domingo, 28 de outubro de 2012

CAMINHOS V


CONTINUAÇÃO




Jonny seguia em marcha lenta, certamente para dar a Miguel a oportunidade de mostrar a paisagem, mas mantinha-se calado. No entanto, através do espelho retrovisor, procurava insistentemente a filha de Miguel.
Tinham descido o morro em direcção á roça e percorriam agora um acesso particular rodeado de cafezais. Algumas dezenas de indígenas, quase na sua maioria homens, apanhavam os bagos maduros que colocavam em grandes cestos. Estava-se na época forte da colheita e o trabalho era muito. Acenavam calorosamente á passagem da viatura.
- Veja que maravilha, Pedro.
- É realmente maravilhoso o que esta terra produz, a riqueza que tem… - Pedro estava a ser sincero, pois estava realmente maravilhado.
A voz de Sílvia que até ai se mantivera calada, limitando-se a escutar o pai, fez-se ouvir num tom carinhoso, quase maternal.
- O papá adora tudo isto. É o que ele mais ama no mundo.
-Tu sabes que é a ti que eu mais amo no mundo. Mais que tudo, mais que todos. – Miguel rodou ligeiramente no banco e acariciou rapidamente o rosto da filha. Vendo o amor que transparecia no seu olhar, Pedro não duvidou de que falava verdade.
Aproximavam-se agora do aglomerado de casas que Pedro vira do cimo do morro.
O jeep deteve-se junto de uma das poucas de dois pisos, rodeada dum alpendre como a maioria, e apearam-se todos. Por delicadeza Pedro estendeu a mão a Sílvia para a ajudar a descer e pôde constatar como ela era realmente bonita, com o seu corpo esguio e flexível, os cabelos louros repuxados no alto da nuca, os belos olhos azuis de longas pestanas e os lábios carnudos.
- Vou mostrar-lhe as suas instalações. Espero que goste.
Pedro pegou na sua mala e seguiu Miguel até uma das casas de um só piso, alguns metros á frente da primeira.
- Ali funciona o refeitório, a cozinha e no primeiro andar a cantina que serve também de sala de convívio. Estamos aqui um pouco isolados e precisamos de conviver um pouco. Por vezes jogamos ás cartas, ao dominó, ou uma partida de damas. Ajuda o tempo a passar. Gosta de jogar?
- Ao dominó e um pouco ás damas, mas não sou um ás em nenhum deles – explicou Pedro sorrindo.
- Miguel abriu a porta e deu passagem a Pedro.
- Espero que se sinta bem entre nós – disse á guisa de boas vindas.
A casa compunha-se de dois quartos de cama, uma casa de banho e uma pequena sala, onde se podia ver um frigorifico, uma mesa com quatro cadeiras e uma estante com alguns livros.
- Tem sempre água gelada ou cerveja – disse Miguel apontando o frigorifico – por causa do calor.
- Miguel indicou-lhe um dos aposentos. Pedro colocou a mala em cima da cama, que já estava feita, os lençóis cuidadosamente dobrados sobre a colcha, pronta para abrir. Havia uma cómoda, um guarda-fatos, duas mesinhas de cabeceira e uma cadeira. Era espaçoso e bem iluminado, com duas grandes janelas, que davam para o terreiro, dominado aqui e ali por grandes imbondeiros.
Miguel ficara á porta, olhando-o com ar interrogativo, como se esperasse a sua aprovação.
- Está ao seu agrado? Se necessitar de mais alguma coisa, diga.
- Está óptimo, Miguel. Nem esperava tanto.
- Procuramos proporcionar algum conforto aos nossos empregados. Ajuda a suportar a solidão. – Pedro pareceu notar uma certa amargura na sua voz, mas não teceu qualquer comentário.
- Vem uma empregada limpar a casa, fazer as camas, apanhar a roupa, enfim, fazer tudo. As refeições são servidas no refeitório. O mata-bicho pelas sete horas, o almoço pela uma da tarde e o jantar pelas oito horas. Mas nos intervalos pode sempre petiscar qualquer coisa na cantina se tiver fome. Há, já me ia esquecendo. Vai partilhar o seu alojamento com Jesus. Penso que se dará bem com ele. È bom rapaz!
Miguel parecia cansado e despediu-se rapidamente, como se de repente tivesse concluído que não havia mais nada para dizer.
- Bem, vou andando. Vá arrumando as suas coisas. Vemo-nos ao almoço. Até já.
Pedro desfez a mala e dedicou-se a arrumar algumas roupas nas gavetas da cómoda e a pendurar outras no guarda-fatos. Calças e calções de caqui, camisas leves, alguma roupa interior.
- Ora, ora, aqui temos um homem arrumado.
- Virou-se surpreso e encarou um mestiço alto e espadaúdo, de olhos risonhos que o fitavam surpresos e condescendentes.
- É Jesus? – Perguntou.
- Jesus, mas não Cristo. Vejo que já lhe falaram de mim. Você é o novo guarda-livros?
- Sou eu mesmo. – Pedro adiantou-se estendendo-lhe a mão – Pedro Freitas, mas trate-me por Pedro.
Cristo tinha um ar franco, que lhe agradou. O seu aperto forte, deixava transparecer firmeza de carácter.
- Vejo que é um homem organizado. Venha ao meu quarto e verá que sou o inverso. – E perante a hesitação de Pedro – venha, quero mostrar-lhe algo.
Pedro seguiu-o até ao outro quarto, que era similar ao seu, mas se encontrava numa desordem total. Havia roupas e objectos espalhados por todos os lados.
- Como vê, amigo, isto está um caos, mas – interrompeu-se para abrir a porta dum pequeno móvel de pau-preto trabalhado, que se encontrava a um canto do quarto – tem uma coisa que o seu não tem – e exibiu uma garrafa de whisky, praticamente cheia. – Proponho um brinde pela sua chegada a estas difíceis paragens. Deitou o precioso líquido cor de âmbar em dois copos, entregando um a Pedro.
- Difíceis porquê – perguntou Pedro curioso.
- A vida no mato não é fácil. A cada passo espreita o perigo…
- Que perigos?
- Imensos meu caro. Passaria horas a enumerá-los mas aproxima-se a hora do almoço e estou com uma fome de leão.
- De qualquer maneira obrigado pelo aviso. Serei cuidadoso.
Pedro foi tomar um duche rápido e vestiu roupa lavada. Sentiu-se totalmente recuperado da viagem.
Jesus esperava-o no alpendre fumando um cigarro

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O refeitório do pessoal era bastante grande. Possuía várias janelas protegidas com rede e persianas de madeira que seriam fechadas nas horas de maior calor. Duas compridas mesas ladeadas por bancos corridos, já se encontravam em parte ocupadas por alguns homens que conversavam animadamente.
Ao fundo, um grande aparador servia de apoio aos criados, que começavam a servir as mesas. Do outro lado ficava a cozinha, que para além duma meia porta de vaivém, tinha acesso á sala por uma janela através da qual o cozinheiro passava as travessas já preparadas.
Miguel encontrava-se sentado a uma das mesas, ladeado pela filha e por Jonny. Mais alguns homens cavaqueavam entre si, não parecendo dar pela presença do recém-chegado. Miguel ao vê-los entrar acenou-lhes amistosamente., fazendo-lhes sinal para se sentarem na sua mesa.
Pedro ficou interdito, vendo Jesus dirigir-se para a outra mesa, depois de lhe ter dito com um sorriso irónico.
- Esta é a mesa da alta. Prefiro aquela!
Mas perante a insistência de Miguel, acabou por sentar-se entre Jonny e um desconhecido, um homem de meia-idade, arruivado, de rosto redondo e bonacheirão, que falava animadamente, entre as grandes garfadas que levava á boca.
Miguel fez uma apresentação geral.
- Este é Miguel Freitas, o novo Guarda-livros – Um aceno de cabeça e um murmúrio geral, completaram a apresentação.
Sílvia estendeu-lhe uma travessa, donde se desprendia um aroma bastante apetitoso.
- É caça! – Elucidou Miguel – Espero que goste.
- Neste momento gosto de tudo! Gracejou Pedro.
- Acredito. Teve uma manhã difícil… A voz de Sílvia era conciliadora e suave.
- Xavier é o rei dos caçadores – elucidou Miguel entre duas garfadas, com um aceno de cabeça em direcção ao ruivo – É ele o responsável pelo prazer que nos dá esta deliciosa carne.
Jonny fez um esgar de repulsa – para quem gosta…
Miguel soltou uma gargalhada -  O Jonny prefere peixe seco com bananas e óleo de palma.
Pela primeira vez desde que se tinham encontrado, que Pedro viu um sorriso aberto no rosto de Jonny.
-E não só! Frango de caril, muamba, muzungu e até – aqui interrompeu-se e inclinando-se um pouco, deixou que um dos criados colocasse na mesa uma travessa de onde se desprendia um aroma bastante convidativo -  este cabrito assado no forno, que deve estar uma delícia.
Só ai Pedro reparou que ele tinha o prato limpo e que não chegara a servir-se.
- O nosso cozinheiro faz sempre qualquer coisa alternativa, para os que não gostam de caça. – Adiantou Miguel – se não gosta Pedro, não se constranja. Como diz ai o nosso amigo Jonny o cabrito deve estar uma delícia.
Embora nunca tivesse comido carne de caça e esta tivesse um travo diferente, achou-a bastante saborosa.
- É carne de quê?
- De veado – esclareceu o ruivo - Já provou carne de Javali?
- Não, aliás nunca tinha provado caça.
- Nem sabe o que tem perdido. Mas aqui na roça não lhe vai faltar oportunidade.
Miguel tinha virado a sua atenção para a filha que se mantinha calada.
- Então, minha filha? Não comes nada…
-Comi bem, papá.
- É preciso manter a elegância … – Comentou o ruivo.
Miguel lançou-lhe um olhar de crítica.
- Gosto mais de peixe, papá. Sabes disso.
- Peixe não puxa carroça. Aqui no mato precisamos de carne para manter as energias.
- Certo papá, mas eu estou bem. Não te preocupes. – Sílvia pousou a mão no ombro do pai num gesto de ternura.
Serviram á sobremesa uma salada de frutos tropicais e doce de coco.
- Esta fruta é aqui da fazenda? – Perguntou Pedro curioso.
- É, sim. A fruta e as verduras são cultivadas aqui na roça. Temos um belo pomar e uma horta que nos dá de tudo.
Terminado o repasto saíram para o terreiro, onde se fazia sentir àquela hora intenso calor, suavizado pela sombra das grandes árvores, plantadas ali certamente para o efeito.
- Por hoje, Pedro, será melhor descansar da viagem e recuperar forças. Amanhã inteiro-o do seu trabalho e mostro-lhe a fazenda mais detalhadamente. Concorda?
- Certamente, Miguel. Vou acabar de arrumar as minhas coisas.
Dirigiu-se á nova casa e abriu a porta com uma chave que Jesus me facultara antes do almoço.
- Fique para já com esta, até o gerente providenciar chaves para si. Depois devolve-ma. É sempre bom ter uma chave de reserva.
- Obrigada, Jesus. Já agora uma curiosidade. O antigo guarda-livros morava aqui?
- Não, não! O Almeida vivia na sanzala. - Parecia hesitante como se lhe desagradasse tocar no assunto.
O jovem não insistira mas ficara surpreso.
Uma figura feminina encontrava-se junto da cómoda, ajeitando uma pequena jarra com flores silvestres. Virou-se ao ouvir a voz de Pedro.
- Boa tarde!
- Boa tarde. Desculpe a intromissão, mas achei que o seu quarto ficaria mais alegre com algumas flores.
Os dentes alvos sobressaiam no rosto moreno. Os cabelos negros como azeviche, muito encaracolados, emolduravam um rosto perfeito. Sem saber bem porquê, o rapaz sentiu-se um pouco perturbado – Com quem estou a falar?....
A mulher adiantou-se e estendeu-lhe a mão que Pedro sentiu firme mas suave entre a sua.
- Sou Alma. Você é o novo guarda-livros?
- Exactamente.
- Sou filha do anterior. – O seu rosto ficou subitamente sombrio, como se uma nuvem negra tivesse passado sobre a sua cabeça.
- Sinto muito Posso ajudar nalguma coisa.
Não, não. Obrigada. – Deu alguns passos em direcção á porta – sabe, o que ainda mais me aflige, foi a maneira como morreu.
Pedro não era particularmente curioso, mas não conseguiu evitar a pergunta. – Como morreu?
- Foi assassinado.
A surpresa emudeceu Pedro. Porque não lhe tinham dito? Na realidade nunca perguntara.
- Não sabia? – Perguntou Alma ao ver a surpresa estampada no rosto dele.
- Não, não sabia. E descobriram quem foi?
- Foi uma cobra venenosa. Uma Mamba verde. O veneno dela é letal. – No olhar da rapariga transparecia agora um profundo rancor.
- Então foi um acidente? – Pedro estava cada vez mais surpreso.
Alma aproximou-se de Pedro. A sua voz soou baixa, quase em surdina.
- Não, foi assassínio. Colocaram a cobra na cama dele, de propósito. – Pousou uma  mão suavemente no braço de Pedro – seja cego, surdo e mudo. Para seu bem…
Alma desceu a correr os degraus do alpendre e desapareceu na esquina da casa, deixando Pedro estupefacto no meio do quarto.

CONTINUA

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