A bola fora feita com velhas meias de lã enroladas sobre si. Não saltava mas corria velozmente ao impulso das botas do Manuel Gaspar, mais conhecido por Manuel da Júlia, derivado ao nome da progenitora. Fora ele que a fizera, arrebanhando algumas meias velhas que a irmã Margarida tinha no cesto para remendar, e como proprietário tinha o direito de começar o jogo, de dar o primeiro pontapé.
A melena desgrenhada, caindo-lhe a franja mal aparada sobre os olhos azuis, ora rebeldes e bravios como os ventos do norte, ora repassados de uma grande ternura e calmaria, como as águas de um lago refletindo a luz do entardecer, num rosto de adolescente tisnado pelo sol e curtido pelo vento.
- O Caim é atrevido mas tem bom coração - dizia a velha Matilde quando o via empoleirado nos muros de pedra solta à caça de lagartos, ou o descobria acaçapado à espera dalgum passaroco mais descuidado que caísse na sortilha que cuidadosamente preparara. A velhota não esquecia a solicitude com que o garoto lhe prestava auxilio, indo buscar-lhe água ou apanhando-lhe um molho de couves para a sopa, quando mais atacada do reumatismo, não se podia mexer " sem préstimo para nada", como repetia amiudadas vezes.
Com quinze anos o Manuel lia e escrevia muito mal e mesmo assim por obra e graça do Divino Espírito Santo, como costumava dizer o sr. padre Sérgio quando depois do ofício religioso a que o rapaz assistia todos os domingos, envergando a sua melhor roupa, o via já despido do seu forçado ar de respeito aos pinotes no adro como " um diabo à solta". Nas aulas de catequese, era useiro e vezeiro em interromper a catequista, a Sra. Emília Serpa, na enumeração das bem aventuranças, para perguntas como esta;
- É verdade que o pico está cheinho de fogo lá por dentro?
Com a paciência que lhe era peculiar, fruto da experiência a lidar com aqueles "mafarricos", repreendia-o serenamente:
- Já te avisei para não interromperes a lição, Manuel. Vem ter comigo depois.
Mais tarde quando se juntavam para a brincadeira, os companheiros metiam-se com ele:
- Estás sempre a faltar à escola, mas queres saber o que o pico tem lá por dentro... ascintava o Joãozinho da Canada, revirando os olhos.
- Quer é mostrar que é mais esperto que os outros - ajuntava o filho do regedor, que se dava ares de importância, orgulhoso do pai que era "funcionário público".
Esta troca de palavras acabava normalmente em pancadaria, pois o Manuel não era de deitar "água a pintos" e segundo a sua própria expressão não deixava que lhe pisassem os calos.
Apesar destes acessos de mau génio era um rapaz com um grande coração, cheio de ternura por aqueles que lhe eram próximos. O pai, a mãe e a irmã Margarida.. Como ele a amava! Era a sua segunda mãe, porém mais terna, mais compreensiva, sempre bem disposta e pronta a fazer-lhe as vontades. E como era bonita com os seus olhos negros a brilharem num rosto perfeito, as longas tranças de azeviche caindo-lhe sobre os gráceis ombros. Achava a irmã tão bela como aquelas mulheres que via nas revistas americanas que a tia recebia e que o deixava ver com muito cuidado para não rasgar as folhas.
A beleza da irmã tornara-se com o passar dos anos, fonte de rixas, pois não suportava os olhares " de carneiro mal morto" e os ditos brejeiros que lhe dirigiam os rapazes da aldeia e ainda mais arreliado ficava ao verificar que a jovem não se abespinhava e ainda lhes lançava um sorriso maroto.
Mais velha do que ele alguns anos, fora ela que lhe embalara os primeiros sonos e lhe calara os primeiros vagidos, que a mãe essa abalava cedo para a faina do campo, ainda o sol não rompera por detrás da montanha.
Com o passar dos anos, outros desejos e ambições muito mais fortes do que apanhar entre as pedras da costa, limosas e escorregadias um saco de caranguejos ou um polvo para a janta, ou correr pelos campos na companhia do Açor, o cachorro seu fiel companheiro, foram a pouco e pouco tomando o coração e a mente do rapaz. Era a atração pelo desconhecido, o sonho que embalava o ilhéu, materializado no grande pais chamado América e que pouco a pouco ia chegando até eles em pequenas parcelas de conhecimento, tais como revistas, livros, histórias e cartas de familiares e amigos que tenham logrado alcançar tão desejada meta.
Esse desejo cresceu e tornou-se obsessão, de tal modo que não conseguiu guardá-lo só para ele. Desabafou com aquela que lhe merecia mais confiança. Margarida escutou-o atentamente, com um ar grave e sério.
- Se queres ir p'ra América terás de trabalhar, que a passagem é cara...Já disseste ao pai?
-Não tive coragem. Ele está a contar comigo p'ro ajudar na lavoura...
A Margarida acenou a cabeça afirmativamente.
- Pois é verdade. Mas também estás quase na tropa...
- Mas é melhor ele saber que ós despois me quero ir. Não vou ficar por aqui...
A irmã encolheu os ombros num gesto de resignação.
- Pois tu é que sabes, Manel. Se tens essa mania da América...
- Vou dizer-lhe e já fica a saber c'o que pode contar. - Decidiu - Vou procúrá-lo!
E lá se foi desembestado, seguido pelo olhar apreensivo da irmã.
CONTINUA
Mais velha do que ele alguns anos, fora ela que lhe embalara os primeiros sonos e lhe calara os primeiros vagidos, que a mãe essa abalava cedo para a faina do campo, ainda o sol não rompera por detrás da montanha.
Com o passar dos anos, outros desejos e ambições muito mais fortes do que apanhar entre as pedras da costa, limosas e escorregadias um saco de caranguejos ou um polvo para a janta, ou correr pelos campos na companhia do Açor, o cachorro seu fiel companheiro, foram a pouco e pouco tomando o coração e a mente do rapaz. Era a atração pelo desconhecido, o sonho que embalava o ilhéu, materializado no grande pais chamado América e que pouco a pouco ia chegando até eles em pequenas parcelas de conhecimento, tais como revistas, livros, histórias e cartas de familiares e amigos que tenham logrado alcançar tão desejada meta.
Esse desejo cresceu e tornou-se obsessão, de tal modo que não conseguiu guardá-lo só para ele. Desabafou com aquela que lhe merecia mais confiança. Margarida escutou-o atentamente, com um ar grave e sério.
- Se queres ir p'ra América terás de trabalhar, que a passagem é cara...Já disseste ao pai?
-Não tive coragem. Ele está a contar comigo p'ro ajudar na lavoura...
A Margarida acenou a cabeça afirmativamente.
- Pois é verdade. Mas também estás quase na tropa...
- Mas é melhor ele saber que ós despois me quero ir. Não vou ficar por aqui...
A irmã encolheu os ombros num gesto de resignação.
- Pois tu é que sabes, Manel. Se tens essa mania da América...
- Vou dizer-lhe e já fica a saber c'o que pode contar. - Decidiu - Vou procúrá-lo!
E lá se foi desembestado, seguido pelo olhar apreensivo da irmã.
CONTINUA
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