segunda-feira, 29 de outubro de 2012

O FIEL AMIGO - IV


CONTINUAÇÃO

Quando deixou a irmã, uma ideia engendrada já há alguns dias não lhe saia da cabeça.
Sempre odiara matar fosse o que fosse, mas como a Margarida dissera para ir para a América tinha de juntar dinheiro e dinheiro ganhava-se na faina da baleia.
Resolveu ir falar com o Justino das baleias. Quem sabe não tinha um lugar para ele.
Encontrou-o a reparar um bote. Nem deu por ele, tão embrenhado estava na sua tarefa de aplicar betume nalgumas fendas abertas no casco dum bote.
- Bom dia, Sr. Justino.
- Bom dia. - respondeu sem interromper o trabalho.
- Precisava falar-lhe.
O Justino levantou levemente a cabeça.
- Há és tu? Fala rapaz, estou a ouvir.
- Queria trabalhar consigo... se tivesse um lugar.
Justino interrompeu a tarefa e levantando o rosto para o rapaz observou.
-  Na caça à baleia? - estranhou - Não és o filho do Manel da Júlia?
- Sou, sim senhor.
- Não trabalhas com ele?
- Trabalho sim senhor. Mas quero is p'rá América. Preciso juntar dinheiro p'ra passagem.
- Diacho! Não quero chatices c'o teu pai. Conheço-o dos bancos da escola e tu ainda és muito novo.
O rapaz fez um gesto de impaciência.
- Tou quase a ir p'ra tropa. Tenho que aproveitar até lá. Posso continuar a ajudar o meu pai.
- Também não aparecem baleias todos os dias... acautelou o Justino - está bem. Quando ouvires o pregão achega-te ao cais.
- Sim senhor. Pode contar comigo.
Não podia adiar uma conversa com o pai e resolveu que seria nesse mesmo dia á hora da janta.
Com todos á volta da mesa, a voz do Manel soou um pouco estridente.
- Hoje fui falar com o Justino das baleias. Vou trabalhar com ele.
A mãe ficou estática, os olhos surpresos e receosos, mas o pai continuou a mastigar calmamente. Quando falou a sua voz suou calma e controlada.
- Á sim? E quando decidiste isso?
- Hoje mesmo pai. - respondeu o rapaz mais á vontade, incentivado pela calma do progenitor - Preciso juntar algum dinheiro antes da tropa...
- E quem me ajuda c'oas terras e c'o gado?
- Eu continuo-o a ajudá-lo pai. Não há baleias todos os dias... de qualquer maneira quando for p'ra tropa o pai vai ter de se haver sozinho...
- Lá isso é verdade, lá isso é verdade ... reconheceu esmorecido.
A conversa ficou por aqui e a vida continuou no mornanço dos dias sempre iguais, de quando em quando quebrados pelo gritos dos vigias e uma saída ás baleias.
Manel não gostava desta atividade, mas arrecadava algum dinheiro e isso incentivava-o a continuar.
E havia a Rita! Conhecera-a  na festa da freguesia dedicada ao santo padroeiro.. Era uma bonita rapariga, com uns belos olhos cor de mel a iluminarem a tez alva, emoldurada por uns sedosos cabelos castanhos que lhe caiam numa cascata de sedas até meio das costas. O namorico começou logo nessa noite, durante o bailarico no terreiro, depois dumas tantas músicas em que dançaram juntos.
O namoro evoluíra e os pais dela conhecedores, tinham-se calado numa muda anuência, porque quem cala consente.
Mas o jovem estava decidido a seguir o caminho traçado e nada o faria desistir.
O serviço militar foi cumpri-lo  de boa vontade, ao contrário de muitos jovens que volviam céus e terra para dele se escaparem.Como "o que tem de ser tem muita força", foi até com um certo entusiasmo que enfrentou esta etapa da sua vida.
Foi destacado para fazer a recruta em Angra do Heroismo e pela primeira vez saiu da sua ilha, da sombra acolhedora da montanha. As suas viagens até ai resumiam-se a algumas idas á Horta e uma vez a S.Jorge, com a mãe para visitar uma tia que lá morava. Quando acabou a recruta foi colocado no quartel da Horta e ai permaneceu até acabar o serviço militar.. Neste período fora a casa em algumas folgas e numa dessas ocasiões dissera ao pai que iria tentar a América quando se visse livre da tropa. Fora uma conversa um tanto difícil pois o pai não aceitara de bom grado a notícia e muito menos Rita a quem entre um beijo e outro trocados á escapadela contara o seu projecto.
- E eu? Fico p'raqui sozinha! Nunca mais te vejo...
Ele tentara acalmá-la. Gostava dela mas nada o faria desistir do seu sonho.
- Qual nada... estás parva. Depois casamos p'ro coração e vais ter comigo.
Ela alinhara a cabeça no seu peito.
- Prometes que não te esqueces de mim?
- Claro que não, rapariga! Claro que não...
Sentia-se agora mais seguro de si mesmo, mais independente.
Pediu à Margarida a direção do tio que tinha emigrado para os "states" há muitos anos, ainda muito jovem e escreveu-lhe uma carta, confiando-lhe os seus anseios e pedindo-lhe que o ajudasse a concretizá-los mandando-lhe uma carta de chamada.

CONTINUA






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