terça-feira, 30 de outubro de 2012

CAMINHOS VI


CONTINUAÇÃO


Acabou de arrumar o que tinha trazido e colocou a mala no fundo do guarda-fatos.
-Então já conheceu a Alma? – Jonny estava á entrada do quarto. Tinha um cigarro entre os dedos, mas conservava-o apagado. Bateu com ele por diversas vezes na palma da mão, como se estivesse nervoso.
- Sim, conheci. Porquê? – Pedro teve a sensação de que ele tinha estado a espreitá-lo.
- Porque a vi sair daqui. – Meteu o cigarro entre os lábios e tentou acendê-lo, clicando o isqueiro várias vezes, sem resultado.
- Há sim! Veio colocar umas flores naquela jarra. Um gesto simpático.
Pedro dirigiu-se á porta, segurando o puxador, numa inequívoca alusão a que desejava pôr termo á conversa.
O outro não insistiu.
- Vemo-nos ao jantar. – Disse á guisa de despedida.
Estava desejoso de conhecer as suas tarefas e começar a trabalhar.
Atravessou o terreiro, passou por debaixo dum frondoso imbondeiro e caminhou ao longo da linha que limitava a zona dos cafezais. Uma espécie de cantilena familiar chegou-lhe aos ouvidos. Eram vozes de crianças a dizer a tabuada, naquela ladainha ritmada que parecia ser utilizada em todas as escolas do mundo. Provinha duma espécie de cobertura de madeira, assente em fortes barrotes, situado a pouca distância do lugar onde se encontrava. Aproximou-se curioso. Uma dúzia de crianças sentadas em bancos corridos, olhava atentamente para a tabuada escrita a giz no quadro negro, repetindo cadenciadamente os números indicados pelo ponteiro da professora. Ao vê-lo Sílvia interrompeu a aula.
- Podem ir meninos.
As crianças dispersaram-se em poucos segundos, soltando gritos de alegria.
-Não sabia que era professora.
- É verdade. – Arrumou os paus de giz e o ponteiro. Estava linda, com os cabelos loiros soltos sobre os ombros. Vestia uma blusinha de alças e uns calções brancos que deixavam a descoberto as suas pernas bem torneadas. – Pensei abrir um colégio particular na Gabela, para os filhos dos fazendeiros ricos e acabei a dar aulas num coberto de madeira para uma dúzia de meninos. – Então que faz por aqui?
- Dar uma volta por ai. Quer vir? - Pedro arrependeu-se logo do convite. Conhecia-a apenas desde aquela manhã e não queria parecer atrevido. Mas Sílvia anuiu com a maior simplicidade.
- Vamos.
- A Sílvia tem de servir de guia. Não conheço nada disto.
 Começaram a caminhar lado a lado. A jovem parecia ter um percurso definido. Começou a subir o morro, utilizando uma estreita picada que dava acesso á sanzala.
- Já esteve nalguma sanzala? Perguntou sem virar a cabeça ou abrandar o passo.
- Não. Na verdade nunca. – Pedro estava intrigado com a atitude de Sílvia.
Quando atingiram as primeiras cubatas estavam ofegantes e o suor escorria-lhes pelo rosto. As crianças brincavam na rua, livremente, muitas delas completamente nuas por causa do calor. Os bebés eram transportados nas costas das mães, seguros por uma faixa de pano larga que lhes cingia os rins, formando uma espécie de bolsa, que amarrava á frente, sob os seios.
Sílvia parou em frente de uma cubata e fez sinal a Pedro para esperar, antes de entrar. A voz da rapariga era suave e terna ao falar com alguém que se encontrava no interior da habitação. De súbito reapareceu á porta da cubata e chamou o rapaz.
- Pode entrar.
Pedro teria preferido esperar cá fora mas não quis ser indelicado. A cubata era circular e o chão de terra batida. Encontrava-se completamente desprovida de mobília, á excepção de uma esteira onde estava deitada uma mulher muito idosa.
Sílvia debruçou-se sobre ela e acariciou-lhe os cabelos brancos e encrespados com carinho.
- Mami, sou eu a Sílvia.
- Minina! – A mulher segurou a mão da jovem e apertou-a contra o rosto enrugado como um pergaminho. – Minina bonita!
Sílvia meteu a mão no bolso dos calções e tirou um chocolate. Retirou a prata protectora e chegou a guloseima á boca da idosa. Ajeitou carinhosamente a manta que cobria a mulher.
- Vamos Pedro. – Endireitou-se e saiu apressadamente da cubata, como se repentinamente se sentisse sufocar dentro daquele espaço exíguo.
Pedro estava curioso, mas não se atrevia a fazer qualquer pergunta. Prosseguiram o passeio, descendo lado a lado a picada que há pouco tinham subido. Sílvia quebrou o silêncio.
- Aquela mulher, foi a minha ama de leite. Foi ela que ajudou a minha mãe a criar-me.
Mas está muito velha. Vai morrer.
Havia um fatalismo resignado na voz de Sílvia que surpreendeu Pedro. Naquela ocasião pareceu-lhe uma pessoa mais velha, mais madura.
- Então a Sílvia nasceu aqui na fazenda?
- Nasci aqui sim. Mas não nasci debaixo dum pé de café… -  riu-se da sua própria graça e como uma criança despreocupada, deu uma corrida até ficar á sombra dum enorme imbomdeiro.
- Brinquei muito debaixo desta árvore. A Mami punha aqui uma manta e eu ficava a despir e a vestir as minhas bonecas, enquanto ela fazia outras coisas. Tínhamos um macaquinho, um sagui que vinha fazer-me companhia e brincava comigo.
- Crescer numa roça deve ser maravilhoso. - Comentou Pedro.
- É, é maravilhoso, sim. - Impulsivamente começou a contar histórias da sua infância, onde não faltavam pequenas aventuras, povoadas de todo o tipo de bicharada. Nunca mais se referiu á mãe e Pedro pensou que o fazia propositadamente.
Começava a entardecer e o chilrear da passarada intensificava-se. As cores fundiam-se num mesmo tom suave, mesclado de sombras.
- Então onde estudou?
- Na Gabela até ao sétimo ano, depois em Luanda pata tirar o magistério primário.
- Enquanto na Gabela ia e vinha todos os dias? Ainda é uma boa distância.
- Não. Só vinha aos fins-de-semana. Fui para um colégio interno.
 Miguel aproximou-se sorridente. Rodeou carinhosamente os ombros da filha com um braço.
- Não estão com fome? Ainda falta muito tempo para o jantar. Vou á cantina comer qualquer coisa. Querem vir?
- Eu não papá. Vou para o meu quarto ler um pouco.
- Venha você, Pedro. Aproveitamos para trocar algumas impressões.
A cantina funcionava, como o gerente já lhe havia dito, por cima do refeitório. Uma das paredes da grande sala, estava coberta por prateleiras repletas de garrafas e copos. Havia também um balcão com uma máquina de café e num pequeno expositor um prato com ovos cozidos, pão, queijo e diversos enchidos. Algumas mesas e cadeiras completavam o mobiliário. Um relógio de cuco parecia um pouco desajustado no ambiente, mas trouxe a Pedro recordações de infância.
Miguel foi buscar duas cervejas geladas.
- Beba, meu caro. O que nos salva aqui por estas bandas é uma cerveja geladinha e uma boa sesta á sombra dum imbondeiro.
O empregado da cantina trouxe um pratinho com amendoins torrados que deixou na mesa, afastando-se com uma leve referência.
- Então o que acha disto?
- Do pouco que vi estou a gostar. Aliás ainda não vi muito. Mas penso que vou adaptar-me bem.
- Também penso que sim. O Cardoso tem muita consideração por si. Acha que tem capacidade para o lugar.
- Fico grato pela consideração. Penso que o meu trabalho aqui será um pouco diferente do que tinha em Luanda. Pelo menos mais abrangente, mas talvez mais interessante...
- Acredito que sim. Ainda não tem noção da vastidão da fazenda, da sua beleza. Vai ficar admirado.
- Alguns homens entraram na cantina, conversando animadamente. Todos vestiam roupa clara, de tecido leve. Ao verem Miguel, baixaram o tom de voz e cumprimentaram com simpatia. Miguel fez sinal a um deles, um homem alto de compleição robusta.
-Samuel, pode chegar aqui um instante.
- Só um momento, Sr. Miguel. Tenho a garganta seca…
- O homem trouxe uma cerveja e puxando uma cadeira, sentou-se á nossa mesa.
- Samuel, apresento-lhe o Sr. Pedro Freitas, o novo guarda-livros.
Samuel estendeu a mão a Pedro com um sorriso aberto e acolhedor.
- Vamos trabalhar juntos. Já sabia?
Pedro olhou para Miguel com ar interrogativo, enquanto correspondia ao cumprimento, forte e cordial.
- O Samuel vai ser o seu ajudante. Vai trabalhar consigo directamente. – Explicou Miguel – Não tinha tido ocasião de lhe dizer.
- Quando chegou? Perguntou Samuel mastigando um amendoim.
- Hoje de manhã.
- Amanhã vou mostrar-lhe a fazenda e inteirá-lo do serviço. Gostaria que nos acompanhasse.
- Com certeza, Sr. Miguel. A que horas?
- Bem cedo para fugirmos um pouco ao calor. Sete horas, está bem para si Pedro?
- Está óptimo!
- Então amanhã depois do mata-bicho.
- Combinado. -. Samuel levantou-se e despedindo-se com um aceno e foi juntar-se aos outros empregados, que se
que se tinham sentado a uma mesa a conversar animadamente.
- Vai dar-se bem com ele. È bom tipo, cumpridor e zeloso.
Estava-se na hora do jantar e desceu com o gerente para a sala, que ainda se encontrava meia vazia. Jonny já estava sentado a petiscar pão com manteiga e Jesus que não vira mais desde o almoço também já ocupara a outra mesa. Sílvia ainda não chegara, mas contive o ímpeto de perguntar por ela.
À parte a ausência de Sílvia, o repasto decorreu normalmente. Miguel a Jonny trocaram algumas impressões sobre as suas actividades do dia e teceram alguns comentários sobre a refeição.
-Certamente vai estranhar a sua primeira noite aqui – comentou Jonny a certa altura.
- Estranhar porquê?
- As noites no mato têm ruídos inesperados e diferentes, para quem não está habituado. É a primeira vez que dorme numa roça?
- Sim, mas nasci e fui criado na serra…
Jonny soltou uma gargalhada quase ofensiva. Miguel olhou-o com ar desaprovador.
- Afinal o que tem tanta graça?
- Ora, ora! O nosso amigo Pedro quer comparar os ruídos da selva, com os da serra, lá na santa terrinha… Já ouviu o rugido do leão a meio da noite, o gargalhar da hiena ou o tossir da onça? Não imagina o que é, para quem não está habituado. È de pôr os cabelos em pé…
Pedro tinha vontade de lhe dar uma resposta á altura da sua ironia, mas limitou-se a dizer.
- Espero sobreviver até me habituar.
- O Jonny  é muito exagerado. Gosta muito de assustar os recem chegados… comentou Miguel, talvez com a intenção de suavizar a atitude do ajudante.

CONTINUA

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