segunda-feira, 30 de julho de 2012

O PRESENTE

O narizito achatado contra o vidro da grande montra, os olhos azuis desmedidamente abertos, a criança olhava encantada os variados brinquedos expostos. A tiracolo a sacola de lona grosseira, contendo os jornais do dia que deveria vender até à noite. Os transeuntes passavam apressados no vai-vem do dia a dia, roçando as suas costas magras, empurrando-o por vezes, mas ele ignorava-os completamente perdido naquele mundo de sonho e fantasia, aberto ante os seus olhos extasiados.
Detive-me junto dele, interrompendo o meu passeio matinal ao longo da avenida. Sentindo a minha presença a seu lado, olhou-me e um sorriso tímido aflorou-lhe o rosto. Sorri-lhe também e perguntei-lhe.
- Qual gostas mais?
O dedito indicador deslizou pela superfície polida, numa escolha difícil. Deteve-se finalmente na direção duma grande bola de várias cores que um manequim infantil fingia chutar alegremente.
- Daquela bola. É linda! - disse finalmente num sopro.
Observei a figurita infantil. Devia contar uns 10 anos, talvez menos. Os pézítos descalços, as calças remendadas, obviamente mal agasalhado para enfrentar o frio cortante daquela manhã de Outono. Senti-me subitamente triste e veio-me á memória aquela estrofe dum poema de Augusto Gil " mas as crianças senhor, porque lhes dais tanta dor", que decorara nos meus tempos de escola. Tirei a carteira e contei o dinheiro que trazia. Devia chegar. Há tantos anos que não tinha a oportunidade de dar alegria a alguém. A esposa morta, os filhos dispersos...
- Espera aqui um momento.
Entrei no estabelecimento com poucos clientes aquela hora matinal. Dirigi-me a uma empregada que me atendeu com um sorriso.
- Por favor, dê-me aquela bola ás cores que está na montra.
A rapariga foi buscá-la. Interrompi-lhe o gesto ao vêr que ia embrulhá-la.
- Obrigada. Vai mesmo assim.
Paguei e sai debaixo do seu olhar perplexo.
Ele continuava encostada á vitrina, mas agora de costas para ela. Gritava a plenos pulmões.
- É o diário! É o diário!
Aproximei-me e toquei-lhe o ombro magro.
- Pega..É tua.
Ele levantou para mim os seus grandes olhos estupfatos.
- Para mim?
- Sim, para ti. É tua. - confirmei.
A bola mal cabia nas suas pequenas mãos sôfregas
- É minha - repetia - é minha.
- É tua sim - insisti - podes brincar com ela.
Subitamente agarrou a minha mão e apertou-ma. Cintilavam estrelas nos seus olhos e um sol parecia ter nascido no seu rosto.
- Obrigado.
Atirou a bola ao solo e viu-a saltar acima dele Apanhou-a de novo e foi a chutá-la pela rua abaixo. Já ia longe e ainda me chegavam aos ouvidos as suas alegres risadas.
Continuei o meu passeio. Arrefecera muito e os passantes apertavam a si  os agasalhos num gesto instintivo. Estava frio realmente, mas há muito que não sentia um calor assim no meu coração de velho.

Virgínia Santana

Conto da minha autoria escrito em 29/03/1974

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