CONTINUAÇÃO
No largo já se encontravam alguns homens sentados nos bancos de pedra, à porta do botequim.
O Manuel acercou-se, cumprimentando com um leve toque dos dedos na aba do chapéu. Sentou-se ao pé do Joaquim do Alto, que logo lhe estendeu um maço de cigarros, que o Manuel recusou com um gesto.
- Obrigado, mas prefiro os meus.
Gostava dos cigarros da fábrica, mas como não podia comprá-los, preferia não se habituar a eles. Eram demasiado caros para o seu bolso. O Joaquim do Alto, esse sim, podia comprá-los, pois recebia boas dólares da América, onde tinha as três filhas que Deus lhe dera.
Açor enroscara-se aos pés do dono, que de vez em quando lhe fazia uma festa na cabêça.
Os homens foram chegando um a um, terminada a faina do dia, para um dedo de conversa. Os bancos de pedra estavam todos ocupados pelo que começaram a sentar-se no chão, encostados à parede. Era a hora da cavaqueira, a troca de impressões entre pessoas simples.
O João Estreitinho desabafou enquanto desenhava com um graveto, figuras indecifráveis no solo barrento.
- Não sei que tem o Caim do porco que não medra... A patroa queria fazer a matança p'ró Natal, mas por este andar nem p'ró Espírito Santo.
- Dá-lhe ração e vais ver como medra... -Aconselhou o Joaquim do Alto que já ia no terceiro cigarro. Bem tentava largar o vício, mas não conseguia, apesar dos conselhos do Dr. Isaías que até lhe metera medo com essa história do cancro.
- Fica com uma carne sem sabor que inté nem parece carne de porco...- Discordou o Manuel com um esgar depreciativo.
- Matança de arromba foi a da Amélia do Canto - Informou um homem alto e trigueiro, que chegara por último e ficara encostado ao muro, como quem vem sem demora.
- Já está a gastar por via das dólares que o filho lhe há-de mandar das Américas. - Atirou o João Estreitinho olhando de soslaio o Manuel, que enrolando novo cigarro, parecia alheado da conversa.
- Sim, parece que aquilo está pela certa. Pelo que ouvi os papeis já estão prontos e inté já tem a carta de chamada...
O Manuel que dera tino à conversa, sentiu um aperto no peito, mas nada disse. O Estreitinho, desanimado com o silêncio do velho, foi atiçando:
- Ò Manel, não era a sua filha que namorava o filho da Amélia?
As palavras saíram-lhe num sopro : - Namora sim, e ós despois?
- E aos despois ou fica sem filha ou sem marido p'ra filha... - Gargalhou o outro maldosamente.
O Manuel endireitou as costas e encarou o outro com os olhos azuis frios como gelo.
- Se ela se casar com ele e for para longe, paciência... Se não casar e ficar ao pé do pai e da mãe, tambem está bem... Sempre há-de haver umas sopas para ela!
O outro baixou os olhos siderado pelas palavras ásperas do velho.
Hó home, não o quis ofender... Só falei por falar, assim a modos que na brincadeira.
A conversa generalizou-se, tocando os problemas da lavoura, as dificuldades dos criadores de gado, as principais ocupações das gentes da aldeia, mas o Manuel estava triste. As palavras do Estreitinho mesmo repletas de maldade, tinham o seu lado de verdade. Não que ele tivesse pressa de se ver livre da filha, isso não, mas gostava de vê-la bem casada e na sua casa, para quando chegasse a sua hora ir descansado.
Um grupo desembocou na curva da estrada, vindo dos lados da casa da Amélia do Canto. Era o pessoal, homens e mulheres, que bem comidos e bebidos regressavam a suas casas depois do dia de faina, que a matança era divertimento mas também muito trabalho.
Para os homens era o matar, o escaldar, pendurar e abrir o animal, retirar-lhe todas as visceras e parti-lo com mestria para nada se perder. Que no porco tudo se aproveitava. Para as raparigas era o lavar das tripas, até ficarem bem limpas e transparentes, era o picar de quilos de cebolas para o preparo das morcelas e das carnes para as linguiças.
A Margarida vinha no grupo, rindo e conversando com as companheiras, a cabeça de negras e grossas tranças agitando-se alegremente. Pareceu não ver o pai e lá seguiu atrás dos outros, até se perderam na curva do caminho.
O Manuel entreteve-se mais um pouco, ouvindo a conversa dos outros, mas pouca a pouco a sua mente abstraiu-se do que o rodeava, voando para longe, muito longe...
CONTINUA
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