terça-feira, 31 de julho de 2012

A SERESMA

Os olhos cor-indefinida da D. Aninhas brilharam de cólera e os lábios finos cerraram-se fortemente num trejeito de raiva. Passou lentamente o indicador da mão direita  pelo valioso móvel de Jacarandá com puxadores de prata, relíquia dos seus antepassados, depois de tê-lo observado minuciosamente á contra-luz e retirou-o cheio de pó.
A sua voz de estentor, bem de acôrdo com o seu físico avantajado, ressoou através da grande casa apalaçada.
- Ilda, Ilda! Venha aqui por favor.
Ouviu-se um leve ruído de passos e uma figura feminina surgiu no limiar da porta. D. Aninhas avaliou por momentos com olhar crítico a recem chegada, recurvando os lábios com desdém.  Sempre, desde o primeiro dia, que embirrara com aquela rapariga. Se não fora o Carlos, o seu amado filho a trazê-la, acompanhada duma história mais ou menos aceitável que não se atrevera a contestar, nunca a teria admitido ao seu serviço. Não podia suportar aquele olhar esvaído, implicava com os cabelos louros que lhe caiam suavemente pelas costas esguias e com o narizito arrebitado e irreverente, que ela costumava erguer em atitude de desafio, quando a repreendia pelos seus contínuos desleixos.
Exibiu o dedo sujo de pó, como se de valioso troféu se tratasse, agitando-o na frente do rosto juvenil, fazendo tilintar a pesada pulseira de ouro.
- É assim que limpa o pó dos móveis, minha menina?
Ilda, que preventivamente havia recuado um passo, tossiu levemente e nos seus belos olhos azuis surgiu um brilhozinho de ironia, que ela não conseguia evitar em tais ocasiões.
- Passo-lhe um pano todos os dias, D. Aninhas.
-Todos os dias? É o cúmulo! - E num arranque final, que era a sua vingança costumeira. - O que a menina é, é uma seresma, uma grande seresma...
Naquela noite, fazendo o seu croché, sentada em frente do filho, a sua razão de viver, como repetia invariavelmente depois da morte do marido, D. Aninhas esperava impacientemente uma oportunidade para lançar o seu veneno, mas o rapaz parecia demasiado interessado nas últimas do desporto e apesar de muitos bocejos e tossidelas, não conseguia chamar a sua atenção.
Finalmente ele dobrou o jornal e ela abordou de imediato o assunto que a preocupava.
- Preciso falar-te meu filho.
Carlos olhou-a interrogativamente, deixando transparecer uma expressão de enfado, pois adivinhava pelo ar solene da mãe, qual o assunto em questão.
- Diga, mãe. -  Animou-a enquanto acendia um cigarro.
D. Aninhas ajeitou-se melhor na poltrona onde se instalara, adotando aquele ar solene das grandes ocasiões. Já abordara aquele assunto várias vezes e sabia-o difícil.
- É sobre a Ilda, meu filho. Está cada vez mais negligente. Gostaria de prescindir dos seus serviços, mas como ma recomendaste com tanto empenho...
Carlos levantou-se e iniciou um passeio incessante á volta da sala. D.Aninhas, na expetativa, rodava a cabeça coroada de grandes caracóis, acompanhando aquele vai-vem irritante. Quando Carlos falou finalmente, as palavras sairam-lhe num sopro.
- Já vi que detesta a Ilda minha mãe e lamento pois vou casar-me com ela.
D. Aninhas não desmaiou, pois seria impróprio a uma pessoa da sua linhagem, ter um fanico por causa duma criada.
Três meses depois, pelo braço de Carlos, já seu marido, Ilda descia os degraus do templo sagrado.
Os seus olhos refletiam a cor do céu e na sua boca bailava um sorriso de felicidade.
D. Aninhas entre os demais convidados olhava despeitada aquele quadro encantador. Um deles, amigo de longa data, abeirou-se dela e segredou-lhe.
- Linda a sua nora.
Fazendo um trejeito de enfado, ela respondeu entre dentes.
- Uma seresma, uma grande seresma, que me saiu uma grande sonsa.
- Minha querida amiga, o que lhe saiu foi o tiro pela culatra. - E afastou-se em direção aos noivos para lhes dar os parabéns.

Virgínia Santana

Conto da minha autoria escrito em  24/06/1978

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