sexta-feira, 19 de outubro de 2012

CAMINHOS - I

                                                 
                                                              I

Vistas da casa, as amendoeiras em flor ofereciam um espectáculo maravilhoso na sua
profusão do rosa e branco. Não era por acaso que apareciam em todos os cartazes promocionais da região e a referência a um Algarve em flor era um dos slogan preferidos dos operadores turísticos, para além, claro, das belas praias de areias brancas e finas.
Laura pôs de lado o livro que estivera a ler e permaneceu preguiçosamente estendida
na sua cadeira preferida, sob o alpendre, sentindo os aromas da primavera e ouvindo o chilrear dos pássaros migratórios que começavam a fazer os ninhos nos beirais das casas. Estava um belo entardecer de primavera, suave e ameno
 Sentiu os passos da mãe, um pouco arrastados, provavelmente devido ás dores que ultimamente lhe tolhiam as articulações.
- Está a envelhecer, coitada – mas logo se arrependeu deste pensamento negativo, como se a mãe pudesse adivinhá-lo e a entristecesse.
- Queres qualquer coisa fresca, Laura? Fiz limonada.
-Não mãe, obrigada. Sabe uma coisa, vou dar uma volta por ai a desentorpecer as pernas. Levantou-se alisando os calções de ganga desbotada, que ela adorava vestir em casa, por serem tão práticos e descontraídos.
-Não me demoro.  Quer vir?
- Não filha, vou fazer o jantar. O teu pai deve vir cansado e cheio de fome.
Desceu os degraus irregulares que davam acesso ao amendoal. Os corredores que separavam as árvores
eram tão simétricos que dir-se-ia terem sido talhados á esquadria. A luz difusa do entardecer infiltrando-se através dos ramos, criava sombras rendilhadas no solo barrento.
Com as mãos metidas nos bolsos, Laura caminhou lentamente, aspirando o ar puro da serra, daquela serra que fora testemunha das suas brincadeiras, das alegres risadas de criança despreocupada e feliz.
A serra mantinha-se praticamente a mesma das suas recordações, mas ela não. Mudara muito e já pouco restava da menina traquina e ingénua que um dia deixara aquela casa e a pequeno lugarejo do barrocal Algarvio,  para  com os  pais rumar a uma terra desconhecida  chamada África. Tinha dez anos e uma curiosidade insaciável.
 - Para onde vamos – indagara perplexa perante a azáfama que via á sua volta.
.- Vamos para uma terra muito grande e bonita, com árvores muito altas cheias de frutas como tu nunca comeste.
- E cheia de pretos como tu nunca viste! – Atalhara a irmã inconformada com esta mudança.
- Cala-te Ana! – Ralhara a mãe – Não sejas maldosa.
- Ora, ora! Não é maldade dizer a verdade…
Recordara algumas vezes esta troca de palavras. Realmente nunca vira um negro, mas a diferença da cor da pele nunca seria um problema para ela.
- As amendoeiras estão muito floridas, vamos ter fartura de amêndoa este ano -  pensou – o pior é o resto!
O pior era a falta de mãos para a apanha da amêndoa. E não só da amêndoa, como da alfarroba, dos figos e da laranja. Para além de escassa, estava tão cara que a maioria dosagricultores se via obrigada a abandonarem as terras.
- Está tudo maluco com o turismo. Só querem vender as terras, vender, vender. - Resmungava a mãe, sempre que o marido chegava a casa cansado de andar na limpeza dos corredores de rega e do mato circundante – Já ninguém quer trabalhar, louvado seja Deus!
- Não os podemos censurar. Se lhes dão uma fortuna pelas terras, só fazem bem em vendê-las. Se quisessem as minhas, também as vendias, mas aqui no meio da serra…
- Sentia que realmente os anos eram muitos para aquelas lides, mas não podia deixar as terras ao abandono.
 Laura assistiu por diversas vezes a esta troca de palavras e dava razão á mãe. A loucura do turismo invadira o Algarve. A economia tradicional começava a sentir-se sob a pressão turística. Faziam-se fortunas de um dia para o outro. Surgiam por todo o lado os grandes empreendimentos turísticos, os campos de Golf a perder de vista.
Terras que outrora pouco valiam eram agora disputadas pelos grandes empresários a peso de ouro.
Pedro também se deixara envolver por essa onda de entusiasmo, quando regressados de Angola e a título provisório, segundo ele, se haviam fixado na serra Algarvia.
- É só até arranjarmos emprego – dissera ainda no avião, durante a longa viagem que os trouxera a contragosto da terra longínqua que tinham aprendido a amar como se fosse sua.
Ainda não estou com cabêça para fazer projetos – desabafara Laura, olhando pela janela do avião as pequenas nuvens brancas que pareciam suspensas por fios invisíveis Deixa-me assentar, coordenar ideias...
Pedro não conseguira disfarçar um gesto de impaciência. Era necessário pensar no futuro deles e dos filhos, tomar decisões. Tinha perdido tudo o que conseguira juntar em anos de trabalho, mas não se sentia vencido. Achava-se ainda jovem e com forças para recuperar o tempo perdido.
- Para já ficamos uns dias em Lisboa. Temos assuntos a tratar e é melhor deixar tudo resolvido antes de irmos para o Algarve.
- Tenho saudades dos garotos. Parece que não os vejo a uma eternidade…
Pedro apertou-lhe a mão com ternura – Também eu querida, mas temos de ter mais um pouco de paciência. Estão bem entregues! – Rematara para animá-la.
Tinham mandado os dois filhos, Amina e Iori, com os pais dela, que haviam regressado á cerca de seis meses. Receavam pela sua segurança, numa cidade que se tornara um campo de batalha. Eles arriscaram-se por mais algum tempo, na tentativa de salvar alguns dos seus haveres. Pedro conseguira encaixotar parte do recheio da casa.
Laura não se resignava a deixar para trás objectos de estimação, livros, loiças e os brinquedos dos filhos, amontoando-os indiscriminadamente para que o marido os metesse nos grandes caixotes que haviam adquirido para o efeito e que seriam embarcados num dos navios atracados no porto de Luanda com destino a Lisboa
-Por favor, Laura. Só o essencial!
Os tiroteios sucediam-se cada vez com mais frequência e ninguém estava livre de ser apanhado por uma bala perdida. Atravessar a rua tornara-se um acto de coragem.
 A entrada dos três principais partidos de libertação de Angola, o MPLA, a FNLA e a UNITA na cidade de Luanda e a luta entre as três facções politicas, fazia-se agora nas ruas e nas praças da bela cidade. Era o começo da guerra civil que mataria milhares de angolanos e deixaria estropiados outros tantos.
Chegara a dia da partida. Nunca pelas suas mentes aflorara o pensamento de regressar definitivamente. Tinham projectado criar os filhos, viver e envelhecer naquela terra. Laura limpou uma lágrima teimosa ao deixar a casa que adquirira com sacrifício o pequeno jardim que sempre cuidara com tanto carinho. A maioria das casas do que fora um bairro alegre e airoso, estavam fechadas e os jardins outrora floridos começavam a encher-se de ervas daninhas.

CONTINUA

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