A vida cansara-se daquele corpo gasto pelos anos. Fugia-lhe hora a hora, minuto a minuto e aquele coração que guardara tento amor e ternura, batia cada vez mais debilmente.
A alva cabeça descansava sobre a almofada já sem forças para se erguer e as mãos, repousavam inertes, sobressaindo da alvura do lençol.
Clara, sentada á cabeceira da doente, tinha os olhos marejados de lágrimas, irreprimiveis. Sentia o coração partir-se-lhe dento do peito e uma mão de ferro parecia oprimir-lhe a garganta.
Toda a sua vida conhecera aquela mulher. Sôbre o seu peito chorara as primeiras lágrimas de menina mulher. Fora sempre a sua confidente, a sua melhor amiga e aquele rosto, que agora turvo pela proximidade do fim, fora o rosto mais presente da sua infância e adolescência. Aquele seio que agora arfava num supremo esforço, calara-lhe os primeiros vegidos e aquelas mãos tinham-na acariciado e vestido durante muitos anos. "Clarinha, olha o teu lanche para a escola", "Está frio, agasalha-te bem"
Quantos cuidados e desvelos vindos daquela mulher que agora morria ante os seus olhos.
A porta abriu-se e envolta numa onde de perfume, entrou a mãe. Muito bela e elegante. Os saltos dos seus sapatos, último modelo, ressoaram no soalho como uma afronta ao silêncio que ali reinava.
Clara levantou os olhos e encarou-a.
Os cabelos bem cuidados e penteados, o rosto primorosamente maquilhado, as unhas impecavelmente tratadas. Como vivera afastada dela, ocupada com os deveres sociais, os chás de beneficência, as festas, as saidas noturnas. Normalmente antes de sair, orgulhosa da sua beleza, aproximava-se dela para colher a sua opinião, pois a admiração que transparecia no olhar infantil, caia bem á sua vaidade de mulher mundana.
- A mamã está bonita, Clarinha?A criança levantava o rosto para ela e respondia o que ela desejava ouvir.
- Está linda, mamã.Linda!
A sua voz bem modulada despertou-a dos seus pensamentos.
- Não devias estar aqui, minha filha. Faz-te mal. Mandei chamar uma enfermeira. Deve estar a chegar.
Uma enfermeira, sim... Não se sentia com coragem para a ver morrer. Não queria ver cerrarem-se para sempre, aqueles olhos que a tinham olhado com tanto amor.
- Sim, eu já vou.
A porta fechou-se atrás da mãe. Estava de novo só. Debruçou-se sobre a muribunda e compôs-lhe o lençol sob as mãos. Alisou-lhe com ternura os cabelos grisalhos.
Duas lágrimas pesadas e ardentes, rolaram pelas faces de Clara e cairam sobre aquelas mãos que tanto tinham trabalhado para ela.
- Adeus minha mãe.
Virgínia Santana
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