sexta-feira, 7 de setembro de 2012

JOIA DE FAMILIA


Júlia retirou cuidadosamente do estojo forrado a veludo negro, o belo colar de esmeraldas de que tanto gostava. Herdara-o de sua mãe, que por sua vez o herdara de sua avó, que o herdara de sua bizavó.  A partir daqui a origem da bela jóia tornava-se mais nubelosa, mas também mais interessante e romanceada. A tetravó de Júlia teria vivido muitos anos no Brasil e tê-lo-ia trazido de lá, oferecido segundo as más línguas da família, por um coronel  do cacau por quem se apaixonara perdidamente, embora fosse casada e já tivesse uma filha. Muito ressentido com a situação, o marido que emigrara para o Brasil na sua juventude, regressara a Portugal trazendo a mulher adúltera a quem muito amava e a filha, numa tentativa de esquecer o que se passara.
Mas esta história que animara os serões de família e era segredada pelas mulheres enquanto bordavam ou faziam croché, não interessava sobre maneira a Júlia. O que importava realmente é que aquela jóia preciosa era sua e orgulhava-se dela. Por vezes lamentava não ter uma filha a quem deixá-la, ou uma neta. Um dia seria herdada pelo filho Ricardo que o ofereceria à mulher Yolanda que o usaria e mais tarde o legaria ao filho, seu neto, que a ofereceria à mulher que escolhesse para companheira.
Mas nesse momento, Júlia não estava preocupada com o caminho que a jóia de família iria percorrer num futuro longínquo,  pois certamente já não estaria cá para ver.
Em frente ao espelho colocou o colar, certificando-se de que o pequeno fecho de ouro branco ficava bem ajustado. Era realmente maravilhoso e fazia realçar o mate do seu pescoço bem torneado. Dirigiu-se para a sala onde o marido a esperava, como habitualmente lendo o jornal e fumando um cigarro. Sentia-se especialmente bonita naquele dia pois não descurara um milímetro da sua aparência. Desde os cabelos artisticamente penteados, passando pelo longo vestido negro e acabando nos elegantes sapatos da salto muito alto, tudo estava perfeito. Ao ouvi-la entrar Duarte levantou os olhos do jornal.
- Hummmmmm... estás linda, minha querida! Vou ser o homem mais invejado da festa...
- Nem tanto, nem tanto... Vão lá estar mulheres lindas e no último grito da moda.
- Claro, é a festa anual da empresa. - Esmagou o cigarro num dos diversos cinzeiros que Júlia estrategicamente espalhava pela sala, para evitar cinza na carpete. Há muito tentava combater o vício do marido mas inutilmente.
Quando chegaram, já muitos dos convidados se encontravam no vasto salão de festas que a empresa onde Duarte trabalhava, alugara num dos melhores hotéis da cidade. Além dos funcionários da empresa, haviam sido convidadas algumas figuras da politica e muitos empresários, quase todos acompanhados das respetivas esposas.
Tal como Júlia previra e a exemplo de anos anteriores, imperava o último grito da moda, representada pelas criações de diversos estilistas de nomeada, nacionais e estrangeiros.  Ela e o marido serviram-se de cocktails e quedaram-se a conversar com dois colegas de Pedro que também se encontravam acompanhados das respetivas esposas. Júlia notou os olhares de admiração com que as duas mulheres olhavam o seu colar. A conversa descambou como era de esperar para assuntos de trabalho e Júlia resolveu ir espreitar a mesa dos canapés.
- Com licença, volto já! - Detestava aquelas conversas sobre trabalho em horas de lazer e diversão.
Abeirou-se da longa mesa  do bufete e estendia a mão para se servir, quando do outro lado da mesma algo atraiu a sua atenção, algo que ela não gostaria de ter visto. Um colar idêntico ao seu, pelo menos à primeira vista, repousando num belo colo moreno, onde o verde das esmeraldas sobressaia maravilhosamente.
Quedou-se interdita, a mão a meio caminho dum canapé de presunto com melão, que era um dos seus preferidos. Do outro lado da mesa, a mulher talvez sentindo a força do olhar de Júlia , levantou os olhos para ela e lançou-lhe um meio sorriso, que imediatamente se transformou numa risada divertida:
- Que bacana! Temos colares iguais! - Exclamou numa acentuada pronuncia brasileira.
- É verdade! Uma coincidência engraçada... Respondeu retribuindo o sorriso.
A outra deu a volta á mesa e aproximou-se de Júlia, estendendo-lha a mão.
- Eu sou Leila. Muito prazer! Uma coincidência engraçada, na verdade...
-Eu sou Júlia. Igualmente!- A simpatia  da brasileira cativara-a para além da curiosidade que sentia sobre o colar. - O seu colar, desculpe a curiosidade...?
- O meu colar é muito antigo e tem uma história... E o seu?
- O meu também é. Herdei-o da minha mãe... Penso que está na minha família há várias gerações.
- Então não sabe qual a sua origem? - Os olhos de Leila brilhavam de curiosidade.
- Não, não! Na realidade nunca ouvi nada sobre isso... Júlia esteve tentada a contar a história recambolesca e um pouco escandalosa que acompanhava o percurso da jóia, mas calou-se.
- Pois o meu colar tem uma história apaixonante...- Leila segurou Júlia por um braço e suavemente encaminhou-a para um canto mais reservado do salão. - Vou contar-lha pois é muito interessante. - A simpatia da brasileira era contagiante. - A trisavó da minha mãe casou com um tipo muito rico, que tinha muitas fazendas de cacau. - interrompeu-se soltando uma risada divertida .- sabe, os coronéis do cacau, como na telenovela  "Gabriela, Cravo e Canela"...?
- Sim, sim... Aquiesceu Júlia, cuja curiosidade estava ao rubro.
- O tal coronel era um mulherengo e em dada altura envolveu-se com uma mulher casada, ao que parece com um português, que descobriu tudo e não esteve com meias medidas. Partiu a cara ao coronel e contou à mulher tudo o que se passava. A minha tetravó, parece que é esse o termo, embora estivesse habituada às escapadelas do marido com "quengas" não gostou nada da história, que lhe pareceu mais séria e ameaçadora. Fez um fusué danado e ameaçou o marido de voltar para casa do pai, que tal como ele era um abastado proprietério. Amedrontado com o desenrolar dos acontecimentos, o coronel prometeu à esposa terminar definitivamente com o caso, no que foi ajudado pelo marido da infiel, que regressou a Portugal trazendo-a consigo e à filha de ambos.
- É uma história muito interessante... mas e o colar? - Interrompeu Júlia, que até ali ouvira calada o outro lado da versão que tão bem conhecia.
- Há, o colar! O colar foi oferecido pelo coronel à esposa, no intuito de apaziguá-la e fazê-la esquecer o acontecido.
- Muito romanesca! Digna dum filme... Obrigada por ma ter contado. - Intimamente Júlia  estava embasbacada. Afinal e como diz o ditado "não há fumo sem fogo"... A voz de Leila despertou-a dos seus pensamentos.
- É pena que não saiba a história do seu colar. Sabe que na altura estas jóias eram normalmente feitas por encomenda e com um propósito bem definido, ou alegrar ou calar uma mulher... - A brasileira fez mais uma vez ouvir a sua alegre risada. - Gostei de conhecê-la e achei muito engraçado termos jóias iguais.
- Eu também achei muito engraçado e gostei muito de conhecê-la.
Separaram-se com um aperto de mão amistoso.
Encontrou Pedro ainda a conversar com os colegas, interrompendo-se quando a viu.
- Então querida, onde te meteste? Provaste todos os canapés do bufete?
- Não, não... depois te conto...
-Vai começar o Show. Vamos ver?- Pedro enlaçou-a pela cintura e afastaram-se depois duma rápida despedida aos colegas e respetivas esposas.
A festa prolongou-se pela noite dentro e era já muito tarde quando regressaram a casa. Enquanto tirava o colar, ouviu a voz do marido vinda da sala onde fumava um último cigarro.
- Afinal porque fugiste de mim por tanto tempo?
- Amanha conto-te amor. Agora estou cansada.
Colocou o colar cuidadosamente no estojo donde o retirara algumas horas antes. Parecia ter outro brilho e o verde das suas pedras parecia mais vivo, mais transparente, verdadeiramente enigmático.  Ficou-se a olhá-las por momentos antes de o fechar.  Sobressaltou-se ao ouvir a voz do marido atrás dela.
- Estás a admirar a jóia de família? - Comentou divertido.
- Pois estou! Não é linda?


Virgínia Santana

Conto da minha autoria

9/09/2012




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