta-feira, 24 de outubro de 2012

CAMINHOS III


CONTINUAÇÃO


Estavam sentados na modesta sala de visitas, as cadeiras de palhinha enfeitadas com almofadas tricotadas pela mãe aos serões. A um canto, uma mesinha coberta com uma alva toalha rendada, ostentava o Menino Jesus, de pé, com o seu vestidinho muito lavado. Fora-lhes oferecido como prenda de casamento.
A mãe levantara-se e fora refugiar-se na cozinha, certamente para não lhe verem as lágrimas. O pai ficara calado e quando falou foi no tom calmo que o caracterizava.
- O Pedro ainda é muito jovem para ter a certeza do que quer, mas se quando fizer a tropa quiser ir para Angola e estiveres disposto a ajudá-lo, podes chamá-lo.
Pedro ficou boquiaberto com as palavras do pai. A admiração e amor que sentiu por ele naquele momento fizeram-no levantar e abraçar-se ao pescoço dele. – Só quero que sejas feliz, meu filho – concluiu com a voz embargada. Só muitos anos mais tarde é que Pedro avaliou a dimensão do sacrifício que o pai tinha feito por ele..
Naquela altura para ir para Angola ou Moçambique, era necessária uma carta de chamada de algum familiar próximo. Esta lei Salazarista tinha a finalidade de controlar o fluxo de portugueses para as colónias de África, abandonando e despovoando as terras de origem. Quando o tio se despediu ficou assente que mandaria uma carta de chamada para Pedro quando este se visse livre do serviço militar, se o seu desejo de ir para Angola se mantivesse.
 Manteve-se e acompanhou-o pelos dois anos seguintes como companheira inseparável e constante. Pedro devorava todas as notícias, livros ou revistas que se referissem a África.  Completou o curso geral dos liceus com dezassete anos com boa classificação, mas achou que não valia a pena continuar. Necessitava aprender um ofício prático para poder trabalhar em Angola e ganhar dinheiro e assim foi como aprendiz de contabilidade, para o escritório dum primo em Portimão. O que ele lhe pagava era pouco, mas economizado tostão a tostão chegaria para pagar a passagem para Luanda.
Pedro tinha um objectivo e vivia para ele. Os pais sofriam por antecipação com a ausência do filho único mas não deixavam de admirar a sua tenacidade.
Mal acabou de cumprir o serviço militar, preparou-se para a partida. Reunida toda a documentação necessária e a carta de chamada do tio, nada mais o impedia de seguir o seu destino. Sentia uma enorme excitação, uma grande euforia, mas não conseguiu conter as lágrimas quando abraçou os pais na estação do comboio que o levaria a Lisboa, afim de embarcar no paquete Uige com destino a Luanda. Despediu-se da  mãe com o coração apertado ao ver as copiosas lágrimas que lhe corriam pelo rosto. O pai mantinha-se sereno mas ele sabia o quanto estava a sofrer. Antes de entrar para o comboio uniu-os num único abraço e disse com voz velada.
- Quando for rico, chamo-os para o pé de mim! - Nunca mais os viu.
 África correspondeu a todas as suas expectativas. Quando o Uije atracou no porto de Luanda, Pedro observou a multidão que se agitava no vaivém da descarga, que acenava alegremente para os recém-chegados amontoados no convés do navio e tentou vislumbrar o rosto bonacheirão do tio no meio de tantos rostos desconhecidos. Finalmente viu-o acenando-lhe com um lenço. Gritou-lhe qualquer coisa que se perdeu no meio da vozearia. Tinham colocado as escadas e Pedro furou como pode por entre os passageiros apressados. O tio abraçou-o efusivamente.
- Que tal a viagem, meu rapaz?
- Foi boa tio. O barco é uma maravilha. Nem mexe…
- Claro, claro! È um grande navio. E os teus pais como ficaram? Perguntou reticente.
- Um pouco tristes, coitados.
- É natural, ficaram um bocado sós…
- Se as coisas me correrem bem, mando-os vir. – Pedro tentava de uma certa forma apaziguar a sua consciência. Parecia estar ainda a vê-los, os rostos nublados de tristeza, a acenarem-lhe um último adeus.
-Os teus pais nunca se adaptariam a uma mudança na sua idade Pedro. Estão demasiado agarrados ao seu canto e nunca seriam felizes aqui. Não penses nisso.
- Esperaram que a bagagem de Pedro fosse descarregada. Não trouxera muita coisa, só a indispensável. Um pequeno baú que a mãe conservara ao longo dos anos e que trouxera de casa dos pais com o seu enxoval.
- Leva-o meu filho, ainda está bastante forte e o fecho é seguro.
Pedro preferira comprar uma mala nova para a viagem, mas o dinheiro era á conta e assim aceitou a oferta da mãe.
Ficou a observar o vaivém dos carregadores ajoujados ao peso de grandes fardos ou empurrando carrinhos carregados de malas. Notou que todos esses estivadores eram negros. Alguns automóveis luxuosos estavam estacionados aguardando os seus proprietários com os motoristas fardados ao volante. Pedro absorvia tudo isto como uma esponja, ávido como uma criança á entrada dum parque de diversões
- Ali está a minha mala.
O tio chamou com um assobio um carregador negro que passava.
- Sim, patrão?
- Traz aquela mala.
 Seguidos pelo rapaz, saíram da zona de desembarque. Aguardava-os um jipe Rand Rover onde o estivador arrumou a bagagem de Pedro recebendo em troca o pagamento que agradeceu com uma vénia.
- Bigada, patrão.
 Ao vê-lo afastar-se Pedro perguntou intrigado.
-  É seu empregado, tio?
- Não, é um carregador do cais. Porquê?
- Tratou-o por patrão, pensei que…
- É uma maneira de chamar os brancos – riu-se divertido com a pergunta de Pedro.
- Que estranho!
-Vais achar muita coisa estranha por aqui meu rapaz, mas depois habituas-te.
E habituou-se muito mais rapidamente do que ele e o tio tinham imaginado.  Pedro encontrou em África tudo aquilo que se ajustava ao seu espírito inquieto e ambicioso.
Deixou que os cheiros, os sons, as cores de África tomassem conta dele e o moldassem como uma mulher molda o seu amante. Um dia, muito depois da sua chegada, apreciando um pôr-do-sol da varanda da roça Santa Clara, sobre os morros negros do planalto da Gabela, murmurara como se fizesse uma promessa a si mesmo.
- Nunca mais deixo esta terra!
No início dos anos sessenta, Luanda já era uma bela cidade, moderna e cosmopolita.
Abundavam os bons restaurantes, cafés e pastelarias. A vida nocturna era intensa e os cabarés onde se exibiam especialmente grupos de bailarinas espanholas, muito populares na época, já traziam em desassossego muitas mães de família.
O clima muito quente a maior parte do ano, proporcionava ás luandenses uma forma de vestir muito própria, mais ousada e sensual que nos países europeus. Mesmo a sua maneira de ser era diferente, mais aberta e extrovertida.
Pedro admirava as belas mulheres que se cruzavam com ele ou que lhe eram apresentadas, mas como dissera em certa ocasião ao tio, não queria complicações.
Aos fins-de-semana gostava de ir a qualquer uma das muitas praias de águas transparentes e cálidas, que lhe faziam lembrar as da sua terra natal, o Algarve, também conhecido pelas maravilhosas praias. A diferença estava no calor que ali se fazia sentir a maior parte do ano, mantendo ideal a temperatura da água.
Através das primas, conheceu alguns jovens de ambos os sexos, alegres, simpáticos e divertidos que passaram a convidá-lo para ir dançar, á praia ou ao cinema.
Mas, embora como jovem que era, gostasse de se divertir, recusava a maior parte das vezes, porque essas saídas envolviam custos e ele não podia desperdiçar dinheiro.
Continuava a alimentar o sonho de mandar chamar os pais para junto dele, embora
tivesse noção de  que de todos os que tinha, esse era um dos mais difíceis de ver realizado.
Pedro era agora um homem muito atraente, com a tez moreno, cabelos escudos e um porte elegante que era nato aos homens da família. Já o pai era ainda um belo homem, apesar da idade e do peso do trabalho duro e o avô, a avaliar por algumas fotografias que vira na casa paterna, não deixava os seus créditos por mãos alheias.
 O tio trabalhava como guarda-livros no escritório duma grande empresa da cidade e atendendo a que precisavam dum ajudante pedira ao patrão para permitir que o sobrinho ocupasse esse lugar. Pedro era cumpridor e inteligente e com algumas bases que adquirira no escritório do primo, depressa o débito e o haver deixaram de ter segredos para ele. Rapidamente conquistou a amizade dos colegas e a confiança do patrão que começou a confiar-lhe tarefas mais complexas. Achando-o um rapaz inteligente, educado e de conversação fácil, começou a convidá-lo para o acompanhar em alguns encontros de negócios. Pedro começou, por assim dizer, a ter uma visão alargada desse mundo terrível e maravilhoso que é o mundo dos negócios, das trocas de influências e de poder.
Desde o dia da sua chegada que ficara a morar com o tio. Este possuía uma vivenda acolhedora na Vila Alice que repartia com a esposa Anabela e as duas filhas Paula e Gabriela. Paula estava noiva e de casamento marcado. Gabriela, a mais nova, estudava e era dona de uma alegria e entusiasmo contagiantes. Ambas tinham nascido em Angola. Comparando-as com as moças da sua terra, Pedro achava as primas muito mais desinibidas.
- O espaço, o clima e também o factor económico influenciam a maneira de ser das pessoas. – O tio era um bom conversador. Por vezes, á noite, depois do jantar, ficavam horas a conversar, enquanto bebericavam um Porto ou um wisky.
- O facto de estarmos mais longe do Salazar e da PIDE também ajuda – comentara certa noite – a pressão é menor.
Pedro nunca se preocupara muito com a política e o que sabia dela fora através das conversas entre os pais aos serões e a portas e janelas cerradas. Notícias sussurradas sobre conhecidos da terra ou dos arredores que desapareciam misteriosamente. O pai certo dia prevenira-o para não dar opiniões ou falar sobre politica com ninguém, mas esse era um assunto que não interessava ao rapaz. Aliás, nos últimos tempos, á parte o sonho de ir para Angola, pouco o interessava.
- Sabes primo, se beberes água do Bengo, nunca mais voltas – dissera-lhe certo dia Gabriela, estendida a seu lado na areia dourada da praia da Corimba .
- Água do Bengo?
- Sim, Sim! O Bengo  é um rio que passa  perto de Luanda. Perto, perto, não digo, mas, mais ou menos perto…
- Sim , e depois? – Pedro estava curioso.
- E depois, há uma lenda que diz que quem beber água do Bengo nunca mais vai embora.
- Não preciso beber dessa água para nunca mais deixar Angola. Vou ficar aqui para sempre.
O tio que estava sentado na sua cadeira a ler o jornal e ouvia a conversa esclareceu – todos os dias bebemos água do Bengo, se querem saber. È o rio que abastece Luanda, por isso nenhum de nós poderá deixar esta terra.
A família do tio rodeava-o de carinho, tentando duma certa maneira colmatar o afastamento da terra natal e dos pais e Pedro esforçava-se por corresponder na mesma moeda.
- Não te descuides em escrever aos teus pais. Devem estar sempre ansiosos por notícias tuas.
Embora não o fizesse regularmente, já escrevera aos pais uma longa carta, dando-lhes conta da viagem, da sua chegada a Luanda  e das primeiras impressões.
Pedro trabalhava com afinco e dedicação para continuar a merecer a confiança do senhor Cardoso, assim se chamava o patrão.
 Embora se tratasse duma sociedade com vários accionistas, era ele que estava á frente da empresa em Luanda. Possuíam diversas roças de café, entre elas a Santa Clara, nos arredores da cidade da Gabela. Rodeada de importantes roças, era o centro cultural e religioso do município do Amboim, capital da rica Província do Cuanza Sul.
A notícia que o Sr. Cardoso recebeu naquele dia soalheiro de Fevereiro, iria alterar significativamente a vida de Pedro. O Gerente da Santa Clara comunicava-lhe por telegrama urgente, o falecimento do já idoso guarda-livros da fazenda, que há um bom par de anos tinha a seu cargo toda a contabilidade da mesma, folhas de pessoal e controle de produção.
Pedia-lhe também que com a maior brevidade possível, tentasse arranjar um substituto, uma vez que o ajudante que apoiava o falecido colaborador, não estava á altura para assumir aquela responsabilidade por muito tempo.


CONTINUA