quarta-feira, 31 de outubro de 2012

CAMINHOS VII


CONTINUAÇÃO
subiram ao andar superior, certamente com a intenção de entreter o tempo até há hora de dormir, jogando ou conversando, como lhe Terminada a refeição, alguns comensais havia dito Miguel.
- Vou andando. – Despediu-se Miguel – Parecia cansado.
- Eu ainda fico mais um pouco. Não quer vir Pedro – o tom era agora mais cordial.
-Não! Também me despeço. Boa Noite.
Atravessou o terreiro, bastante escuro àquela hora, apenas iluminado aqui e ali pela claridade que vinha das casas, através das janelas. Da sanzala, chegava-lhe aos ouvidos uma melopeia dolente e morna, como um gemido. Fogueiras dispersas iluminavam a noite e algumas figuras humanas rodeavam-nas, parecendo aquela distância envoltas pelo fogo, como se elas próprias estivessem a arder.
Jesus encontrava-se no alpendre a fumar um cigarro. A ponta incandescente brilhava na noite como um pirilampo.
Hoje não há luar. – Comentou quando Pedro se aproximou.
- Não, não há luar. Boa noite Cristo. Até amanhã.
- Até amanhã. Há, esquecia-me de o avisar. Não se esqueça de sacudir as botas de manhã, antes de as calçar.
- Então porquê?
- Por causa das cobras.

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Escolheu um dos livros que tinha trazido de Luanda e estendeu-se na cama disposto a ler um pouco. Era um livro do Leon Uris sobre a segunda guerra mundial. O título era Os Desenraizados e contava a história de dois jovens judeus, fugitivos do regime de Hitler. O gosto pelos livros viera-lhe da mãe. Apesar dos muitos afazeres, sempre tinha um livro na mesa-de-cabeceira. Normalmente eram livros religiosos, vidas de santos ou de sábios e também de reis e rainhas.
Leu durante algum tempo, mantendo a luz da mesa-de-cabeceira acesa. Acabou por apagá-la e adormecer deitado por cima da roupa.
Acordou sobressaltado, com a sensação de que havia alguém no quarto. Estendeu o braço e acendeu a luz do candeeiro. O quarto estava vazio, mas pereceu-lhe ouvir um leve roçagar, como se pés descalços se afastassem apressadamente. Levantou-se e aproximou-se da porta para abri-la. Estava só encostada. Tinha quase a certeza que a fechara com o trinco. Encolheu os ombros e voltou para a cama. Estava a deixar sugestionar-se pelo ambiente e pelas palavras de Jonny e Jesus.
Quando acordou, a claridade do dia filtrava-se através das persianas, desenhando no chão do quarto riscas de luz e sombra. Foi tomar um duche. A porta do quarto de Jesus estava fechada. Achava o homem um tanto misterioso, embora simpatizasse com ele. Ainda não conseguira saber qual o seu trabalho, mas isso também não era da sua conta. Dirigiu-se ao refeitório e viu que o jeep de Miguel já se encontrava estacionado á porta. O gerente e Samuel tomavam um pequeno-almoço substancial de café, torradas e ovos mexidos. A sala estava repleta e todos pareciam comer com muito apetite. Pedro cumprimentou e sentou-se ao lado dos dois homens. O empregado trouxe mais torradas e ovos mexidos, mas Pedro optou só pelas torradas com uma chávena de café, que tinha um aroma delicioso.
- Então, dormiu bem?
- Muito bem, obrigada. – Absteve-se de contar o que tinha acontecido, porque para além de temer cair no ridículo, nem tinha bem a certeza se fora ou não simples sugestão.
A fazenda era muito mais vasta do que parecera a Pedro do cimo do morro. Só a zona dos cafezais cobria uma área aproximada de noventa e cinco hectares, fora o centro habitacional, a horta, o pomar, armazéns e terreiros de secagem.
As picadas estavam limpas de capim e circulava-se com facilidade. Eram suficientemente largas para darem passagem ás camionetas que carregavam o café trazido ás costas em grandes cestos, pelos trabalhadores.
Pedro via tudo aquilo com uma grande curiosidade. Era a África no seu âmago, um tanto selvagem e rude dos livros de aventuras que ele tanto gostara de ler na sua juventude.
Miguel mostrava-lhe tudo com o entusiasmo da paixão. Pedro sentia na ênfase que punha nas suas explicações como tudo aquilo fazia parte intrínseca da sua vida.
- África é como uma bela mulher, misteriosa, selvagem e imprevisível. Capaz de despertar as maiores paixões. Esta terra é a seguir á minha filha, o maior amor da minha vida.
- Então nasceu aqui?
- Sim, nasci aqui, nesta roça. Nessa altura não passava de um pequeno amontoado de casas, com uma centena de pés de café e alguns palmares.
- Palmares?
- Plantação de palmeiras, donde se extrai o óleo de palma. É importante na alimentação dos indígenas e não só. É muito utilizado em gastronomia e um dos produtos mais procurados pela Europa e Estados Unidos para o fabrico de cosméticos.
- A fazenda hoje já não tem palmares?
- Não em quantidade significativa. Mais para norte temos um pequeno palmar, cujo óleo extraído é para o consumo da roça.
Miguel deteve o jee e convidou Pedro.
- Quer dar uma volta a pé?
-Certamente. Ia pedir-lhe isso.
 Os três homens apearam-se e entraram no cafezal.
Vistos de perto, os pés de café eram lindos. Arbusto relativamente baixos, protegidos por árvores de grande porte.. Miguel explicou-lhe que se destinavam a proteger os pés de café e criar a humidade necessária ao amadurecimento dos frutos.
Os pequenos bagos vermelhos, formavam cachos que eram realçados pelo verde intenso da folhagem. Assim de repente, pareciam os ramos de azevinho com que a mãe enfeitava a casa por altura do natal. A plantação era feita em corredores bastante simétricos, embora estreitos, de modo que com o crescimento, a folhagem acabava por formar um teto baixo.
Como o sol ali não se fazia sentir com intensidade, tirara o chapéu da cabeça e trazia-o na mão. Nunca fora muito adepto de chapéus, mas o tio insistira para que trouxesse um.
- Ninguém anda na roça sem chapéu, meu rapaz. Ficavas com os miolos a arder.
- Ponha o chapéu na cabeça, Pedro. – Pediu Miguel que ia á frente e que ao olhar para traz reparara naquele facto. – Não o deve tirar.
- Mas não está sol aqui – contestou embora obedecendo.
- Siga os concelhos dum homem experiente – ironizou o gerente.
Veio-lhe á memória a frase de Jesus – “ a vida no mato não é fácil. A cada passo espreita o perigo”.
Os negros acenavam á passagem dos homens e cumprimentavam rindo, mostrando os dentes alvos.
- Bom dia, Siô!
- Como vê, meu amigo, isto é a nossa riqueza. O café, que é a nossa maior fonte de exportação, como aliás deve saber, uma vez que toda a documentação passa pela sede.
- Para além do algodão que também cultivam em grande quantidade, mais para norte?
Miguel parou, e tirando o chapéu, limpou o suor o que lhe escorria pelo rosto moreno.
- Vejo que está bem informado. Temos uma fazenda de algodão perto do Quibaxe, a Ana Rita. Numa primeira oportunidade damos lá uma saltada. O gerente é meu amigo pessoal e uma óptima pessoa.
De súbito um dos trabalhadores que colhia café ali perto, soltou um grito gutural e aflitivo.
- Cuidado, Siô, cuidado!
De um salto derrubou Miguel, que ficou estendido no chão, absolutamente siderado.
- Cobra , cobra – gesticulava o homem apontando para o pé de café, sob o qual Miguel se encontrava.
- Olhei e vi uma cobra verde, enleada num dos ramos superiores do cafezeiro. A sua língua bífida parecia seriamente ameaçadora. Deslizando desapareceu por entre as folhas, suavemente, sem um ruído.
Mau grado seu, Pedro sentiu um arrepio percorrer-lhe a espinha.
Miguel levantou-se sacudindo as calças, mal refeito de susto
- Obrigada rapaz.
- De nada siô. Cobra não presta.
- Amanhã vai ter comigo á roça, quando acabares o trabalho.
- Si siô.
 - Malditas cobras. Andam por todo o lado. São uma praga.
- Esta era venenosa – perguntou Pedro quase a medo.
- Bastante. Se me tivesse picado necessitaria de antídoto. – Parecia agora totalmente refeito.
- Vamos – convidou como se nada tivesse acontecido. Colocou o chapéu na cabeça. – Faz o que eu digo mas não faças o que eu faço – gracejou.
Percorremos uma boa parte do cafezal e depois Miguel foi mostrar-me o pomar e a horta.
- Só temos árvores tropicais, uma vez que as espécies europeias não aguentam o calor, embora em certas zonas como Sá da Bandeira tenham feito algumas experiências com sucesso. Temos de tudo um pouco. Banana, mamão, manga, abacate, goiaba, abacaxi, laranja, enfim, uma grande salada de fruta.
Quando regressámos era quase hora do almoço.
- Logo á tarde, depois da minha sesta, vou mostrar-lhe o escritório, os armazães  e dar-lhe conhecimento do seu trabalho.
Sílvia já estava sentada á mesa muito bem disposta e alegre.
- Então, Pedro, gostou da fazenda? – Perguntou enquanto barrava uma fatia de pão com manteiga.
- Gostei, gostei muito. Amanhã espero começar a trabalhar em pleno.
Jonny Cárter chegou a meio da refeição, resmungou um cumprimento e manteve-se calado durante quase toda a refeição.
Depois do almoço e enquanto esperava que Miguel dormisse a sua sesta, hábito de que não abdicava por nada, dirigiu-se ao seu alojamento no intuito de ler um pouco.
A cama tinha sido feita, mas como no dia anterior encontrava-se aberta, com o lençol dobrado sobre a colcha. Pousada sobre a almofada tinham deixado uma rosa escarlate.
Passaram o resto da tarde a ver os armazães, os terreiros de secagem do café e por ultimo a administração.
Samuel já se encontrava a trabalhar numa das secretárias. Na outra, que devia ter pertencido ao falecido guarda-livros, os papeis começavam a amontoar-se.
 Miguel não perdeu muito tempo com Pedro no escritório, limitando-se a dar-lhe algumas indicações sumárias. Via que o rapaz era esperto e que aquele serviço não era de todo novo para ele. Aproveitou o ensejo de Pedro estar a consultar os livros da contabilidade e deixou-os com a desculpa de que tinha um assunto urgente para tratar.
Não foi preciso muito tempo para Pedro se inteirar do seu serviço, que englobava uma série de funções para além dos livros de contabilidade, das folhas de pessoal e do economato. As compras e aprovisionamento de géneros para o consumo da roça e a cantina ficavam a seu cargo.

CONTINUA

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