CONTINUAÇÃO
Estavam sentados na modesta sala de visitas, as cadeiras de palhinha enfeitadas com almofadas tricotadas pela mãe aos serões. A um canto, uma mesinha coberta com uma alva toalha rendada, ostentava o Menino Jesus, de pé, com o seu vestidinho muito lavado. Fora-lhes oferecido como prenda de casamento.
A mãe levantara-se e fora refugiar-se na cozinha, certamente para não lhe verem as lágrimas. O pai ficara calado e quando falou foi no tom calmo que o caracterizava.
- O Pedro ainda é muito jovem para ter a certeza do que quer, mas se quando fizer a tropa quiser ir para Angola e estiveres disposto a ajudá-lo, podes chamá-lo.
Pedro ficou boquiaberto com as palavras do pai. A admiração e amor que sentiu por ele naquele momento fizeram-no levantar e abraçar-se ao pescoço dele. – Só quero que sejas feliz, meu filho – concluiu com a voz embargada. Só muitos anos mais tarde é que Pedro avaliou a dimensão do sacrifício que o pai tinha feito por ele..
Naquela altura para ir para Angola ou Moçambique, era necessária uma carta de chamada de algum familiar próximo. Esta lei Salazarista tinha a finalidade de controlar o fluxo de portugueses para as colónias de África, abandonando e despovoando as terras de origem. Quando o tio se despediu ficou assente que mandaria uma carta de chamada para Pedro quando este se visse livre do serviço militar, se o seu desejo de ir para Angola se mantivesse.
Manteve-se e acompanhou-o pelos dois anos seguintes como companheira inseparável e constante. Pedro devorava todas as notícias, livros ou revistas que se referissem a África. Completou o curso geral dos liceus com dezassete anos com boa classificação, mas achou que não valia a pena continuar. Necessitava aprender um ofício prático para poder trabalhar em Angola e ganhar dinheiro e assim foi como aprendiz de contabilidade, para o escritório dum primo em Portimão. O que ele lhe pagava era pouco, mas economizado tostão a tostão chegaria para pagar a passagem para Luanda.
Pedro tinha um objectivo e vivia para ele. Os pais sofriam por antecipação com a ausência do filho único mas não deixavam de admirar a sua tenacidade.
Mal acabou de cumprir o serviço militar, preparou-se para a partida. Reunida toda a documentação necessária e a carta de chamada do tio, nada mais o impedia de seguir o seu destino. Sentia uma enorme excitação, uma grande euforia, mas não conseguiu conter as lágrimas quando abraçou os pais na estação do comboio que o levaria a Lisboa, afim de embarcar no paquete Uige com destino a Luanda. Despediu-se da mãe com o coração apertado ao ver as copiosas lágrimas que lhe corriam pelo rosto. O pai mantinha-se sereno mas ele sabia o quanto estava a sofrer. Antes de entrar para o comboio uniu-os num único abraço e disse com voz velada.
- Quando for rico, chamo-os para o pé de mim! - Nunca mais os viu.
África correspondeu a todas as suas expectativas. Quando o Uije atracou no porto de Luanda, Pedro observou a multidão que se agitava no vaivém da descarga, que acenava alegremente para os recém-chegados amontoados no convés do navio e tentou vislumbrar o rosto bonacheirão do tio no meio de tantos rostos desconhecidos. Finalmente viu-o acenando-lhe com um lenço. Gritou-lhe qualquer coisa que se perdeu no meio da vozearia. Tinham colocado as escadas e Pedro furou como pode por entre os passageiros apressados. O tio abraçou-o efusivamente.
- Que tal a viagem, meu rapaz?
- Foi boa tio. O barco é uma maravilha. Nem mexe…
- Claro, claro! È um grande navio. E os teus pais como ficaram? Perguntou reticente.
- Um pouco tristes, coitados.
- É natural, ficaram um bocado sós…
- Se as coisas me correrem bem, mando-os vir. – Pedro tentava de uma certa forma apaziguar a sua consciência. Parecia estar ainda a vê-los, os rostos nublados de tristeza, a acenarem-lhe um último adeus.
-Os teus pais nunca se adaptariam a uma mudança na sua idade Pedro. Estão demasiado agarrados ao seu canto e nunca seriam felizes aqui. Não penses nisso.
- Esperaram que a bagagem de Pedro fosse descarregada. Não trouxera muita coisa, só a indispensável. Um pequeno baú que a mãe conservara ao longo dos anos e que trouxera de casa dos pais com o seu enxoval.
- Leva-o meu filho, ainda está bastante forte e o fecho é seguro.
Pedro preferira comprar uma mala nova para a viagem, mas o dinheiro era á conta e assim aceitou a oferta da mãe.
Ficou a observar o vaivém dos carregadores ajoujados ao peso de grandes fardos ou empurrando carrinhos carregados de malas. Notou que todos esses estivadores eram negros. Alguns automóveis luxuosos estavam estacionados aguardando os seus proprietários com os motoristas fardados ao volante. Pedro absorvia tudo isto como uma esponja, ávido como uma criança á entrada dum parque de diversões
- Ali está a minha mala.
O tio chamou com um assobio um carregador negro que passava.
- Sim, patrão?
- Traz aquela mala.
- Bigada, patrão.
Ao vê-lo afastar-se Pedro perguntou intrigado.
- É seu empregado, tio?
- Não, é um carregador do cais. Porquê?
- Tratou-o por patrão, pensei que…
- É uma maneira de chamar os brancos – riu-se divertido com a pergunta de Pedro.
- Que estranho!
-Vais achar muita coisa estranha por aqui meu rapaz, mas depois habituas-te.
E habituou-se muito mais rapidamente do que ele e o tio tinham imaginado. Pedro encontrou em África tudo aquilo que se ajustava ao seu espírito inquieto e ambicioso.
Deixou que os cheiros, os sons, as cores de África tomassem conta dele e o moldassem como uma mulher molda o seu amante. Um dia, muito depois da sua chegada, apreciando um pôr-do-sol da varanda da roça Santa Clara, sobre os morros negros do planalto da Gabela, murmurara como se fizesse uma promessa a si mesmo.
- Nunca mais deixo esta terra!
No início dos anos sessenta, Luanda já era uma bela cidade, moderna e cosmopolita.
Abundavam os bons restaurantes, cafés e pastelarias. A vida nocturna era intensa e os cabarés onde se exibiam especialmente grupos de bailarinas espanholas, muito populares na época, já traziam em desassossego muitas mães de família.
O clima muito quente a maior parte do ano, proporcionava ás luandenses uma forma de vestir muito própria, mais ousada e sensual que nos países europeus. Mesmo a sua maneira de ser era diferente, mais aberta e extrovertida.
Pedro admirava as belas mulheres que se cruzavam com ele ou que lhe eram apresentadas, mas como dissera em certa ocasião ao tio, não queria complicações.
Aos fins-de-semana gostava de ir a qualquer uma das muitas praias de águas transparentes e cálidas, que lhe faziam lembrar as da sua terra natal, o Algarve, também conhecido pelas maravilhosas praias. A diferença estava no calor que ali se fazia sentir a maior parte do ano, mantendo ideal a temperatura da água.
Através das primas, conheceu alguns jovens de ambos os sexos, alegres, simpáticos e divertidos que passaram a convidá-lo para ir dançar, á praia ou ao cinema.
Mas, embora como jovem que era, gostasse de se divertir, recusava a maior parte das vezes, porque essas saídas envolviam custos e ele não podia desperdiçar dinheiro.
Continuava a alimentar o sonho de mandar chamar os pais para junto dele, embora
tivesse noção de que de todos os que tinha, esse era um dos mais difíceis de ver realizado.
Pedro era agora um homem muito atraente, com a tez moreno, cabelos escudos e um porte elegante que era nato aos homens da família. Já o pai era ainda um belo homem, apesar da idade e do peso do trabalho duro e o avô, a avaliar por algumas fotografias que vira na casa paterna, não deixava os seus créditos por mãos alheias.
O tio trabalhava como guarda-livros no escritório duma grande empresa da cidade e atendendo a que precisavam dum ajudante pedira ao patrão para permitir que o sobrinho ocupasse esse lugar. Pedro era cumpridor e inteligente e com algumas bases que adquirira no escritório do primo, depressa o débito e o haver deixaram de ter segredos para ele. Rapidamente conquistou a amizade dos colegas e a confiança do patrão que começou a confiar-lhe tarefas mais complexas. Achando-o um rapaz inteligente, educado e de conversação fácil, começou a convidá-lo para o acompanhar em alguns encontros de negócios. Pedro começou, por assim dizer, a ter uma visão alargada desse mundo terrível e maravilhoso que é o mundo dos negócios, das trocas de influências e de poder.
Desde o dia da sua chegada que ficara a morar com o tio. Este possuía uma vivenda acolhedora na Vila Alice que repartia com a esposa Anabela e as duas filhas Paula e Gabriela. Paula estava noiva e de casamento marcado. Gabriela, a mais nova, estudava e era dona de uma alegria e entusiasmo contagiantes. Ambas tinham nascido em Angola. Comparando-as com as moças da sua terra, Pedro achava as primas muito mais desinibidas.
- O espaço, o clima e também o factor económico influenciam a maneira de ser das pessoas. – O tio era um bom conversador. Por vezes, á noite, depois do jantar, ficavam horas a conversar, enquanto bebericavam um Porto ou um wisky.
- O facto de estarmos mais longe do Salazar e da PIDE também ajuda – comentara certa noite – a pressão é menor.
Pedro nunca se preocupara muito com a política e o que sabia dela fora através das conversas entre os pais aos serões e a portas e janelas cerradas. Notícias sussurradas sobre conhecidos da terra ou dos arredores que desapareciam misteriosamente. O pai certo dia prevenira-o para não dar opiniões ou falar sobre politica com ninguém, mas esse era um assunto que não interessava ao rapaz. Aliás, nos últimos tempos, á parte o sonho de ir para Angola, pouco o interessava.
- Sabes primo, se beberes água do Bengo, nunca mais voltas – dissera-lhe certo dia Gabriela, estendida a seu lado na areia dourada da praia da Corimba .
- Água do Bengo?
- Sim, Sim! O Bengo é um rio que passa perto de Luanda. Perto, perto, não digo, mas, mais ou menos perto…
- Sim , e depois? – Pedro estava curioso.
- E depois, há uma lenda que diz que quem beber água do Bengo nunca mais vai embora.
- Não preciso beber dessa água para nunca mais deixar Angola. Vou ficar aqui para sempre.
O tio que estava sentado na sua cadeira a ler o jornal e ouvia a conversa esclareceu – todos os dias bebemos água do Bengo, se querem saber. È o rio que abastece Luanda, por isso nenhum de nós poderá deixar esta terra.
A família do tio rodeava-o de carinho, tentando duma certa maneira colmatar o afastamento da terra natal e dos pais e Pedro esforçava-se por corresponder na mesma moeda.
- Não te descuides em escrever aos teus pais. Devem estar sempre ansiosos por notícias tuas.
Embora não o fizesse regularmente, já escrevera aos pais uma longa carta, dando-lhes conta da viagem, da sua chegada a Luanda e das primeiras impressões.
Pedro trabalhava com afinco e dedicação para continuar a merecer a confiança do senhor Cardoso, assim se chamava o patrão.
Embora se tratasse duma sociedade com vários accionistas, era ele que estava á frente da empresa em Luanda. Possuíam diversas roças de café, entre elas a Santa Clara, nos arredores da cidade da Gabela. Rodeada de importantes roças, era o centro cultural e religioso do município do Amboim, capital da rica Província do Cuanza Sul.
A notícia que o Sr. Cardoso recebeu naquele dia soalheiro de Fevereiro, iria alterar significativamente a vida de Pedro. O Gerente da Santa Clara comunicava-lhe por telegrama urgente, o falecimento do já idoso guarda-livros da fazenda, que há um bom par de anos tinha a seu cargo toda a contabilidade da mesma, folhas de pessoal e controle de produção.
Pedia-lhe também que com a maior brevidade possível, tentasse arranjar um substituto, uma vez que o ajudante que apoiava o falecido colaborador, não estava á altura para assumir aquela responsabilidade por muito tempo.
CONTINUA
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