quinta-feira, 25 de outubro de 2012

CAMINHOS - IV



Quase que instantaneamente se lembrou de Pedro para o efeito e como não era homem para adiar decisões, mandou a sua secretária chamá-lo imediatamente. Pouco depois o rapaz entrava no seu gabinete.
- Sente-se, Pedro. – Convidou com um sorriso amistoso.
O rapaz obedeceu algo curioso. Na realidade o patrão já o chamara por diversas vezes, para trocar impressões sobre assuntos de serviço, mas naquele dia o seu sexto sentido dizia-lhe que se tratava de algo mais importante e pessoal.
- Pedro, já está connosco há algum tempo, não é assim?
- Já lá vão quase três anos, Sr. Cardoso.
- É verdade, o tempo passa depressa. Parece que foi outro dia que o seu tio me veio pedir para o deixar ocupar a vaga de ajudante de guarda-livros. – Acendeu um cigarro vagarosamente, perante a impaciência de Pedro.
- Tenho que reconhecer que foi uma boa aquisição. É trabalhador, assíduo, responsável e – aqui interrompeu-se e fixou Pedro com um olhar arguto – melhor que tudo, ambicioso.
- Pedro estava um pouco confuso com aquela conversa. Não conseguia atingir onde o homem queria chegar.
- A ambição é uma grande qualidade, Pedro, quando, como no seu caso, é controlada pelo bom senso. – Sorriu e estendeu-lhe o maço de cigarros. Pedro agradeceu com a mão, devolvendo o sorriso. – Obrigado, não fumo.
- Ora ai está um bom hábito. – Acendeu outro cigarro e expeliu uma longa baforada –
Comecei a fumar muito novo. Apanhei muitos tabefes do meu pai á custa de me apanhar a fumar um cigarrito Hoje dou-lhe razão, mas agora é tarde de mais.
Pedro começava a ficar nervoso com tantos preâmbulos.
- Tenho uma proposta a fazer-lhe, meu rapaz. Tem a liberdade de recusar ou aceitar. Nada se alterará em relação á sua posição na empresa se recusar.
- Compreendo Sr. Cardoso. È bom saber isso.
-Bem, como sabe, possuímos diversas fazendas quer a norte, quer a sul do País. A Santa Clara é uma grande e produtiva fazenda de café, com uma produção anual que ronda as duas mil toneladas. - Fixou Pedro com ar inquiridor – Aliás sabe disso?
Pedro sentia-se analisado e isso incomodava-o, especialmente porque desconhecia o motivo.
- Sim, sim, Sr. Cardoso. Conheço o movimento de todas as roças, através dos mapas que mensalmente recebia na sede. Aliás, embora nunca me tenha deslocado a nenhuma, sei onde ficam situadas, o que é cultivado em cada uma. – Explicou Pedro com uma certa ênfase.
O Sr. Cardoso levantou-se e dando a volta á secretária, colocou a mão no ombro de Pedro, com ar paternal.
- Fico muito contente por verificar como se interessa por tudo o que diz respeito ao seu trabalho. Então vamos ao resto.
- Finalmente vou saber o que quer de mim – pensou Pedro, suspirando aliviado.
- Esta manhã recebi um telegrama do gerente da Santa Clara. O guarda-livros que tinha a seu cargo a contabilidade, existências em armazém, economato, enfim, tudo o que respeitava á parte financeira da roça, faleceu. – Acendeu um novo cigarro, perante a admiração de Pedro – É necessário mandar alguém para substitui-lo com urgência. Pensei em si, Pedro. Acho que tem o perfil adequado ao desempenho das funções. - Ficou expectante a olhá-lo á espera da sua reacção.
Pedro ficou tão surpreso, que emudeceu por momentos. Nunca lhe passaria pela cabeça uma proposta daquelas. Não passava de um novato, inexperiente naquelas andanças. Nem sequer conhecia o interior da Província, a selva, por assim dizer. Nunca avançara para além da Barra do Cuanza. Mas também não podia negar que esta proposta o entusiasmava imenso. Tinha espírito aventureiro e fora esse mesmo espírito que o impulsionara a deixar a sua terra, a casa, os pais. Só conhecia Luanda e arredores e desejava ardentemente conhecer muito mais de Angola, desse pais imenso, de grandes e profundos contrastes.
- Não sei se estarei á altura… a voz saiu-lhe mais hesitante do que teria desejado.
- Por aquilo que conheço de si, Pedro, penso que sim. Mas poderá pensar melhor…
Pensar melhor? Para quê? Lembrava-se que a mãe usava dizer “ quem muito pensa pouco tenta” e estava de acordo com ela. Era livre de tomar as decisões que quisesse sem precisar consultar ninguém. Poderia pedir conselho ao tio, mas não era obrigado a
fazê-lo.
- Aceito, Sr. Cardoso.
- Muito bem, Pedro. Fico contente por si e por mim. Vai ver que não se arrepende desta decisão.
- Estou certo que não e fico-lhe muito grato pela oportunidade.
- Não precisa agradecer. Tem feito por merecer a minha confiança.
Pedro estava tão entusiasmado que teve dificuldade em concentrar-se nas explicações que o patrão achou por bem dar-lhe, sobre as suas novas funções.
- O seu ordenado será quase o dobro do que o que aufere aqui, para além de muitas outras vantagens, tais como casa e alimentação. A alimentação posso garantir-lhe que será excelente, quanto á casa, uma vez que é solteiro, irá partilhá-la com alguém. Um colega certamente…
- Não haverá problema. Normalmente sou de trato fácil…
- Eu sei – concordou o Sr. Cardoso – já tive ocasião de verificar essa sua qualidade.
O Sr. Cardoso era um homem muito perspicaz. Nada lhe passava despercebido, embora por vezes parecesse alheado de tudo, embebido no seu trabalho.
- Terá de assumir as suas funções o mais rapidamente possível. O gerente da Santa Clara está preocupado com a falta de um responsável pelo movimento de armazém e pelas folhas do pessoal. A contabilidade em si é fácil de pôr em dia mas o resto tem de ser feito diariamente.
- Irei quando quiser, Sr. Cardoso. De qualquer modo e embora conheça um pouco do movimento das roças, vou precisar de algumas directrizes.
- Certamente, Pedro. Não se preocupe. O gerente dar-lhe-á todo o apoio necessário. E outra coisa – parecia agora um pouco preocupado – o Pedro vai ter de ir pelos seus próprios meios. Nesta altura é-me impossível ir lá levá-lo, embora não me desagradasse nada. O cozinheiro é de mão cheia, faz uma muamba de comer e chorar por mais…Aliás seria bom já o ter levado a conhecer algumas das nossas fazendas, mas o tempo escasseia… concluiu á guisa de justificação.
- Vai correr tudo bem. Só necessito de algumas informações de como lá chegar. Quem tem boca vai a Roma. - Estava tão entusiasmado que qualquer obstáculo lhe parecia fácil de ultrapassar.
.- Terá de ir de comboio até á Gabela. O gerente irá lá buscá-lo – Parecia agora muito ocupado a compilar uma série de documentos – Pode ir daqui a dois dias?
- Certamente. É só o tempo de fazer a mala, ultimar alguns assuntos e estou disponível.
- Muito bem. Há, já agora um conselho. Vai estar mais fresco que aqui em Luanda, principalmente á noite. Tenha isso em conta quando fizer a mala.
- Tomarei, obrigado.
Mal sabia Pedro, as surpresas que o aguardavam.
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O jeep  Willis cinzento aproximava-se lentamente, pois apesar da potência do seu motor de tracção ás quatro rodas, vencia com dificuldade a ravina íngreme e arenosa. Desapareceu por momentos numa curva, para reaparecer a cerca de vinte metros.
 Pedro acenou e a viatura abrandou, vindo deter-se junto dele, com o motor a arfar como um velho cansado e provocando uma nuvem de poeira. A porta do lado do condutor manteve-se fechada, mas a outra abriu-se, dando saída a um homem de elevada estatura, envergando um fato leve de caqui.
A Pedro pareceu-lhe relativamente jovem, a avaliar pelos cabelos negros e a boca de traços firmes, pois os olhos trazia-os protegidos por óculos escuros. Quedou-se indeciso, com o braço esquerdo apoiado na porta que mantinha entreaberta.
Pedro aproximou-se lentamente, tentando aparentar um ar descontraído apesar da sede e do consaço.
-Boa tarde. Pode informar-me se me encontro muito longe da fazenda Santa Clara?
O homem analisou-o por um momento através das lentes escuras.
- A Santa Clara? – Parecia espantado como se lhe tivesse perguntado se estaria longe de Marte.
- Sim, a Santa Clara. Indicaram-me este caminho – tirou o lenço do bolso das calças e limpou o suor que lhe escorria pelo rosto. A temperatura devia rondar os trinta graus – mas parece que nunca mais lá chego…
- É este o caminho, sim! Aliás nós somos da Santa Clara. Só não entendo… tirou os óculos escuros como se repentinamente eles lhe dificultassem a visão – calculo que seja o novo guarda-livros?
- Sou eu mesmo. – Pedro estava agora um pouco agastado, embora tentasse não o demonstrar – Enviei-lhes um telegrama a avisá-los da minha chegada á Gabela…
- Certamente, certamente, só que veio a passo de caranguejo. Só o recebi á cerca de meia hora. – O rosto abriu-se num sorriso amigável. Não devia ter saído da cidade. –
Estendeu-lhe a mão, ao mesmo tempo que lhe tocava o ombro num gesto amigável –
Agora que chegou aqui são e salvo, o melhor é esquecer este contratempo. Eu sou Miguel o gerente da Santa Clara.
Pedro pousou no chão a maleta, que de súbito lhe pereceu extremamente pesada e limpou mais uma vez a testa suada.
- Perece extenuado?
Sentiu uma tontura e cambaleou. Por um momento tudo rodou á sua volta. O jeep, o seu interlocutor, a ravina íngreme e o capim ressequido das bermas. Quando recuperou sentiu a mão de Miguel a ampará-lo.
- Apanhou demasiado sol. Está um calor infernal…
A porta do lado do condutor abriu-se e desceu um homem alto e louro, de feições finas mas algo duras, que se aproximou.
- Que se passa afinal? Indagou com uma certa brusquidão, que desagradou a Pedro, que estava furioso consigo mesmo por ter dado parte de fraco.
Miguel fez as apresentações.
- É o Sr. Pedro Freitas, o novo guarda-livros. Jonny Cárter o meu ajudante.
- Trate-me só por Pedro. – A mão de Jonny era firme mas o olhar manteve-se frio.
- Vamos andando – alvitrou Miguel – ficamos torrados se continuamos parados a esta soleira –  deteve-se e interrogou Miguel, franzindo a testa com ar  intrigado.
- Como se aventurou a sair da Gabela e vir a pé por ai fora…
- Como não estava ninguém á minha espera na estação, perguntei num café se a Santa Clara era longe. Informaram-me que era uma hora de caminho.
- Palhaços – resmungou Miguel – uma hora de jeep não a pé. Bom, vamos andando. Está esfomeado, sujo e cansado. Precisa de um banho e uma boa refeição.
Estava realmente muito cansado e agora que Miguel aludira a uma refeição é que viu como estava esfomeado. Não comia nada desde manhã, muito cedo.
Subiu para o assento traseiro de jeep, depois de ter arrumado a maleta no tejadilho onde havia uma armação metálica que servia de porta bagagens. Só então reparou no vulto feminino, no outro extremo do assento traseiro. Ela estendeu-lhe a mão com simpatia.
- Sou Sílvia, a filha do Miguel. Prazer em conhecê-lo, senhor?
- Pedro, Pedro Freitas. Sou o novo guarda livros.
Ela soltou uma risada divertida. – Isso já eu sei!
Apertaram as mãos e apesar da obscuridade motivada pela sujidade dos vidros enlameados, pôde ver que era muito jovem.
O jeep retomou a penosa subida, mas pouco depois esta terminou abruptamente e uma extensa planície surgiu aos olhos maravilhados de Pedro. Os cafezais desdobravam-se a perder de vista. As casas da fazenda e os armazéns formavam um círculo quase fechado, constituindo uma espécie de cidadela, num dos extremos da plantação. Como que penduradas a meio do morro, as cubatas de adobe com os telhados de colmo, alinhadas como soldados, pareciam guardiões.
- A fazenda, ou roça, como lhe queiramos chamar, fica situada num vale profundo, como pode ver. – Miguel trazia o braço fora da janela e abarcava a paisagem num gesto largo. Pedro não lhe via o rosto, mas adivinhava-lhe pela voz o seu entusiasmo em mostrar ao  recem  chegado a terra que amava.
Muito ao longe, as vertentes montanhosas caiam ou quase a pique ou deslizando em declives suaves, numa mescla de cores que iam do anil ao vermelho vivo, quando batidas pelo sol . A terra africana reflecte as cores do arco-íris e explode em vermelho fogo ao pôr-do-sol.

CONTINUA

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